Candeeiro
-
Museu: Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo
-
Nº de Inventário: ME 1891
-
Super Categoria:
Etnologia
-
Categoria: Equipamento e utensílios
-
Autor:
Autor desconhecido (Latoeiro)
-
Datação: Século 18/19
-
-
Técnica: Varia consoante os elementos (ver observações)
-
Dimensões (cm): Alt. 60 x Diâm. 24 (base)
-
Descrição: Candeeiro de azeite, em latão, de base discóide elevada, alteada em dois registos. Contém um friso exterior saliente, é rematada na zona inferior por um anel liso. O segundo registo corresponde à base troncocónica da coluna, também esta composta em dois registos. A coluna é composta por 1 nó balaustriforme intercalado pior duas concavidades e por fim, rematada por um anel. A esta sobrepõe-se a chave que permite regular a altura do depósito, cuja chave de aperto tem uma terminação circular. O depósito é esférico, achatado e provido de uma abertura circular na parte superior, onde encaixa interiormente uma tampa torneada. A tampa é alteada em dois registos, o primeiro de forma hiperbolóide, o segundo troncocónica, intercalados por hipérboles. É rematada por uma esfera achatada. A meio do depósito, três bicos tubulares dispostos lado a lado elevam na vertical, encurvando a meio, terminando com uma aplicação discóide, com o bordo revirado para cima. Da chapa recortada pendem 4 fios metálicos com correntes que sustêm: um balde cónico, um espevitador recortado, um morranzeiro encurvado e bifurcado e um apagador cónico. O reflector é ovóide, já não é sustentado pelo candeeiro e actualmente não se sabe a sua localização na reserva. No entanto, ainda resta um primeiro suporte (incompleto) para este fim, que desliza ao longo da coluna. A pega é vazada com recorte vegetalista e rematada por uma esfera. Enrosca-se na coluna pela base em hipérbole rematada por um friso liso precedido por um filete inciso.
O reflector não se encontra junto do candeeiro, actualmente não se sabe a sua localização.
O candeeiro é decorado por: 1 filete inciso na zona inferior da decoração da coluna; 2 pares de linhas incisas no topo do primeiro registo e 1 filete saliente junto da abertura do depósito.
Acessórios:
Apagador: Coloca-se sobre o bico para apagar a chama da torcida.
Espevitador: Em forma de pinça, é utilizado para retirar o morrão da torcida e espevitar o lume.
Morranzeiro: Coloca-se pelo interior do bico para empurrar para fora o pavio e em seguida acendê-lo.Balde: Para colocar o morrão com a ajuda do espevitador.
Morrão - Extremidade queimada do pavio de uma lamparinaElementos essenciais exteriores:Azeite: Combustível.Torcidas: 3 pavios ou mechas de candeeiro.
(Ilda Simões 2009; AFONSO, 1993; AS 802 - AS 805; CAETANO et al., 1993; CORREIA et al., 2007; CHAVES, 1951; PEIXOTO, 1905; PNM 411)
Medidas dos elementos (cm) (ver abreviaturas em anexo)
Base
Diâm.: 24
Esp.: 0,4
Coluna
Alt.: 45,5
Diam.: 0,9
Alt. da dec.: 6,3
Diam.c/ dec.: 1,4
Chave
Rosca
Alt.: 2,5
Larg. max.: 2,3
Chave de aperto
Alt.: 3,9
Larg.: 1,8
Depósito
Alt.: 3,7
Larg. c/ bicos: 14
Bicos
Alt.: 2,6
Larg.: 1,4
Comp.: 4,2
Larg. do bocal: 2
Tampa
Alt.: 12,5
Diam.: 7
Comp.: 3,1
Chapa recortada
Medidas: 2,5 x 2,5
Fios I
Altura: 5,2
Correntes
Alt.: 7
Fios II
Alt.: 2,3
Morranzeiro
Alt.: 5,9
Diam.: 3
Esp.: 0,08
Espevitador
Alt.: 9,1
Larg.: 1,3
Esp.: 0,06
Apagador
Alt.: 2,1
Diam.: 2
Esp.: 0,2
Balde
Alt.: 3,2
Base (larg. max/min): 2,8/2,2
Topo (larg. max/min): 3,8/3,2
Suporte I
Alt.: 2,8
Larg.: 3,8
Reflector
Alt.: ?
