Candeeiro de azeite

  • Museu: Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo
  • Nº de Inventário: ME 1917
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Equipamento e utensílios
  • Autor: Autor desconhecido (Latoeiro)
  • Datação: Século 18/19
  • Técnica: Varia consoante os elementos (ver Observações).
  • Dimensões (cm): Alt. 35 x Diâm. 12,5 (base)
  • Descrição: Candeeiro de azeite, em latão, de base redonda à maneira de um prato, com bordo revirado para cima. Do seu centro, eleva-se uma coluna com base troncocónica composta por dois registos. A coluna contém dois aneís na base, um nó balaustriforme e um nó hiperbolóide rematado por um anel saliente sobrepujado por uma calote esférica. Assente sobre um nó de hipérbole, o depósito é esférico achatado, com uma abertura circular na parte superior, onde encaixa interiormente uma tampa torneada em forma de campânula rematada por uma esfera que constitui a sua pega. Fixos a meio do depósito, quatro bicos tubulares equidistantes elevam-se na vertical, encurvando a meio, terminando com uma aplicação ovóide, com o bordo revirado para cima. O depósito é enquadrado por um arco ornamental (que toma apoio num nó de hipérbole precedido por uma calote e fixo por um último nó de hipérbole à coluna), cujo perfil repete exactamente a forma da tampa. O arco é provido de duas asas. De cada uma, pendem duas correntes, perfazendo um total de 4 que sustêm, de um lado, um balde cónico e um espevitador, do outro, um morranzeiro e um apagador coniforme. O reflector rectangular é sustentado por um primeiro suporte acima do nó em hipérbole que remata o arco. O suporte é provido de uma abertura na qual encaixa um gancho para suportar o reflector. O conjunto apenas se mantém firme pela inclinação do gancho e o peso do reflector. A pega é vazada com recorte vegetalista. Enrosca-se na coluna pela base troncocónica rematada por um anel liso. O candeeiro é decorado por várias incisões simples e pouco profundas: 1 par no centro da base; 3 pares na coluna; 1 linha na calote esférica; um filete inciso no topo do depósito. 1 par na tampa; O candeeiro é decorado por diversos frisos: 2 perlados e 1 foliforme na base troncocónica; 1 perlado e 1 em corda no nó hiperbolóide; 1 foliforme e 1 em corda na calote esférica; 1 em corda na extremidade da tampa precedido por 1 foliforme e 1 perlado; 1 em corda no remate da tampa. Acessórios: Apagador: Coloca-se sobre o bico para apagar a chama da torcida. Espevitador: Em forma de pinça, é utilizado para retirar o morrão da torcida e espevitar o lume. Morranzeiro: Coloca-se pelo interior do bico para empurrar para fora o pavio ou mecha e em seguida acendê-lo. Balde: Para colocar o morrão (extremidade queimada e portanto inútil do pavio) com a ajuda do espevitador.(Morrão - Extremidade queimada de um pavio ou torcida.) Elementos essenciais acrescentados pela sua função: Azeite: Combustível. Torcidas: 4 pavios ou mechas de candeeiro. (Ilda Simões, 2009; AFONSO, 1993; AS 802 - AS 805; CAETANO et al., 1993; CORREIA et al., 2007; CHAVES, 1951; PEIXOTO, 1905; PNM 411) Medidas dos elementos (cm) Base Diâmetro: 12 Espessura: 0,3 Coluna Altura: 12 Diâmetro: 2,5 Altura da argola: 1 Diâmetro da argola: 4,7 Depósito Altura: 10 Largura c/ bicos: 15,5 Bicos Altura: 2,4 Largura: 1,5 Comprimento: 3,8 Largura do bocal: 2 Tampa Altura: 4,2 Diâmetro: 4,3 Arco decorativo Medidas: 13x16 Fios I Altura: 3 Correntes Altura: 6,5 Fios II Altura: 2 Morranzeiro Altura: 7,3 Diâmetro: 0,8 Espessura: 0,07 Espevitador Altura: 9,5 Largura: 1,3 Espessura: 0,1 Apagador Altura: 2,3 Diâmetro: 2,1 Espessura: 0,17 Balde Altura: 3,3 Base (largura maior/menor): 2,5/2,3 Topo (largura maior/menor): 3,6/2,9 Suporte I Altura: 5 Largura: 0,7 Gancho Comprimento: 6 Altura: 0,4 Largura: 5 Espessura: 0,3 Reflector Altura: 13,7 Largura: 13 Espessura: 0,075 Pega Altura: 5,6 Largura: 4
