Lança do Coche da Coroa, Embaixada de D. João V a Luís XIV- Embaixador D. Luís da Câmara Conde da Ribeira Grande

  • Museu: Museu Nacional dos Coches
  • Nº de Inventário: AV 0051
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Meios de transporte
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: 1715
  • Suporte: Madeira de carvalho e/ou azinho (rodados e estrutura)
  • Técnica: Madeira entalhada, policromada e dourada;
  • Descrição: Acessório de viatura, varal de madeira, fixado na estrutura da viatura (tesouras) que faz a ligação/ encaixe (neste caso 2 encaixes perpendiculares) entre a viatura e a atrelagem dos animais, apenas na parelha do tronco (mais próxima da viatura). Lança 16 , Lança de Coche da Coroa, Embaixada de D. João V a Luís XIV- Embaixador D. Luís da Câmara Conde da Ribeira Grande
  • Origem/Historial: * Forma de Protecção: classificação; Nível de Classificação: interesse nacional; Motivo: Necessidade de acautelamento de especiais medidas sobre o património cultural móvel de particular relevância para a Nação, designadamente os bens ou conjuntos de bens sobre os quais devam recair severas restrições de circulação no território nacional e internacional, nos termos da lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro e da respectiva legislação de desenvolvimento, devido ao facto da sua exemplaridade única, raridade, valor testemunhal de cultura ou civilização, relevância patrimonial e qualidade artística no contexto de uma época e estado de conservação que torne imprescindível a sua permanência em condições ambientais e de segurança específicas e adequadas; Legislação aplicável: Lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro; Acto Legislativo: Decreto; N.º 19/2006;18/07/2006 * A bibliografia mais antiga refere este coche como sendo uma das quarenta e nove viaturas de gala que acompanharam D. João V à fronteira do Caia, tendo então servido para transportar o monarca português, que se deslocou a Espanha a fim de negociar o casamento dos seus dois filhos. Outros autores contemporâneos defendiam, pelo contrário, que este carro havia sido construído para as cerimónias de casamento do "Magnânimo" com a Arquiduquesa D. Maria Ana de Áustria, em 1708. Modernos trabalhos de investigação conduziram à revisão das teses iniciais, pelo que é hoje possível afirmar que o coche vulgarmente designado por "Coche da Coroa" integrou a Embaixada do Conde de Ribeira Grande, D. Luís Manuel da Câmara, enviado especial de D. João V à corte de Luís XIV de França. Com esta manifestação pública realizada em 18 de Agosto de 1715, o soberano português cimentava as relações diplomáticas com as restantes cortes europeias, celebrando em uníssono o fim da Guerra da Sucessão de Espanha e a recém-proclamada Paz de Utreque. Nesta Embaixada, que integrava também o coche nº invº 15, dito do Infante D. Francisco (hipótese avançada por PEREIRA, 1987 e recentemente confirmada), a viatura em apreço ocupava o primeiro lugar no desfile e era alusiva à Paz. O 3º Conde de Ribeira Grande (1685-1723), capitão-general da ilha de S. Miguel e alcaide-mor do castelo de S. Brás, foi um dos nobres portugueses directamente empenhado na Guerra da Sucessão de Espanha. Pela coragem demonstrada em diversas empresas militares, particularmente na defesa de Campo Maior contra as forças militares espanholas, foi agraciado por D. João V, que o escolheu para liderar uma importante missão diplomática a desenvolver junto da corte francesa. Esta Embaixada ficaria para sempre famosa pela sumptuosidade e magnificência de que se revestiu, sendo difícil discernir onde acabava a ostentação joanina e começava a daquela casa nobre. Regressado ao Reino, D. Luís da Câmara fixou-se na ilha açoriana, de onde era natural, incentivando a recém-criada indústria de lanifícios através da contratação de inúmeros operários franceses especializados. Na década de 1830, o coche encontrava-se depositado nas Reais Cocheiras do Calvário, em Lisboa, de onde transitou em 1873 para as Reais Cocheiras da Calçada da Ajuda. Por último, em 1904, foi transferido para o Depósito I da Repartição das Reais Cavalariças (antigo Picadeiro Real de Belém), futuras instalações do Museu dos Coches Reais. Ao longo do século XIX, esta carro serviu em diversas cerimónias da corte, razão pela qual possuía um segundo