Técnica: Roda. Decoração pintada a "verde e manganês"
Dimensões (cm): Esp. 0,5-0,8
Descrição: Fragmento de cerâmica coberta de engobe muito claro em ambas as faces. Na face interior mostra vestígios de uma película, entretanto alterada. Mostra uma porção do pé anelar baixo e uma porção do corpo hemiesférico com bordo extrovertido e lábio biselado. Na face interior ostenta decoração pintada a "verde e manganês", composta por motivos fitomórficos estilizados e epigráficos, dispostos de forma radial. Os elementos fitomórficos incluem bolbos de lótus e folhas estilizadas articuladas com as hastes alongadas das letras "alif" e "lam". No bordo mostra alternadamente gotas de pigmento verde e manganês. Pasta beige clara, homogénea e bem depurada.
Origem/Historial: Peça proveniente das escavações de Helena Catarino realizadas no Castelo Velho de Alcoutim.
Foi integrada no acervo do Museu Nacional de Arqueolgia por despacho do Ministro da Cultura, ofício nº 7049, de 10 de Novembro se 1997.
Representa o tipo de taças, utilizadas como louça de mesa e que se caracterizam pela decoração pintada a "verde e manganês" que lhes confere o estatuto de objectos de luxo devido ao seu esmerado aspecto estético.
Esta técnica decorativa iniciada nas oficinas palatinas de Madinat al-Zahara, expandiu-se no periodo da fragmentação do poder central para outros centros oleiros de al-Andalus, daí a sua presença em muitos sitios arqueólogicos.
Os motivos decorativos, apesar de uma certa padronização, mostram uma significativa variedade de elementos e estílos.
Entre elementos mais frequentes constam elementos fitomórficos estilizados, onde predominam bolbos e folhas, apresentados soltos ou integrados em composições mais sofisticadas. Em Portugal nas escavações em Cerro da Vila de Vilamoura foi exumado um importante conjunto de taças decoradas com essa mesma técnica e que representam decoração de carácter fitomórfico bastante variada. Peças semelhantes foram reconhecidas também em Mértola e em Silves. São ainda conhecidas taças com decoração de carácter zoomórfico como é o caso, por exemplo, da taça onde está reproduzida uma cena de caça, em que figuram um falcão e uma gazela, proveniente de Mértola e que se tornou um verdadeiro ex-libris do Campo Arqueológico de Mértola. São conhecidos também casos de decoração epigráfica. Mais raros são ainda taças com decoração de carácter antropomórfico, de que em Portugal se conhece, por ora, apenas um exemplar parcialmente conservado, proveniente da alcáçova de Palmela.
Os bordos mostram um tratamento bastante uniformizado que consiste em traços ondulados ou gotas de pigmentos, usualmente alternando o verde e o castanho ou quase negro de óxido de manganês. Em alguns exemplares o bordo está contornado por um entrelaçado.
A mesma técnica decorativa ostentam também algumas bilhas, como por exemplo, uma proveniente do Cerro das Relíquias, pertencente ao acervo do MNA, nº Inv.999.3.2.
O exemplar de taça em apreço ostenta decoração mista em que surgem elementos fitomórficos estilizados, bolbos e folhas alongadas, associadas às hastes alongadas das letras, sendo todos esses elementos dispostos de forma radial. A inscrição, conservada incompleta, permite interpretar as letras "alif", "lam", articuladas com elementos fitomórficos que formam "mim", e ainda "lam" e o que parece "kaf" como "al-mulk" ("poderio", subentendendo-se de Deus).
A inscrição "al-mulk" aparece também numa outra taça fragmentada, decorada a "verde e manganês", proveniente do Cerro de Vila de Vilamoura.
Esta inscrição, executada em pintura aparece em muitos artefactos cerâmicos da época califal e também em peças mais tardias, sobretudo em forma estampilhada, e cujo significado tem sido interpretado por alguns autores na perspéctiva política.
O bordo da taça mostra gotas de pigmento verde alternando com outras a óxido de manganês o que não deixa de produzir um interessante efeito óptico.
A peça caracteriza-se por uma execução esmerada, traços firmes e preenchimento de espaços contornados a óxido de manganês de uma maneira cuidadosa e bem acabada.
Estudo da peça: Eva - Maria von Kemnitz
Incorporação: Integrada no acervo do MNA por despacho do Minisytro da Cultura.
Bibliografia
CATÁLOGO da Exposição: Portugal Islâmico. Os Últimos Sinais do Mediterrâneo. Lisboa: Min.Cult.; IPM; MNA, 1998
CATARINO, Helena - (1999) "Cerâmicas omíadas do Garb al-Andalus: Resultados arqueológicos no Castelo Velho de Alcoutim e no Castelo das Relíquias (Alcoutim)", in Arqueología y Territorio Medieval, vol. 6, Universidad de Jaén, pp. 113-132.
Exposições
Portugal Islâmico. Os Últimos Sinais do Mediterrâneo