Descrição: Cena de mitologia romana representando um episódio da infância de Júpiter.
A propósito desta pintura José Alberto Seabra Carvalho, comissário da Exposição efectuada em 2001 pelo Museu Nacional Soares dos Reis, intitulada "Francisco Vieira, O Portuense 1765-1805" refere que se trata de "uma pintura misteriosa e sofisticada. A sua história anterior á incorporação no Museu de Viseu é desconhecida e só recentemente foi identificado, por Patrícia Vieira, o tema mitológico nela representado, que evoca uma das versões do nascimento e infância de Júpiter. Esta diz que um oráculo havia advertido Saturno de que seria destronado por um dos seus filhos; para o evitar, Saturno devorou à nascença os seus cinco primeiros descendentes; Reia, mãe de Júpiter, logo que em segredo deu à luz entregou-o às Ninfas de Dodona para que o criassem até à idade adulta, levando a Saturno, na manhã seguinte ao parto, uma pedra embrulhada em panos; Saturno devorou o que a esposa lhe trazia sem perceber que não era a criança; Júpiter estava salvo e a previsão do oráculo cumprir-se-ia.
A pintura sintetiza a narrativa em dois níveis: Júpiter está salvo e rodeado pelas ninfas, doces amas que o alimentavam entre os seios desnudados e aprestos de cozinha, enquanto a que está de pé, de costas para o observador, evoca o embuste de Reia representado no céu - Saturno, sentado em nuvens, prepara-se para receber o que julga tratar-se de um recém-nascido. (...)
Pictoricamente a obra é também algo sofisticada. Há um trabalho de mancha e vibração da luz que funde a profundidade da paisagem com o céu e que se estende, recessivamente, sobre a topografia dos primeiros planos, fundindo os contornos das formas numa pictualidade lírica e muito difusa, levando-nos instintivamente a pensar em pintura britânica da época e numa longínqua suavidade correggiana. As vestes e carnes das ninfas participam dessa franqueza e subtileza pictóricas, mantos e perfis diafanamente sombreados e acentuados com pinceladas de luz muito matéricas, finas e angulosas, que se impõem visualmente como pequenos fragmentos ou sequências de "pura" pintura. Nesses motivos de sedução se evolam e justificam "maneiristicamente" algumas impossibilidades anatómicas, como as alongadas pernas das ninfas sentadas, a que acolhe Júpiter em artificioso contornismo de pose e de proporções. É, em suma, uma misteriosa e atraente pintura do versátil Francisco Vieira." (José Alberto Seabra Carvalho, in Francisco Vieira - O Portuense 1765-1805 Catálogo, Museu Nacional Soares dos Reis, 2001, p. 198-199)
Incorporação: Fundo Antigo do Museu. Proveniência desconhecida.
Bibliografia
AA.VV - Francisco Vieira O Portuense 1765-1805, Catálogo, Porto, IPM, 2001