Larg.: ?
Esp.: ?
Pega
Alt.: 7,1
Larg.: 5,5
-
-
Origem/Historial: Prática do velório:
Até aproximadamente aos anos 70 do século XX, e sobretudo no interior do país, os velórios cristãos eram realizados em casa e requeriam a utilização de um par de candeeiros para flanquear um crucifixo, com o conjunto disposto numa pequena mesa revestida por uma toalha, servindo de altar (Ilda Simões, 2009). A toalha era geralmente branca e decorada com uma pequena faixa de renda na frente e nos dois lados. A sua riqueza dependia das famílias (Cesaltina Santana Alho, 2009). Respeitando a tradição do velório, muitas famílias entre as mais abastadas possuíam pelo menos um par de candeeiros reservado a este uso. Para aquelas que não tinham, era comum pedi-los emprestados juntamente com a toalha, pelo que se recebia muitas vezes a notícia do falecimento de alguém por via desta solicitação.
A origem desta prática perdeu-se no tempo, pelo que tem particular relevância os apontamentos de LUCENA (1945) acerca do uso de outro utensílio de luminária que é a candeia:
"Parece que a História da Candeia não se limita ao campo da mera utilidade. Teve em tempos a sua função moral, de aspecto propriamente religioso, principalmente nas horas aflitas, ou incertas da vida, sendo no uso antigo, quando alguém se julgava moribundo, meterem-lhe na mão uma candeia para ajudar a melhor morrer, segundo a frase desse tempo."
Por outro lado, BIEDERMANN (994) afirma: "Na igreja católica uma lamparina é definida como a luz eterna, que por intercessão dos votos deve brilhar também para os mortos. As velas também são portadoras de luz."
A Luz na Religião Cristã:
Pelo simbolismo que transmitem, são acesas, mesmo durante o dia, velas e outros suportes que difundem a luz (Joaquim Lavajo, 2009). No Antigo Testamento, no Livro do Génesis que reza a criação do universo, a luz é a primeira manifestação de Deus, que a separa das trevas (Gn 1:3-5). Deus cria em seguida os luzeiros, para separar o dia da noite e marcar as festas (Gn 1:14-19). No Livro do Êxodo, Deus manifesta-se na luz da sarça-ardente (Ex 13:14). A luz simboliza novamente a presença do Eterno que se revela a Moisés na coluna de fumo e a nuvem (Ex 33:9-10), que guia os passos dos peregrinos do Egipto até a Terra prometida e dá segurança ao seu povo (Ex 13:21-22). Outra referência à luz consta no Novo Testamento, no Evangelho segundo São João, onde fica declarado que "Deus é a luz que brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram apagá-la." (Jn 1:5) e que João Baptista recebe também a luz para passar o seu testemunho e transmitir a Fé (Jn 1:6-7). Jesus afirma: "Sou a luz do Universo. Quem me segue, não andará nas trevas, mas terá a luz da vida" (Jn 8:12). Assim, nas várias celebrações da religião cristã, a luz está presente como símbolo de Deus e da sua bondade, e como manifestação da fé dos que crêem.
O fogo:
"A multiplicidade das aplicações, os beneficios da sua acção, o seu brilho incomparável constituíam atributos que logo o sagraram, trasendo-o a intervir nas mais diversas formas culturais. E assim, ou em cerimónias religiosas de breve duração ou permanentemente em certos ritos, o lume purificador e divinisado assistia perene e rutilante.A chama sagrada honrava-se aos deuses e mortos; e o christianismo herdando do mundo pagão, a bem dizer, o mesmo rito, ainda hoje mantem a tradição nas suas solemnidades humildes ou esplendidas."
