Descrição: No final da sua vida, Sequeira regressou a Roma, onde se dedicou a uma notável série de quatro pinturas religiosas em que esta Adoração dos Magos se insere. Constituem, todas, um verdadeiro testamento artístico, em que se expressam não apenas as suas preocupações fundamentais sobre a cor, a luz e a forma, mas também a sua busca de uma síntese entre a tradição clássica e o romantismo. Notável pela prodigiosa modelação das figuras e da luz e pela estrutura da composição, esta é talvez a mais conseguida pintura de toda a série.
Como figura central da composição – cuja construção espacial, semi-circular, remete para a ideia de palco, ou anfiteatro - a Virgem segura o Menino nos braços, ladeada por um jovem São José. Diante de si, os três Magos do Oriente trazem oferendas e prostram-se em adoração, seguidos por um séquito de dezenas de personagens, perfeitamente individualizadas nos seus trajes, gestos e expressões.
A desmaterialização das figuras e cenários, que se fundem a perder de vista, sublinham o carácter universal desta multidão, cuja dimensão é extremamente invulgar na iconografia tradicional do episódio. Nos extremos da composição, do lado esquerdo, o apontamento de exotismo dado pelo dois camelos e um elefante apetrechado com um palanquim evocam a viagem dos Magos, enquanto do lado direito uma sugestão de ruína evoca o fim do mundo pagão e o triunfo da Nova Lei. As figuras que fecham a «cena», de costas para o observador e em contraluz, contribuem para a sensação teatral que domina todo o conjunto, onde o foco luminoso da Estrela do Oriente, que incide diretamente sobre Jesus, parece ser o verdadeiro protagonista.
Preservam-se estudos realizados pelo artista para esta obra e demais pinturas da série, quer em coleções particulares, quer no Museu Nacional de Arte Antiga. Os quatro cartões finais pertencem também à colecção do MNAA (2042-2045 Des).
Origem/Historial: A pintura foi realizada por Sequeira em Castelo Gandolfo, Roma, sendo a segunda da chamada Série Palmela (iniciada no Verão de 1827 com a "Descida da Cruz", seguidas pela "Ascensão" e "o Juízo Final", realizadas entre 1829-1832, já durante a doença que vitimou o pintor).
A série foi adquirida em 1845 a Maria Benedita, filha de Sequeira, pelo Duque de Palmela, mantendo-se na família até à sua venda em 2016.
Aberto procedimento de classificação como bem móvel de interesse nacional em 18 de maio de 2021, publicitado no Anúncio n.º 114/2021 do Diário da República n.º 110/2021, Série II de 2021-06-08.
Incorporação: Compra através de campanha de subscrição pública "Vamos por o Sequeira no lugar certo", 2016.
Centro de Fabrico: Roma
Bibliografia
CARVALHO, José Alberto Seabra, SOROMENHO (coord.), Museu das Descobertas, Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga: Imprensa Nacional Casa da moeda, 2019
MARKL, Alexandra Josefina Reis Gomes Markl. A obra gráfica de Domingos António de Sequeira no contexto da produção europeia do seu tempo. Tese apresentada para a obtenção do grau de Doutoramento em Belas-Artes, especialidade de Desenho, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, 2013
PORFÍRIO, José Luís. Sequeira 1768-1837. Um Português na Mudança dos Tempos (catálogo da exposição). Lisboa: IPM, 1997
Exposições
Sequeira 1768-1837. Um Português na Mudança dos Tempos