Dimensões (cm): Comp. Vareta/guarda 24 x Alt. 25,5 x Larg. 42
Descrição: LEQUE DE FOLHA DOBRÁVEL, de fabrico chinês, "zhe shan", constituído por uma armação de vinte varetas em madeira de sândalo e por duas guardas em filigrana de prata, e por uma folha singular, em tecido de seda bordada a fios de seda polícromos. Apresenta na base um rebite metálico com aros de madrepérola que fixam uma argola em prata gravada, composta por duas peças contra curvadas que unem formando uma cunha a que se aplicou uma roseta em filigrana de prata e de cujo centro arranca um pequeno anel eventualmente para a suspensão de cordão e borlas de seda (hoje inexistentes).
Anverso: a folha foi realizada em tecido de seda branca, gomada, plissada e bordada em fio de seda frouxo, em pontos cheio e pé de flor, entre outros, definindo a cor branca e tons pastel de rosado, castanho, cinzento e preto. A decoração enquadra-se na temática da antiga tradição chinesa de um dragão de três garras que simboliza a própria China e o Imperador, sendo ainda um emblema da força, autoridade, fecundidade, e da fertilidade porque é o portador da chuva e representa o mês de Março, e de uma dupla (?) fénix, ou "Fenghuang", emblema da imperatriz, augúrio de felicidade, paz, prosperidade, sol e calor.
O colo é integrado por varas de madeira incisa e vazada com motivos de figuração chinesa entre vegetação, sendo as guardas em filigrana de prata (?) com ornamentação vegetalista estilizada.
Reverso: o colo prolonga-se pelas varetas de sândalo, visíveis nesta face, que na área correspondente à folha inserem um espinhado inciso.
O modelo do leque em análise produziu-se na China desde meados do século XIX até ao século XX e talvez ainda perdure. Constituiu-se como uma das tipologias para exportação europeia, com características marcadamente orientais desde os requintados materiais, como a odorífera madeira de sândalo libertadora de agradável aroma e a delicada seda bordada com uma extraordinária temática que reúne dois dos mais significantes motivos, um taoista, a Fénix, e um confucionista, o dragão.
É interessante constatar que estes leques revestidos de mensagens impregnadas de profunda simbologia para o pensamento oriental, eram manuseadas por mulheres ocidentais totalmente desconhecedoras dos respetivos conteúdos tendo uma relação meramente estética com a ornamentação.
Glossário|
Anverso| Face principal do leque.
Argola|Peça semi-circular geralmente metálica, lisa ou com ondulação e tratamento decorativos, fixada junto das duas extremidades do rebite por pequeno aro. Serve para a suspensão do próprio leque e, a partir do século XIX, foi utilizada para segurar cordão e borla.
Armação| Estrutura do leque formada pelo conjunto das varetas e guardas sobre a qual assenta a folha que pode ser de materiais diversos como pergaminho/pele, tecido, rendas ou papel.
Colo| Àrea inferior das varetas.
Fio de seda| Fio obtido a partir dos casulos das larvas "Bombix-mori".
Fio frouxo| Estado de um fio de seda caracterizado por fraca torção, geralmente aplicado em bordados.
Folha (de leque)| Sector superior do leque que consiste numa tira de pele, tecido, renda ou papel com um formato de semi-círculo, apresentando-se simples ou dupla, aplicada/s sobre o mesmo nível da armação, geralmente ornamentada através de pintura, bordado, ou outras técnicas decorativas. Pode ainda ser constituída por plumas.
Guardas| As duas varetas localizadas nas extremidades da armação.
Leque de folha dobrável| Leque de abrir e fechar, constituído por uma armação de varetas unidas na parte inferior e sobre as quais se aplica, superiormente, uma folha pregueada ou plissada. A presente tipologia de abano tem uma remota origem êxtremo-oriental e terá sido introduzida pelos portugueses no Ocidente, por via oceânica.
Reverso| Verso, ou face secundária do leque.
Vara (de leque)|Vareta ou lâmina.
Varetas| Varas que constituem a armação.
"Zhe shan"| Designação para leque de folha dobrável com varetas, na cultura chinesa. A presente nomenclatura foi introduzida pela investigadora Ana Maria Amaro, e obtida na obra da sua autoria referenciada no campo da Bibliografia.
A origem e data rigorosa de criação do “zhe shan” não têm obtido a consensualidade dos investigadores, sendo atribuída a diferentes proveniências, designadamente, ao Japão, à Coreia e à China, e flutuando entre os séculos VII e X.
A presença da palmeira "Trachycarpus fortunei" no território, mais concretamente com habitat nas florestas das zonas montanhosas da China central, e caracterizada por folhas radiantes e com pregas, à semelhança de outras civilizações, e terá constituído uma das origens dos abanos, sendo de considerar o seu formato flabiforme e plissado como um mais que provável inspirador do modelo em foco.
O exemplar pregueado Zhe Shan terá sido usado na China a partir do século X, mas vulgarizado cinco centúrias mais tarde, fruto da acção do Imperador Ming Cheng Zu (1403-1424 d.C.) que promoveu a produção alargada deste objecto que viria a ser particularmente apreciado pelo grupo masculino, especialmente pelo corpo de funcionários administrativos do império que dele fizeram um dos seus emblemas ao longo das Dinastias Ming (1368-1644) e Qing (1644-1911).
Grande parte das sobrevivências de leques, devem-se ao grande apreço pelas folhas dos mesmos por conterem as três artes mais apreciadas na China, a pintura, a caligrafia e a poesia, os quais foram desde a origem conservados em albuns e preservados até à actualidade.
Do acervo chinês do Museu dos Biscainhos podemos referenciar um pires de taça de chá (?) em porcelana chinesa datável do século XVIII, e a pintura a aguarela sobre papel, em que se podem observar homens ostentando presumíveis “zhe shans” fechados.
Origem/Historial: Embora não nos encontremos na posse de documentação comprovativa da proveniência do espólio doado ao museu pela Senhora Dona Maria Delfina Gomes da Silva e Matos de Sousa Cardoso, presume-se que o presente leque poderá ter pertencido a familiares da doadora dentro da funcionalidade e do período da datação.
Incorporação: Doação da Senhora Dona Maria Delfina Adelaide Gomes da Silva e Matos de Sousa Cardoso.
Centro de Fabrico: Centro presumível de fabrico, Cantão, China.
Bibliografia
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Exposições
O leque, elo de civilizações. A colecção do Museu dos Biscainhos.