(PEIXOTO, 1901).
Luz e rituais cristãos:
"Do facho archote e à vela era minuscula a distância. Substituída a fibra de madeira pela mecha de junco ou de estopa e occupando o logar da resina o sebo ou a cera, o romano, e presumivelmente antes d'elle o etrusco, achou a candella e o cereus (cera). Os christãos apoderaram-se logo e para sempre do invento; dispõem-a junto aos tumulos dos seus martyres ou em face dos seus santos veneraveis, como antes, já acessório religioso, o pagão as multiplicara em altares e sanctuarios das suas divindades; passa de certos rituaes do paganismo para outras festas populares christianisadas, das quaes a Candelaria, entre outras, é um despojo já ténue e apagado; (...) na vida ordinaria os modestos castiçaes de argilla, de folha de ferro e de latão generalisam a adopção do mesmo recurso illuminante;" (PEIXOTO, 1905).
Umas horas antes do enterro, eram também acendidas duas velas suportadas por castiçais, junto dos candeeiros. Esta luminosidade, incrementada simultaneamente por candeeiros de azeite e velas de cera de abelha, constituía uma expressão de veneração dos restos mortais de um baptizado na fé cristã. ["Réflexion sur la symbolique des cierges", http://www.belloc-urt.org/schol/la_lumiere.htm, (Novembro 2009)] "Tous les cierges placés sur les autels pour les saints offices et prescrits par les rubriques, ainsi que ceux qui servent aux anterrements (...) doivent être bénis, et ils seront en cire." (MONTAULT, 1878).
No interior do país, o corpo era acompanhado desde casa até à igreja por um padre que, também posteriormente ao enterro, "encomendava" o defunto intercedendo pela sua alma, ou seja, rezava para encomendar a sua alma a Deus (Ilda Simões, 2009).
Disposição das velas e, por analogia, dos candeeiros:
Na Santa Congregação dos Ritos, revista após cada Concilio da Igreja Católica Romana, convém recordar que o número de velas necessárias para a celebração da missa é fixa pela Cerimónia dos Bispos. Ao longo do século XIX e até o Concílio Vaticano II (1965-196), verifica-se que apenas duas velas são suficientes para a missa dita por um padre em toda a circunstância, até para a missa solene dita pela alma de um defunto e para festas simples. São requeridos quatro para a missa solene de domingo de Quaresma, e seis aos domingos e missas solenes. Nas missas rezadas, os candeeiros são aos pares e estão dispostos nos extremos da banqueta de altar a flanquear a cruz (MONTAULT, 1878, p. 298-289). Deste modo, podemos verificar semelhanças com o número par dos candeeiros de azeite e a sua disposição simétrica nos velórios, cuja prática se insere precisamente num contexto espiritual ligado à religião cristã.
Latão:
Os candeeiros eram produzidos em latão figurando o dourado. "O candeeiro mais ordinario era feito de cobre amarelo, que se podia dourar ou pratear." (MONTAULT, 1878). "O latão amarelo com suas aparências de ouro e, muitas vezes dourado, servia economicamente a templos pobres para o seu culto e a templos ricos para substituir no uso quotidiano as peças nobres, reservadas aos grandes dias de cerimónia litúrgica. Por isso tomou todas as formas e dimensões necessárias, que eram as das alfaias de ouro, prata, bronze e cobre dourado." (CHAVES, 1951). Deste modo o latão era utilizado como substituto do ouro, sendo assim considerado o "Ouro dos Pobres" (Sara Fragoso, 2009).