parsevão amovível, revestido a veludo carmesim e que consta do Inventário Geral do Museu. - Baptizado da Infanta D. Antónia, 8 de Abril de 1845 - Casamento da rainha D. Maria II com D. Fernando de Saxe Coburgo-Gotha, 9 de Abril de 1836 (transportou a rainha até à igreja) - Funeral da rainha D. Maria II, 17 de Novembro de 1853 - Festejos do casamento de D. Pedro V e D. Estefânia, 18-20 de Maio de 1858 (transportou os nubentes da Igreja de S. Domingos para o Palácio das Necessidades) - Funeral da rainha D. Estefânia, 18 (?) de Julho de 1859 - Funeral de D. Pedro V, 12 de Novembro de 1861 - Casamento de D. Luís I, 6 de Outubro de 1862 (transportou D. Maria Pia à Igreja) - Funeral da Infanta D. Isabel Maria, 23 de Abril de 1876 - Funeral de D. Fernando II, 16 de Dezembro de 1885 - Casamento de D. Carlos e D. Amélia de Orléans, 22 de Maio de 1886 - Funeral do Infante D. Augusto, Outubro de 1889 - Funeral de D. Luís I, 20 de Outubro de 1889 - Aclamação de D. Carlos I, 28 de Dezembro de 1889 - Funeral da Imperatriz do Brasil, D. Maria Cristina, Janeiro de 1890 - Funeral de D. Pedro II, Imperador do Brasil, 13 de Dezembro de 1891 COMENTÁRIO: Comparando o coche em apreço com as descrições dele feitas por fontes coevas ressaltam, antes de mais, as profundas discrepâncias a nível da decoração externa da caixa, por um lado, e da concepção formal dos rodados, por outro. Os rodados actuais são posteriores à construção do carro, apresentando-se descentrados em relação aos eixos. As primitivas rodas, douradas, impunham-se pela sua originalidade e perfeição, sendo formadas por apenas seis raios em vez dos doze tradicionais, sendo que os restantes haviam sido substituídos por "SS" que fechavam nos próprios raios, com o eixo marcado por um florão que ocupava metade do espaço deixado vazio. Quanto ao painel dianteiro, sabemos que originalmente representava a Paz na forma de uma figura feminina sob arco triunfal, assente sobre troféus militares quebrados. Na traseira do veículo, uma palmeira e diversos meninos que com as suas folhas teciam coroas da vitória tendo, de um lado, Mercúrio sobre uma águia, com os atributos das Artes liberais numa das patas e, de outro, Amalteia sobre uma pantera, com os frutos da abundância. Os painéis das portinholas serviam de suporte às armas do Embaixador de D. João V e em cada um dos quatro apainelados laterais representava-se uma figura alegórica que, juntamente com um menino, sustentava uma cifra. De acordo com as fontes citadas, este coche era "(...) por fora, de veludo verde escuro, completamente bordado a ouro, com figuras em relevo (...). Nos cantos de todos os frizos tinhão hum castello de ouro em campo vermelho, & todas estas representações se vião relevadas em bordado sobre o veludo com perfeyção mayor do que a pintura (...)" (Cf. "Notícia...", pp. 5-6). O revestimento têxtil das caixas das viaturas de gala, apanágio da indústria romana do início de Setecentos, começava a ser substituído em França pelos painéis pintados com cenas figurativas e alegóricas como, aliás, denota a decoração do segundo carro da embaixada. Todavia, não será de estranhar que o monarca português tenha encomendado para o representar um carro à "maneira romana", similar aos que se construíam em Roma para a entrada pública do Marquês de Fontes na corte de Clemente XI, e equiparado ao daquele diplomata tanto na cor, como na profusão de fio de ouro. Recorde-se, a propósito, que as verbas dispendidas em fio de ouro eram muitas vezes superiores ao valor real do trabalho escultórico da caixa e rodados, servindo mesmo de parâmetro na avaliação final da obra. De resto, o impacte causado por este carro foi tal, que esteve exposto em casa do Embaixador português, para que todos os pudessem admirar. Quanto à decoração pictórica que presentemente reveste a caixa, e excluindo todas as alterações resultantes dos restauros do século passado, parece não restarem dúvidas que terá sido executada posteriormente (quiçá sob D. José I, como anunciava Luciano Freire em 1923), num contexto certamente distinto e que justificasse a inclusão de figuras alegóricas como o "Silêncio", que dificilmente poderiam ser entendidas à luz da celebração da Paz europeia. Elsa Garrett Pinho
  • Incorporação: Casa Real Portuguesa. Bens da Coroa.

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