  • Origem/Historial: Prática do velório: Até aproximadamente aos anos 70 do século XX, e sobretudo no interior do país, os velórios cristãos eram realizados em casa e requeriam a utilização de um par de candeeiros para flanquear um crucifixo, com o conjunto disposto numa pequena mesa revestida por uma toalha, servindo de altar (Ilda Simões, 2009). A toalha era geralmente branca e decorada com uma pequena faixa de renda na frente e nos dois lados. A sua riqueza dependia das famílias (Cesaltina Santana Alho, 2009). Respeitando a tradição do velório, muitas famílias entre as mais abastadas possuíam pelo menos um par de candeeiros reservado a este uso. Para aquelas que não tinham, era comum pedi-los emprestados juntamente com a toalha, pelo que se recebia muitas vezes a notícia do falecimento de alguém por via desta solicitação. A origem desta prática perdeu-se no tempo, pelo que tem particular relevância os apontamentos de LUCENA (1945) acerca do uso de outro utensílio de luminária que é a candeia:"Parece que a História da Candeia não se limita ao campo da mera utilidade. Teve em tempos a sua função moral, de aspecto propriamente religioso, principalmente nas horas aflitas, ou incertas da vida, sendo no uso antigo, quando alguém se julgava moribundo, meterem-lhe na mão uma candeia para ajudar a melhor morrer, segundo a frase desse tempo." Por outro lado, BIEDERMANN (994) afirma: "Na igreja católica uma lamparina é definida como a luz eterna, que por intercessão dos votos deve brilhar também para os mortos. As velas também são portadoras de luz." A Luz na Religião Cristã: Pelo simbolismo que transmitem, são acesas, mesmo durante o dia, velas e outros suportes que difundem a luz (Joaquim Lavajo, 2009). No Antigo Testamento, no Livro do Génesis que reza a criação do universo, a luz é a primeira manifestação de Deus, que a separa das trevas (Gn 1:3-5). Deus cria em seguida os luzeiros, para separar o dia da noite e marcar as festas (Gn 1:14-19). No Livro do Êxodo, Deus manifesta-se na luz da sarça-ardente (Ex 13:14). A luz simboliza novamente a presença do Eterno que se revela a Moisés na coluna de fumo e a nuvem (Ex 33:9-10), que guia os passos dos peregrinos do Egipto até a Terra prometida e dá segurança ao seu povo (Ex 13:21-22). Outra referência à luz consta no Novo Testamento, no Evangelho segundo São João, onde fica declarado que "Deus é a luz que brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram apagá-la." (Jn 1:5) e que João Baptista recebe também a luz para passar o seu testemunho e transmitir a Fé (Jn 1:6-7). Jesus afirma: "Sou a luz do Universo. Quem me segue, não andará nas trevas, mas terá a luz da vida" (Jn 8:12). Assim, nas várias celebrações da religião cristã, a luz está presente como símbolo de Deus e da sua bondade, e como manifestação da fé dos que crêem. O fogo: "A multiplicidade das aplicações, os beneficios da sua acção, o seu brilho incomparável constituíam atributos que logo o sagraram, trasendo-o a intervir nas mais diversas formas culturais. E assim, ou em cerimónias religiosas de breve duração ou permanentemente em certos ritos, o lume purificador e divinisado assistia perene e rutilante.A chama sagrada honrava-se aos deuses e mortos; e o christianismo herdando do mundo pagão, a bem dizer, o mesmo rito, ainda hoje mantem a tradição nas suas solemnidades humildes ou esplendidas." (PEIXOTO, 1901). Luz e rituais cristãos:"Do facho archote e à vela era minuscula a distância. Substituída a fibra de madeira pela mecha de junco ou de estopa e occupando o logar da resina o sebo ou a cera, o romano, e presumivelmente antes d'elle o etrusco, achou a candella e o cereus (cera). Os christãos apoderaram-se logo e para sempre do invento; dispõem-a junto aos tumulos dos seus martyres ou em face dos seus santos veneraveis, como antes, já acessório religioso, o pagão as multiplicara em altares e sanctuarios das suas divindades; passa de certos rituaes do paganismo para outras festas populares christianisadas, das quaes a Candelaria, entre outras, é um despojo já ténue e apagado; (...) na vida ordinaria os modestos castiçaes de argilla, de folha de ferro e de latão generalisam a adopção do mesmo recurso illuminante;" (PEIXOTO, 