Combustível:
Os candeeiros eram geralmente alimentados a azeite, considerado o melhor dos combustíveis, uma vez que os óleos minerais ou os óleos provenientes de animais, como o do peixe, produziam um odor desagradável. "Les Lampes s'alimentent d'huile. La meilleure est l'huile d'olive. Mais, comme dans les pays qui ne la produisent pas, elle est fort chère, la Sainte Congrégation des Rites a déclaré qu'on pouvait employer toute autre huile végetale, huile de noix, de colza, etc. Elle a même poussé la tolérance jusqu'à accepter les huiles minérales, mais à défaut seulement d'huiles végétales.Les huiles minérales ont l'inconvénient, quand elles ne sont pas bien épurées, d'encrasser les lampes, de répandre une odeur désagréable et d'être facilement explosives" (MONTAULT, 1878).No interior do país, o azeite era um combustível económico de fácil acesso (Ilda Simões, 2009), ao passo que nas zonas costeiras ou nas ilhas era mais comum usar óleos animais. "É entre nós costume de fundirem em vasilhas de barro ou de ferro os figados da raia e da pescada, do cação e da papoula, da lixa e da ferreta, do peixe-gato e da sardinha para assim obterem (Povoa do Varzim, etc.) a graxa abominavel com que d'est'arte os pescadores illuminam o interior da habitação" (PEIXOTO, 1878).
-
Incorporação: Colecção Doutor Simôes Margiochi; Colecção alargada de candeeiros de azeite de diversas tipologias.
-
Bibliografia
- Academia das Ciências de Lisboa - Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 2001
- AFONSO, Simonetta; et al - Inventário de Ourivesaria do Museu de Évora, Colecção de Ourivesaria: Secretaria de Estado da Cultura, IPM, 1993
- Bíblia Sagrada (Edição Pastoral): Edições São Paulo
- BIEDERMANN, Hans - "Dicionário Ilustrado de Símbolos": Melhoramentos, 1994
- CAETANO, Joaquim Oliveira; et al - "Colecção de Ourivesaria, 1º volume, Do Românico ao Manuelino": IPM, Inventário do Património Cultural Móvel, 1993
- CHAVES, Luis - "A Arte nos Metais", in Barreira, João (Dir.), Arte Portuguesa, As Artes Decorativas. Lisboa: Edições Excelsior, 1951
- CHEVALIER, Jean; Gheerbrant, Alain - "Dicionário dos Símbolos, Mitos, Sonhos, Costumes, Gestos, Formas, Figuras, Cores, Números": Teorema, 1982
- CORREIA, Virgílio; Cruz, Maria das Dores - "Normas de Inventário Arqueologia, Cerâmica Utilitária" Normas Gerais: Instituto Português dos Museus, Dezembro 2007
- CORREIA, Virgílio; Martins, Adolfo Silveira; Raposo, Luís - "Normas de Inventário de Arqueologia" Normas Gerais: Instituto Português dos Museus, Dezembro 2007
- Ficha Matriznet PNM 411. Palácio Nacional da Ajuda: MATRIZNET
- MONTAULT, Barbier - "Traité Pratique de la Construction de l'Ameublement et de la Decoration et des Traditions Romaines, Prélat de La Maison de Sa Santeté" Tome Prémier. Paris: Louis Vivés, Libraire - Éditeur, 18178
- PEIXOTO, António Augusto da Rocha - "Ethnographia Portuguesa - Iluminação Popular" in Portugália: Materiaes para o estudo do Povo Portuguez, Tomo II, Fasc. 1. Porto: 1905
- REBOCHO, Isabel Joana de Lemos - Fonte Oral: Candeeiros de Latão e seu Uso nos velórios em Évora. Évora: Outubro 2009
- SANTANA ALHO, Cesaltina - Fonte Oral: Candeeiros de Latão e o seu uso nos velórios em Mértola. Évora: Novembro de 2009
- SILVA, Fernando - Fonte Oral: Candeeiros de Latão e o seu Fabrico. Lisboa: Outubro 2009
- SILVA, Sandra P. - Fichas Matriz AS 802 - AS 805. Museu Nacional de Etnologia: MATRIZ, 2000
- SIMÕES, Ilda - Fonte Oral: Candeeiros de Latão e seu Uso nos velórios em Mértola. Mértola: Outubro 2009