Descrição: São João Baptista, que surge destacado das restantes personagens, quer pelo isolamento da sua figura, como pela escala em que é representado, aparece no lado direito do quadro, nimbado e envolto num manto azul que lhe cobre um panejamento pobre de cor castanha. Segundo o texto bíblico (Mt.3), o Baptista, santo eremita, retirou-se para o deserto (que, na pintura ocidental, é normalmente substituído por uma floresta), vestindo-se com uma túnica de pêlo de camelo e alimentando-se apenas de gafanhotos e mel selvagem. Aí terá começado a apelar à penitência afirmando que o reino de Deus estaria próximo.
O Santo dirige-se a um grupo composto por homens (de pé), mulheres e crianças (sentados no chão), que se dispõem em semi-círculo e se enquadram numa paisagem pontuada por arvoredo e por arquitecturas.
É de destacar o colorido luminoso e vibrante das roupagens da multidão (que contrasta com as vestes do Santo), e a figura masculina que se recorta em primeiro plano, sentada a três-quartos, e que tem a cabeça coberta por um turbante, o que constitui um apontamento exótico interessante que, aliás, tem paralelo com pormenores das roupagens de alguns dos ouvintes da prelecção.
Na base da pintura aparece uma arcaria que se abre sobre um fundo azul.
Origem/Historial: A "Pregação de São João Baptista" forma, juntamente com "Santo Antão e São Paulo Eremita", "Santo Antão e o Sátiro", "São Jerónimo" e "Visão de Santo Antão", um conjunto designado por "série dos arcos" devido à arcaria que se rasga sobre um fundo azul e que corre a parte inferior de todas as tábuas. O "Retábulo do Mestre dos Arcos", nome pelo qual também é conhecido, não foi ainda objecto de um estudo aprofundado, com a excepção da contribuição de Luís Reis-Santos que atribuíu a autoria dos quadros a Gregório Lopes, o que, contudo, não deixa de levantar alguns problemas, uma vez que estas pinturas não se enquadram plenamente no estilo do pintor.
Este quadro, tal como os restantes quatro painéis que compunham o conjunto da "série dos arcos", provêm do Convento de São Bento da Saúde, embora tudo indique que não seriam originários desta instituição beneditina, uma vez que apenas foi construída em 1598, ou seja, numa data posterior à feitura dos quadros.
Incorporação: Transferência: Convento de São Bento da Saúde (Lisboa)
Bibliografia
RÉAU, Louis - Iconographie de l'Árt Chrétien. Tomo II: Iconographie de la Bible - Ancien Testament. Paris: PUF, 1956
MENDONÇA, Maria José - Catálogo da exposição de Primitivos Portugueses (texto policopiado inédito). Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga, 1940
CAETANO, Joaquim Oliveira - "Gregório Lopes", in Grão Vasco e a Pintura Europeia do Renascimento. Lisboa: C.N.C.D.P., 1992
CARVALHO, José Alberto Seabra de - Estudo sobre proveniências do Museu Nacional de Arte Antiga (trabalho de estágio para técnico superior de 2ª classe do Museu Nacional de Arte Antiga. Inédito): 1991