1905). Umas horas antes do enterro, eram também acendidas duas velas suportadas por castiçais, junto dos candeeiros. Esta luminosidade, incrementada simultaneamente por candeeiros de azeite e velas de cera de abelha, constituía uma expressão de veneração dos restos mortais de um baptizado na fé cristã. ["Réflexion sur la symbolique des cierges", http://www.belloc-urt.org/schol/la_lumiere.htm, (Novembro 2009)] "Tous les cierges placés sur les autels pour les saints offices et prescrits par les rubriques, ainsi que ceux qui servent aux anterrements (...) doivent être bénis, et ils seront en cire." (MONTAULT, 1878). No interior do país, o corpo era acompanhado desde casa até à igreja por um padre que, também posteriormente ao enterro, "encomendava" o defunto intercedendo pela sua alma, ou seja, rezava para encomendar a sua alma a Deus (Ilda Simões, 2009). Disposição das velas e, por analogia, dos candeeiros: Na Santa Congregação dos Ritos, revista após cada Concilio da Igreja Católica Romana, convém recordar que o número de velas necessárias para a celebração da missa é fixa pela Cerimónia dos Bispos. Ao longo do século XIX e até o Concílio Vaticano II (1965-196), verifica-se que apenas duas velas são suficientes para a missa dita por um padre em toda a circunstância, até para a missa solene dita pela alma de um defunto e para festas simples. São requeridos quatro para a missa solene de domingo de Quaresma, e seis aos domingos e missas solenes. Nas missas rezadas, os candeeiros são aos pares e estão dispostos nos extremos da banqueta de altar a flanquear a cruz (MONTAULT, 1878, p. 298-289). Deste modo, podemos verificar semelhanças com o número par dos candeeiros de azeite e a sua disposição simétrica nos velórios, cuja prática se insere precisamente num contexto espiritual ligado à religião cristã. Latão: Os candeeiros eram produzidos em latão figurando o dourado. "O candeeiro mais ordinario era feito de cobre amarelo, que se podia dourar ou pratear." (MONTAULT, 1878). "O latão amarelo com suas aparências de ouro e, muitas vezes dourado, servia economicamente a templos pobres para o seu culto e a templos ricos para substituir no uso quotidiano as peças nobres, reservadas aos grandes dias de cerimónia litúrgica. Por isso tomou todas as formas e dimensões necessárias, que eram as das alfaias de ouro, prata, bronze e cobre dourado." (CHAVES, 1951). Deste modo o latão era utilizado como substituto do ouro, sendo assim considerado o "Ouro dos Pobres" (Sara Fragoso, 2009). Combustível: Os candeeiros eram geralmente alimentados a azeite, considerado o melhor dos combustíveis, uma vez que os óleos minerais ou os óleos provenientes de animais, como o do peixe, produziam um odor desagradável. "Les Lampes s'alimentent d'huile. La meilleure est l'huile d'olive. Mais, comme dans les pays qui ne la produisent pas, elle est fort chère, la Sainte Congrégation des Rites a déclaré qu'on pouvait employer toute autre huile végetale, huile de noix, de colza, etc. Elle a même poussé la tolérance jusqu'à accepter les huiles minérales, mais à défaut seulement d'huiles végétales.Les huiles minérales ont l'inconvénient, quand elles ne sont pas bien épurées, d'encrasser les lampes, de répandre une odeur désagréable et d'être facilement explosives" (MONTAULT, 1878).No interior do país, o azeite era um combustível económico de fácil acesso (Ilda Simões, 2009), ao passo que nas zonas costeiras ou nas ilhas era mais comum usar óleos animais. "É entre nós costume de fundirem em vasilhas de barro ou de ferro os figados da raia e da pescada, do cação e da papoula, da lixa e da ferreta, do peixe-gato e da sardinha para assim obterem (Povoa do Varzim, etc.) a graxa abominavel com que d'est'arte os pescadores illuminam o interior da habitação" (PEIXOTO, 1878). Este objecto está relacionado com os seguintes objectos (2.0): Nº de inventário: AS 805; Denominação: Candeeiro de Azeite; Localização: Museu Nacional de Etnologia
  • Incorporação: Colecção Maria Faustina S. Margiochi ou Colecção Doutor Simôes Margiochi

