Descrição: "Ara votiva (...). Sobre a cornija, um fóculo circular elevado, com dois toros lisos adossados, a um nível inferior, de topos decorados com rosáceas. Sob a cornija, um filete directo seguido de moldura de garganta encestada, um filete directo e uma platibanda. A inscrição ocupa o fuste dentro dum campo epigráfico limitado por uma ranhura e uma moldura do tipo garganta reversa terminada por um cordão.
Lateralmente, à esquerda, um jarro com pé cujos contornos apenas se adivinham, porque foi picado; à direita, uma pátera em relevo com cabo para baixo e "umbo". A molduração da base está pouco nítida: parece-nos distinguir, do lado direito, um meio-redondo côncavo seguido de moldura do tipo gola reversa." (J.d'Encarnação, 1984).
DEO ENDOVEL/LICO.SACRVM / BLANDVS CAE/LIAE. RVFINAE / SERVVS / A(nimo). L(ibens). V(otum).
S(olvit) //
Consagrado ao deus Endovellicus. Blandus, escravo de Caelia Rufina, cumpriu de bom grado o seu voto.
Origem/Historial: O Santuário do Deus Endovélico situa-se no Monte de S. Miguel da Mota, Alandroal. Nesse local havia as ruínas de um templo cristão, cujos alicerces e paredes eram em parte constituídos por pedras pertencentes ao culto de Endovélico, tais como aras, estatuetas, bases de estátuas e de aras. No Entrudo de 1890 José Leite de Vasconcelos deslocou-se a S. Miguel da Mota e obteve do dono da herdade, Sr.Manuel Inácio Belo a necessária autorização para iniciar os trabalhos arqueológicos. Nessa altura recolheu algumas peças, que trouxe para a Bilblioteca Nacional de Lisboa, onde, à data, era Conservador. Verificou no entanto que era necessário proceder à desmontagem do edificio para se poderem recolher as melhores peças. Participou tal facto ao Inspector Geral dos arquivos e bibliotecas públicas do reino, Sr. António Ennes, que conseguiu autorização do Ministro do Reino que mandou fazer a exploração arqueológica. Foi José Leite de Vasconcelos encarregado desse trabalho, que iniciou na Páscoa desse mesmo ano. Trouxe cerca de 200 lápides (elementos arquitetónicos, fragmentos, etc.) que se depositaram na Biblioteca Nacional e foram daí transferidas para o Museu.
Além das peças exumadas as excavações de José Leite de Vasconcelos, ainda conseguiu trazer para o museu as peças que estavam na igreja dos Agostinhos em Vila Viçosa, sendo estas oferecidas pelo Rei D. Carlos no ano de 1906.
Incorporação: D. Carlos I
Bibliografia
ENCARNAÇÃO, José d' - Inscrições Romanas do Conventus Pacensis- Subsídios para o Estudo da Romanização. Coimbra: 1984
HÜBNER, Emil - Corpus Inscriptionum Latinarum, vol. II. Berlim: 1869
INVENTÁRIO do Museu Nacional de Arqueologia, Colecção de Escultura Romana. Lisboa: I.P.M., 1995
LAMBRINO, Scarlat - "Catalogue des Inscriptions Latines du Musée Leite de Vasconcelos", in O Arqueólogo Português, série III, vol. I. Lisboa: MNA, 1967
LAMBRINO, Scarlat - "Le Dieu Lusitanien Endovellicus", Bulletin des Études Portugaises et Brésiliennes, XV. Lisboa: 1951
PEREIRA, Gabriel - "Mitologia Iberica", A Renascença: 1878
RIBEIRO, José Cardim (Coord) - Religiões da Lusitânia, Loquuntur saxa. Lisboa: IPM, 2002
ROCHA ESPANCA, Joaquim José da - O Deus Endovellico dos Celtas do Alentejo, in Bol. da Sociedade de Geografia de Lisboa, vol.II. Lisboa: 1882
VASCONCELOS, José Leite de - Religiões da Lusitania, II. Lisboa: Imprensa Nacional, 1905
ENCARNAÇÃO, José d' (2007) - Endovélico- 400 anos depois, In Actas do II Colóquio Internacional de Epigrafia «Culto e Sociedade», Sintria, Sintra, Museu Arqueológico S. Miguel de Odrinhas, p. 149-163