Xairel do Arreio de Montada de cavalaria de S. Jorge na procissão do Corpo de Deus

  • Museu: Museu Nacional dos Coches
  • Nº de Inventário: A 0247
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Meios de transporte
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: 1750/1775
  • Técnica: Bordado directo e sobre cartão a fio brochado e canutilho.
  • Dimensões (cm): Alt. 45 x Larg. 93
  • Descrição: Xairel rectangular com os cantos inferiores arredondados e um recorte em arco na parte superior, em veludo de seda carmesim agaloado e bordado a prata dourada ou ouro, franjado a ouro e forrado a tecido adamascado em tons de amarelo e verde (teia de algodão e trama de seda). No galão que define o perímetro da peça (40 mm), os fios e as lâminas metálicas desenham quadrifólios interligados por banda ondeada. Ao centro da peça, foi aplicado um galão mais largo (65 mm) que, acompanhando o formato do xairel, descreve vários lóbulos e duplos enrolamentos nas zonas laterais. Nos ângulos inferiores, entre os enrolamentos e o galão de contorno, um motivo fitomórfico constituído por cinco folhas (quatro simétricas, perfiladas, e uma central) unidas superiormente por outras tantas folhas alongadas de menores dimensões, encimadas por círculo a cheio, onde se inscreve um florão de oito pétalas. O círculo, a flor e o prolongamento superior, bifurcado, foram bordados a canutilho liso e crespo, enquanto nos restantes elementos se utilizaram lâminas, fios brochados e lantejoulas. Pelo facto de muitos dos fios se encontrarem partidos e soltos, distingue-se o suporte de cartão que sustenta todo o bordado, assim como a alma de seda amarela. A franja define lateral e inferiormente o xairel, sendo o recorte superior reforçado a tecido vermelho (sarja ?). Entre o veludo e o forro lavrado, existem dois forros internos em linho cru e linho carmesim, resepctivamente. O forro externo, com amplos rasgões verticais, desenha quadrifólios alongados e encadeados, em cujo centro se inscreve um motivo floral a verde. Ainda no reverso do xairel, foram aplicadas pequenas correias de couro munidas de fivela quadrangular wem latão, com fusilhão de ferro. O xairel é uma manta feita de tecido ou couro, de formato tendencialmente retangular que cobre a garupa do cavalo atrás do selim. Era colocada por baixo ou junto a este para evitar ferimento ou atrito no dorso do cavalo. Estado de S. Jorge na Procissão do Corpo de Deus.
  • Origem/Historial: Xairel da montada da imagem de S. Jorge, que figurava na Procissão do Corpus Christi desde a segunda metade do século XVIII. Mais recentemente, a peça figurou nas Procissões realizadas em Lisboa, em 10 de Junho de 1909 e 26 de Maio de 1910, organizadas pela Irmandade do Santíssimo da Freguesia de Santa Cruz do Castelo. O arreio completo procede, originalmente, da Real Casa dos Arreios da Ajuda. A procissão do Corpo de Deus era uma das mais solenes festas religiosas da cidade de Lisboa. Ainda hoje é muito discutível a origem da Procissão do Corpo de Deus, defendendo alguns autores a sua contemporaneidade em relação à festa, instituída em 1264 por Bula de Urbano IV. No caso português, não raras vezes se pretendeu que a procissão tivesse sido realizada pela primeira vez no terceiro quartel do século XIII (reinado de D. Dinis ,1280). Implicitamente, atribuía-se à sua antiguidade a relevância que ela viria a ter no território nacional, encabeçando o longo rol de manifestações de cariz religioso. A partir de 1387, a imagem de S. Jorge começou a figurar na Procissão do Corpo de Deus, fruto da devoção de D. João I que, no decurso da Batalha de Aljubarrota, havia criado um novo grito de guerra ao invocar aquele santo em vez de S. Tiago. A partir de então, a crença em S. Jorge, fomentada pelo próprio monarca e pelo Condestável do Reino, adquiriu proporções tamanhas que, pelo estatutos do Senado, foi instituída uma procissão em sua honra (23 de Abril), ao mesmo tempo que o fundador da dinastia de Avis fazia dele titular do castelo de Lisboa. O seu estandarte foi integrado nas bandeiras da Casa dos Vinte e Quatro, "(...) composta de todos os officios que trabalhavam em ferro e fogo.", à frente dos quais se encontravam os barbeiros e os espadeiros. A seu cargo ficaria a imagem do Santo, que sempre acompanhavam durante a procissão. No "Título do Regimento da Festa do Corpo de Deus", datado de 1517, pode ler-se: "Os Barbeiros, e Ferradores sam obrigados de fazerem uma bandeira rica, e nella hande levar S. Jorge pintado, e cada Barbeiro, e ferrador, hade dar um homem darmas bem disposto, que leve boas armas, bem limpas e louçaans (...)" Por esta altura, a imagem de S. Jorge estava já acomodada em capela própria na igreja do Hospital de Todos-os-Santos, onde se manteve até 1750, data em que passou para a Igreja de Santa Cruz, no Castelo. Celebrada em Portugal desde o séc. XIII, foi