Descrição: Trata-se de um conjunto retabular formado por três tábuas, em que o painel central representa o Martírio de Santo Inácio Bispo de Antioquia; o volante esquerdo S. Pedro na Gruta e o volante direito S. Domingos de Gusmão. A figura calva e de aspecto idoso do Santo ergue-se, no eixo da composição, semi-nua com um pano cinzento envolvendo parte do corpo, olhando para o Céu com os braços erguidos e tendo na mão esquerda um coração aberto. É atacado por quatro leões - pequenos e esguios, fantásticos na sua feição anómala, quais gárgulas mediévicas com grandes garras (o leão representa o contraste entre a natureza divina e a humana, e cuja parte dianteira suscita a impressão de força imponente ao passo que a parte posterior parece em comparação muito fraca. O leão é símbolo da Ressureição de Cristo na ideia de renovação da vida). Aos pés do Santo vêem-se duas caveiras humanas e uma de animal e também os símbolos da dignidade episcopal, uma casula bordada, o báculo e a mitra entre as ossadas. Na zona superior da pintura e por cima do Santo abrem-se na gruta três alvéolos por onde espreita uma galeria de figuras que pela expressividade do rosto e gestos contrastam com a entrega e resignação do Santo. No volante esquerdo, em primeiro plano, vê-se a figura calva e idosa de S. Pedro, no interior de uma gruta, que enverga uma túnica de cor verde com pequeno cinto preto e um manto caído sobre os joelhos de couro vermelho, ajoelhado em posição de oração perante a figura de Cristo, que se encontra em cima de uma mesa, amarrado a uma coluna de base circular com fuste cilíndrico liso e sem capitel (símbolo da permanência e da fortaleza, possivelmente coluna de flagelação), ao lado da qual se vê um chicote. Em segundo plano, do lado esquerdo, vêem-se árvores e um caminho por onde caminham duas pessoas com varas em direcção a uma fortaleza/mosteiro (?); do lado direito vê-se um rio, uma montanha com floresta e o Céu carregado de nuvens. No volante direito, em primeiro plano, vê-se a figura calva e idosa de S. Domingos com os seus atributos iconográficos: o hábito de cor branca com capa preta e pequeno cinto escuro; a tonsura; o bordão e o livro. O Santo tem mãos esguias com dedos finos e compridos. Na mão esquerda segura o bordão e na direita o livro de capas castanhas com decoração a vermelho. Em segundo plano, do lado esquerdo, vê-se uma ponte romana com uma pessoa que se encaminha para a fortaleza/ mosteiro (?) e por detrás vêem-se umas ruínas. Do lado direito, vê-se uma paisagem montanhosa. Na composição constrastam os fundos delicados (onde se verifica a estilização das folhagens do arvoredo, casario de tipo nórdico e a representação de pequenas figurinhas em apontamentos de pincel) e os céus luminosos com a dureza do tratamento das figuras, tanto na modelação dos panejamentos como nas carnações. Apresenta um desenho seco de tonalidades frias (tons freios, os sépias e azuis esverdeados) revelando as limitações do pintor.
Origem/Historial: Segundo as Actas do Colóquio, O Abade de Baçal é feita referência à aquisição do Tríptico da Igreja da Vila (possivelmente o do Martírio de Santo Inácio) adquirido ao Padre Cruz por 200$00 em 1929. Esta pintura pertence ao Inventário dos Bens Culturais da Nação.
Este tríptico em exposição na sala 7 do Museu de Bragança é devido ao mestre pintor Pedro de França, um artista transmontano (França é o nome de aldeia nos arredores de Murça, embora exista outra com o mesmo topónimo a poucos quilómetros de Bragança) que deve ter tido nesta província, durante o terceiro quartel do século XVI, uma incessante actividade: como pintor, documenta a única «oficina» conhecida na região em pleno Quinhentos. Este tríptico que deverá datar de cerca de 1560, na medida em que regista, em relação a um outro tríptico de Murça de (1564-1565) um grau de elaboração técnica menos elaborado, enquadra-se, obviamente, num âmbito artístico provinciano e anacrónico. O pintor Pedro de França, originário porventura da povoação de França, não longe de Murça, radicou-se posteriormente em Guimarães, na rua das Oliveiras, onde descendentes seus ainda tinham residência na segunda metade do século XVII. Pintor de província, entroncou esquemas tardo-góticos das oficinas do século XVI, e passou ao largo das correntes de renovação estética processadas no seu tempo, mesmo quando se servia de gravuras contemporâneas para inspiração dos seus próprios quadros. Assalariado da Colegiada de Guimarães, modestamente remunerado pela sua actividade, Pedro França foi um «produtor de imagens» que, sem estatuto social relevante, e acomodado à sombra do cabido vimaranense que lhe garantiria a sobrevivência, terá sempre mendigado as empreitadas, para poder sobreviver à custa do seu mister.
Incorporação: Fundo Antigo do Museu
Adquirido ao Padre Cruz por 200$00 em 1929
Bibliografia
Instituto Português de Museus - Roteiro do Museu do Abade Baçal - Bragança. [s. l.]: 1994
JACOB, João Manuel Neto (coord.) - Actas do Colóquio, O Abade de Baçal. Bragança: Artegráfica Brigantina, 1999
SERRÃO, Victor - " As oficinas de Guimarães nos séculos XVI-XVII e as colecções de pintura do Museu de Alberto Sampaio" in A colecção de Pintura do Museu de Alberto Sampaio - Séculos XVI-XVII. Lisboa: Tipografia Peres, 1996
SERRÃO, Victor - Estudos de Pintura Maneirista e Barroca. Lisboa: Editorial Caminho, 1989
LAMEIRA, Francisco; CORDEIRO, D. José; JOÃO, Martina del Rio; PIRES, Pe. António A. Ferreira - "Promontoria Monográfica - História de Arte", número 27, Departamento de Artes e Humanidades da Universidade do Algarve, Faro, 2021
Exposições
Pintura Maneirista em Portugal
Centro Cultural de Belém
Exposição Física
Exposição da Pintura Portuguesa dos Séculos XV e XVI