Cadeirinha
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Museu: Museu de Lamego
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Nº de Inventário: 336
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Super Categoria:
Arte
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Categoria: Meios de transporte
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Autor:
Holmes, George ; (-)
Griffin, William Morley (-)
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Datação: 1790/1795
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Dimensões (cm): Comp. 254 x Alt. 164 x Larg. 78
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Descrição: Cadeirinha em estilo Império constituída por caixa prismática de base semicircular e por dois varais amovíveis. A caixa é exteriormente revestida a couro negro com aplicações de marroquim vermelho e, sobre este, ornatos em bronze dourado e recortado, a delimitar os painéis.
Possui três janelas elevatórias de recorte retangular: duas na parte anterior dos alçados laterais e uma na portinhola, que corresponde ao alçado dianteiro. Portinhola com puxador esférico e fecho (moderno) sobre espelho de bronze forjado e recortado com motivos fitomórficos. O tejadilho, articulado e ligeiramente abaulado, é exteriormente revestido de couro negro. Os ornatos acima referidos formam frisos contínuos de guillhochés, discos e motivos de madressilva e acantos, de inspiração neoclássica. Lateralmente, e sensivelmente a meia altura da caixa, encontram-se as passadeiras ou "mãos" retangulares para encaixe dos varais, decoradas com motivos vegetalistas excisos. Na dianteira, possui um par de alças em têxtil, inseridas nas extremidades de ambos os varais, destinadas aos carregadores. No alçado traseiro, no painel superior, são visíveis vestígios da colocação de um escudo de armas/monograma inserido em cartela, hoje desaparecido, e que seria essencial para nos esclarecer sobre o original proprietário.
Interiormente, possui placa de assento regulável em altura por três pares de ranhuras nas ilhargas. A almofada do banco, retangular e baixa é forrada com tecido liso em tom creme, com avental do mesmo tecido e enchimento de crina. A caixa é revestida por um tecido moderno (chita?), listado em bege e tom cru, com motivos de flores miúdas. Cada uma das janelas possui uma cortina do mesmo, suspensa de um arame (moderno) por meio de finos aros metálicos. Para elevação das janelas as molduras inferiores possuem uma fita suspensa, em tecido (moderno).
Sobre o parsevão, abaulado, um tapete de fibra têxtil listado em tons bege, negro e vermelho.
Em data desconhecida, o interior da cadeirinha foi totalmente remodelado, tendo-se procedido à substituição de alguns elementos originais.
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Origem/Historial: As cadeirinhas são um meio de transporte sem rodas que foi muito popular na Europa, sobretudo, entre os séculos XVII e XIX.
De um só lugar, as cadeirinhas eram transportadas por dois ou quatro lacaios (conforme o peso do ocupante) que a erguiam, sustentando os dois longos varais encaixados em suportes apensos nas laterais da cabine, com o auxílio de tiras de couro (ou de têxtil) colocadas à volta do pescoço.
Utilizadas sobretudo em pequenas viagens, as cadeirinhas eram particularmente adequadas para percorrer as ruas estreitas, no interior das cidades.
Em novembro de 2012, Stephen Loft-Simson, especialista britânico em cadeirinhas europeias, tendo-se deslocado ao Museu de Lamego para observar a cadeirinha que aí se conserva, integra-a num conjunto de 87 que se conhecem deste tipo, dito "de Westminster", com o tejadilho ligeiramente abaulado e com ornatos de inspiração neoclássica, muito comuns nos desenhos de Robert Adams, publicados em 1775. De acordo com o mesmo autor, este tipo de cadeirinhas foi produzido entre c. 1765 e c. 1825.
Das 87 cadeirinhas referenciadas, nove foram identificadas por Loft-Simson em Portugal. Todavia, não é muito claro se terão sido compradas novas em Londres ou, mais provavelmente, trazidas por comerciantes portugueses, ligados, eventualmente, ao comércio do vinho do Porto, que as transportavam nos barcos. Sabe-se que eram comercializadas cadeirinhas quase novas em Londres e Dublin a custos muito reduzidos e que eram adquiridas, justamente, por comerciantes. Outros exemplares poderão ter chegado a Portugal através dos fornecedores da Armada Britânica durante a Guerra Peninsular. Das cadeirinhas existentes em Portugal estudadas pelo investigador britânico, aquela que pertenceu ao 1.º Visconde de São Torquato, Luís Augusto Perestrelo de Vasconcelos e Sousa (1822-1907) e que exibe as armas dos Perestrelo Câmara de Lobo, poderá ter sido adquirida diretamente em Londres, durante a estada deste diplomata nessa cidade, onde foi Adido Militar da Legação de Portugal, entre 1878 e 1884.
Símbolos do estatuto social dos seus possidentes, as cadeirinhas eram, muitas vezes, oferecidas como presentes de casamento pelos maridos às suas mulheres.
A origem do presente exemplar não se encontra documentada, estando apenas identificado o seu último proprietário, o poeta lamecense Fausto Guedes Teixeira (1871-1940), conforme inventário de 1942, dos bens doados por D. Margarida Braga Guedes Teixeira (viúva do poeta), ao Museu de Lamego, onde é mencionada: "323 - Uma cadeirinha (de arruar) forrada exteriormente de couro liso, preto, com ornamentos metálicos em estilo Império. 1.500$00".
Fausto Guedes Teixeira foi sobrinho neto do 1.º Visconde de Valmor, José Isidoro Guedes, podendo a cadeirinha em apreço estar relacionada com este rico proprietário, que adquiriu a Quinta do Ramalhão (Sintra), em 1851.
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Incorporação: Oferta de D. Margarida Braga Guedes Teixeira, viúva de Fausto Guedes Teixeira, dando cumprimento à vontade expressa pelo marido. (proc. n.º1)
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Centro de Fabrico: Londres, Coventry Street
Bibliografia
- LARANJO, F. J. Cordeiro - Museu de Lamego. Lamego: C.M.Lamego, 1991
- LOFT-SIMSON, Stephen - The European Sedan Chair. A brief history. [disponível online em: www.sedanchair.co.uk]