o rei D. João I quem, em 1387, determinou que a imagem de S. Jorge, armado cavaleiro e defensor do Reino, acompanhasse a procissão do Corpo de Deus. A imagem do santo, trajada à militar, numa alusão directa ao Mestre de Avis e à vitória de 1385, mas recordando também a sua patente de General, seguia montada num cavalo branco onde era colocada por membros da Irmandade e era ladeada à esquerda por um jovem Pajem a cavalo envergando traje de gala e à direita por um cavaleiro, designado por Homem de Ferro, na qualidade de alferes do santo. A presença do Pagem reporta-se ao episódio da morte do dragão, como sugere um Regimento que acompanhava uma carta régia de D. João II, datada de 10 de Março de 1483. Na Procissão do Corpus Christi, S. Jorge precedia as bandeiras dos ofícios, juntamente com o seu estado, composto por tambores a pé, trombeteiros a cavalo, 46 cavalos com arreios de prata e bronze dourado, logo seguidos dos atabales reais e de doze trombeteiros com instrumentos de prata. Acompanhava-os um grupo de negrinhos a pé com tambores. A partir de 1719, no sexagésimo dia depois do domingo de Páscoa, numa quinta feira, a procissão saía da igreja de S. Domingos, depois do toque das Trindades do meio dia, e percorria um itinerário que ia da Patriarcal (no Paço da Ribeira) ao Rossio, regressando ao ponto de partida pelo Terreiro do Paço. Embora o percurso fosse pouco extenso, demorava algumas horas a ser concluído.(A procissão saía pela Campainha,Tanoaria, rua dos Ourives do Ouro, Douradoures, rua dos Escudeiros, Rossio donde hé-de voltar pela rua das arcas, por detrás da igreja de S. Nicolau, Correaria, ourives da Prata e no fim há-de voltar pela rua Nova , Arco dos pregos e recolher ao Terreito do Paço , ruas de Lisboa antes do terramoto.) Integravam a procissão uma parafrenália de cavalos da Casa Real ricamente ajaezados e conduzidos à mão por criados com librés de gala, os pretinhos tocavam tambores, cornetas e pífaros ornamentados com as respectivas bandeirolas e ostentando chapéus armados. A personagem do Homem de Ferro vestida com uma pesada armadura do séc XIV era representada por um galego de fretes que, em troca da sua prestação, recebia uma moeda de ouro, uma galinha e uma "sangria", curativo muito apreciado para alívio de diversos males. O pajem era personificado quer por um rapaz muito jovem quer por uma rapariga envergando traje vistoso. A procissão completava-se com desfile de inúmeras confrarias e ordens religiosas, que precediam a autoridade eclesiástica da diocese de Lisboa, albergada sob o pálio. Por fim o Rei, os seus ministros e a Corte, acompanhados pela Guarda Real de Archeiros. A organização do "estado de S. Jorge" exigia o estrito cumprimento de um antigo ritual que tinha início na madrugada de quinta feira , quando os "pretinhos" saíam do Castelo e iam buscar às cavalariças reias da Calçada da Ajuda, os cavalos e lacaios necessários ao desfile. regressados ao centro da cidade, subiam de novo as Castelo onde se reuniam ao Homem de Ferro, ao Pajem e ao Santo. Colocado este sobre o seu cavalo, o préstito rumava a casa do Duque de Cadaval, que anualmente cedia o elegante chapéu ornado com profusas e esplêndidas jóias, ostentado pelo Santo. Finda a procissão todo o cerimonial se repetia, com a devolução do chapéu ao Duque, a colocação da imagem na sua capela do Castelo e a entrega dos cavalos nas cavalariças de Belém. " Foi D. João V que transformou a procissão do Corpo de Deus num imponente festejo religioso ...Mandou armar com preciosa sedas todas as ruas por onde passava a procissão e cobriu-as de toldos de damasco. O chão era alcatifado com ervas agradáveis ao olfato e também com vistosas flores... Ordenou que se levantasse no Terreiro do Paço, desde a parede do palácio real até à ponta do Arco dos Pregos, uma colunata de madeira lavrada e ornada de pinturas...Em 1719 o arquiteto Frederico Ludovice, ajudado por Claude Laprade, foi encarregado da ornamentação das ruas... A ornamentação era habitual mas D. João V aumentou estas despesas de tal maneira que novos impostos camarários se tornaram imprescíndiveis... Aquilo que era anteriormente um espectáculo para o povo, que se divertia com os carros e as danças oferecidas pelas corporações de ofícios, passou a ser uma manifestação do poder régio..." In SILVA, Maria Beatriz Nizza, D. João V, Lisboa, Cículo de Leitores, 2011. Documentação manuscrita e fotográfica comprova a utilização do arreio que actualmente integra o espólio do M.N.C. na Procissão do Corpo de Deus realizada em Lisboa em 14 de Junho de 1906, 10 de Junho de 1909 e 26 de Maio de 1910. Nas duas últimas datas, pelo menos, a procissão foi organizada pela Irmandade do Santíssimo da freguesia de Santa Cruz do Castelo, administradora dos bens e serviços do culto ao mártir S. Jorge.
  • Incorporação: Repartição das Equipagens Reais (Necessidades).

