Técnica: Madeira decorada com embutidos de marfim. Escultura em marfim.
Dimensões (cm): Alt. 18 x Larg. 58 x Prof. 58
Descrição: Raro tabuleiro de jogo desdobrável para xadrez, jogo de damas e gamão. Apresenta uma estrutura ou caixa interior paralelepipédica, constituída por três compartimentos, um de planta quadrada a meio, e dois de planta rectangular, um equipado por gaveta com fechadura, servindo para conter as peças de jogo. A gaveta, ao abrir, aciona a subida de uma figura feminina entalhada em marfim (uma hindu nativa), que ultrapassa o plano do tabuleiro através de um alçapão ao centro, sinalizando o final do jogo. O compartimento do tardoz funcionaria como caixa de música, subsistindo as cordas originais, igualmente accionadas ao abrir a gaveta (Carvalho, 2008, p. 55).
O tabuleiro, em sissó, assenta nesta caixa fechando o topo dos compartimentos. De planta quadrada, articula-se em três partes iguais através de dobradiças, com duas abas que, caindo, envolvem as ilhargas da caixa interior. Em esquadria com as abas, duas faces dentadas em sissó, que funcionam como pés quando aberto, permitem que o tabuleiro se feche como uma caixa. Esta forma, e o seu complexo encaixe geométrico (talvez de inspiração otomana), parece ser única a esta produção, não se conhecendo paralelos, europeus ou asiáticos. O tabuleiro apresenta uma zona central axadrezada para o jogo de damas e xadrez com sessenta e quatro casas, alternando entre rosetas embutidas, incisas e preenchidas, ora a massa de coloração verde, ora vermelha. É emoldurado por diversas cercaduras, uma interior de rosetas alternando em círculo e losango; uma larga cercadura, onde estão colocados em lados opostos, para cada um dos jogadores, dois escudetes de bordas alteadas para conter peças de jogo, decorado com friso de arcarias do mais puro estilo arquitectónico dos sultanatos do Decão - a lembrar as arcarias do Ibrahim Rauza, monumento funerário de Ibrahim 'Adil Shah II (r. 1580-1627) em Bijapur (Michell, 2011) -, decorado a marfim inciso e preenchido com massa de cores contrastantes; e um rebordo alteado onde, do lado interior, assentam as peças para o gamão no perfil interior recortado em semicírculos. Produzido no Decão sob domínio português, onde se destaca a vila de Taná como o mais reputado centro de marcenaria de alta qualidade para exportação (Crespo, 2016, pp. 136-171, cat. 15), este tabuleiro encontra paralelo num raro ventó aqui exposto (cat. 60), já que partilha da mesma decoração dos embutidos ebúrneos, incisa e preenchida a massa de cores, e que remete para a decoração parietal ou arte kaavi (sgraffito a branco e vermelho, um pigmento de laterite conhecido por kaav), caso dos interiores das igrejas de Goa ou dos templos hindus da costa do Concão (Lopes, 2016, pp. 185-190).
Os tabuleiros de jogo, planos e de face dupla, rapidamente se difundiram na Ásia, sendo levados pelos portugueses nas naus da Carreira da Índia e aí replicados com as madeiras exóticas e resistentes indianas, e as refinadas técnicas locais, como o sadeli, a mando de ricos mercadores, oficiais e capitães do Estado Português da Índia (cat. 120-122). Com efeito, o xadrez, jogo que se considerava originário da Índia, era dos mais apreciados na corte portuguesa dos Descobrimentos e no qual o rei Sebastião I (r. 1557-1578) se teria notabilizado (Markl, 1996, p. 97). João de Barros, cronista da Expansão Portuguesa na Ásia, relata nas suas Décadas o curioso episódio de, em 1509, aquando dos primeiros contactos com Malaca, ter sido Diogo Lopes de Sequeira surpreendido por um local, inimigo, quando jogava xadrez na sua nau (Markl, 1996, p. 95). Exemplares desta produção de tabuleiros de jogo com duas faces são raros, sendo ainda mais incomuns os que apresentam numa das faces o jogo do ganso (Jaffer, 2002, pp. 20-21, cat. 4; e Chong, 2013, p. 130, cat. 142). Muito raros são igualmente os tabuleiros desdobráveis como o presente, conhecendo-se uns três exemplares faixeados a ébano e sissó com ricos embutidos de marfim de cores vibrantes (Carvalho, 2008, pp. 54-55, cat. 12; e Jordan Gschwend & Lowe, 2015, p. 47, fig. 35), como também outros dois de decoração semelhante (Curvelo, 2009, p. 23, fig. 3a-b),
Descrição de Hugo Miguel Crespo para o catálogo da exposição «A cidade Global. Lisboa no Renascimento», MNAA, 2017
Origem/Historial: Integrou as coleções do Palácio Nacional da Ajuda por transferência da Casa Real Portuguesa. Consta no Arrolamento do Paço da Ajuda – elaborado entre 1911 e 1912 – com a referência de inventário K’’’134 , cujo selo se encontra colado num dos montantes. No Arrolamento, o bem é referido como tabuleiro de damas e gamão. No entanto, não é referida a existência de fichas ou peças desses jogos.
A referência do arrolamento permite-nos ainda localizar o tabuleiro, em 1911, no então chamado “armazém do tesouro” – hoje reserva das coleções de mobiliário e de vidro.
Na década de 70 do séc. XIX, o tabuleiro encontrava-se na Sala Chinesa, conforme se pode observar numa fotografia da sala da autoria de Henrique Nunes. Na fotografia o tabuleiro encontra-se fechado, pousado no chão junto à parede a nascente . A sala Chinesa expunha principalmente os presentes diplomáticos do Japão e alguns objetos de outras partes da Ásia nomeadamente da Índia, como é o caso deste tabuleiro.
Incorporação: Casa Real
Centro de Fabrico: Índia - Província do Norte do estado portguês da Índa. Povavelmente Taná (atual Bombaim, Mumbai)
Bibliografia
Carvalho, Pedro Moura, "Luxury and Export – Artistic Exchange Between India and Portugal around 1600". Catálogo da exposição homónima no Isabella Stwart Gardner Museum, Boston, 2008.
AA.VV. A CIDADE GLOBAL. LISBOA NO RENASCIMENTO Lisboa: DGPC/MNAA, INCM, 2017. 384 pp.