Bibliografia

  • Academia das Ciências de Lisboa - Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 2001
  • AFONSO, Simonetta; et al - Inventário de Ourivesaria do Museu de Évora, Colecção de Ourivesaria: Secretaria de Estado da Cultura, IPM, 1993
  • Bíblia Sagrada (Edição Pastoral): Edições São Paulo
  • BIEDERMANN, Hans - "Dicionário Ilustrado de Símbolos": Melhoramentos, 1994
  • CAETANO, Joaquim Oliveira; et al - "Colecção de Ourivesaria, 1º volume, Do Românico ao Manuelino": IPM, Inventário do Património Cultural Móvel, 1993
  • CHAVES, Luis - "A Arte nos Metais", in Barreira, João (Dir.), Arte Portuguesa, As Artes Decorativas. Lisboa: Edições Excelsior, 1951
  • CHEVALIER, Jean; Gheerbrant, Alain - "Dicionário dos Símbolos, Mitos, Sonhos, Costumes, Gestos, Formas, Figuras, Cores, Números": Teorema, 1982
  • CORREIA, Virgílio; Cruz, Maria das Dores - "Normas de Inventário Arqueologia, Cerâmica Utilitária" Normas Gerais: Instituto Português dos Museus, Dezembro 2007
  • CORREIA, Virgílio; Martins, Adolfo Silveira; Raposo, Luís - "Normas de Inventário de Arqueologia" Normas Gerais: Instituto Português dos Museus, Dezembro 2007
  • Ficha Matriznet PNM 411. Palácio Nacional da Ajuda: MATRIZNET
  • FRAGOSO, Emanuela Sara Leite - Fonte Oral: Produção de candeeiros e o uso do Latão (Conservação e Restauro). Monte de Caparica: Outubro de 2009
  • LAVAJO (SACERDOTE), Joaquim - Fonte Oral: O simbolismo da luz na religião cristã e o uso de candeeiros. Évora: Dezembro 2009
  • MONTAULT, Barbier - "Traité Pratique de la Construction de l'Ameublement et de la Decoration et des Traditions Romaines, Prélat de La Maison de Sa Santeté" Tome Prémier. Paris: Louis Vivés, Libraire - Éditeur, 18178
  • PEIXOTO, António Augusto da Rocha - "Ethnographia Portuguesa - Iluminação Popular" in Portugália: Materiaes para o estudo do Povo Portuguez, Tomo II, Fasc. 1. Porto: 1905
  • REBOCHO, Isabel Joana de Lemos - Fonte Oral: Candeeiros de Latão e seu Uso nos velórios em Évora. Évora: Outubro 2009
  • SANTANA ALHO, Cesaltina - Fonte Oral: Candeeiros de Latão e o seu uso nos velórios em Mértola. Évora: Novembro de 2009
  • SILVA, Fernando - Fonte Oral: Candeeiros de Latão e o seu Fabrico. Lisboa: Outubro 2009
  • SILVA, Sandra P. - Fichas Matriz AS 802 - AS 805. Museu Nacional de Etnologia: MATRIZ, 2000
  • SIMÕES, Ilda - Fonte Oral: Candeeiros de Latão e seu Uso nos velórios em Mértola. Mértola: Outubro 2009

Exposições

  • Exposição temporária - Pousada dos Loios

    • Pousada dos Loios
    • 23/6/2003 a 21/2/2006
    • Exposição Física

Multimédia

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