Bibliografia

  • Catálogo da Exposição De Picadeiro a Museu/De Museu a Picadeiro. Lisboa: IPM/MNC, 1995
  • Catálogo da Exposição William Beckford e Portugal - A Viagem de uma Paixão. Lisboa: Palácio de Queluz, 1987
  • FREIRE, Luciano - Catálogo Descritivo e Ilustrado do Museu Nacional dos Coches. Lisboa: 1923
  • Guia do Museu Nacional dos Coches. Lisboa: IPM/MNC, 2002
  • Inventário de Todos os Bens Móveis e Semoventes que Existiam no dia 31 de Janeiro de 1908 no Museu dos Coches Reais (MNC - Doc. 3618/3618-A): 31 Janeiro 1908
  • KEIL, Luís - Catálogo do Museu Nacional dos Coches, 1943. Lisboa: 1943
  • Relação dos Objectos que Constituem Bens da Coroa e que Achando-se a Cargo da Repartição das Reais Cavalariças foi Entregue ao Museu Nacional dos Coches, em 3 de Setembro de 1908 (MNC - Doc. 3619). Lisboa: 3 Set 1908
  • Repartição das Reais Cavalariças - Carros Nobres, Arreios de Tiro e Cavalaria, Aprestos de Torneio,- Catálogo do Depósito I, 2ª ed.. Lisboa: Tip. de "A Editora", 1905

Exposições

  • William Beckford e Portugal - A Viagem de uma Paixão

    • Queluz, Palácio Nacional
    • Exposição Física

Obras relacionadas

Multimédia

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