Xabraque de Arreio de montada de Cavalaria, marroquino
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Museu: Museu Nacional dos Coches
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Nº de Inventário: A 0166
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Super Categoria:
Arte
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Categoria: Meios de transporte
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: 1878
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Dimensões (cm): Comp. 298,5 / 294 (c/ e s/ franja) x Larg. 158 / 149 (c/ e s/ franja)
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Descrição: Xabraque rectangular com duas abas na parte anterior, em brocado de seda verde lavrado a ouro. É constituído por duas tiras largas, unidas longitudinalmente, tendo sido aplicado sobre a costura um cordão entrançado bicolor.
O padrão têxtil é formado por ramagens oblíquas formando listas alternadas, com e sem ouro. A aba esquerda é monocromática e possui um pequeno cordão com esfera achatada no canto superior esquerdo, um colchete preto no canto oposto e dois cordões dobrados em argola, em baixo. A aba direita continua o padrão têxtil, possuindo um cordão com esfera achatada lavrada a ouro, no canto superior esquerdo.
O xabraque é agaloado a seda verde com decoração espinhada em fio de ouro. Na franja, alternância de cordões de seda e fios de ouro brochados, organizados em segmentos rectangulares.
Nesta peça, as listas estão desencontradas, pela incorrecta junção das duas tiras de tecido que o compõem. O reverso é cor-de-laranja vivo.
Cobertura para as ancas do cavalo e para os coldres (do francês chabraque e do turco chaprak).
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Origem/Historial: Este xabraque faz parte de um conjunto de arreios oferecidos em 1878 a D. Luís I pelo Embaixador Bachá Sid Tibi Benhima, em nome do Sultão de Marrocos, Muley-Hassam.
No dia 8 de Março de 1878, fundeava em Lisboa o vapor "Índia", no qual seguiam o embaixador do sultão da Barbaria, Bachá Sid Tibi Benhima. A respectiva comitiva era composta pelo alcaide e governador de Marrocos, El Aarbi, um secretário, um escrivão e representantes das mais distintas famílias do Império, para além de inúmeros criados.
Saída de Fez em meados de Abril, a comitiva formou em caravana de camelos com destino a Tânger, onde ficou instalada em casa do governador português; aí, deveria aguardar a chegada do navio alemão que a transportaria a Berlim, a fim de entregar as credenciais ao Imperador Guilherme II. Todavia, como o navio luso fosse o primeiro a aportar, o embaixador de Muley Hassam optou por alterar o programa oficial, rumando desde logo a Lisboa, ao encontro de D. Luís I.
Esta embaixada tinha por objectivo consolidar as relações diplomáticas e a já longa aliança que unia os reis de Portugal e os Imperadores de Marrocos.
Instalada no Hotal Gibraltar, no dia 9 de Maio a comitiva organizou-se em cortejo até ao Paço Real da Ajuda, passando pelo Terreiro do Paço, Largo do Pelourinho (actual Praça do Município), Rua do Arsenal, Aterro e Junqueira. Vinte praças de lanceiros lideravam o cortejo, logo seguidos pelos dez magníficos cavalos árabes que seriam ofertados ao monarca português, ricamente ajaezados e cobertos com xabraques de damasco bordado a ouro, levados à mão por funcionário da Casa Real e acompanhados pelo intendente das cavalariças do sultão. Coches da Casa Real Portuguesa transportavam o embaixador, o secretário, o intérprete e os restantes membros da comitiva, o primeiro dos quais atrelado a quatro parelhas.
Com os visitantes seguiam o cônsul português em Tânger, o Conde de S. Miguel, e o cônsul geral nos Estados Unidos, o comendador António da Cunha Pereira de Sotto-Mayor. Um regimento de lanceiros fechava o cortejo, que desfilava sob o olhar curioso da população da cidade.
Uma vez chegada ao palácio Real, a embaixada foi recebida pelo Conde de Mesquitela, comandante da Guarda Real, e pelo Conde de Rio Maior, na qualidade de mestre-sala. Numa das salas aguardava-os Andrade Corvo, ministro dos Negócios Estrangeiros, que guiou os visitantes até à Sala do Trono, onde foram recebidos por D. Luís I, acompanhado pelos ministros e conselheiros de Estado e pelos pares do reino.
Depois de trocadas as habituais saudações e recíprocos votos de amizade, o embaixador marroquino procedeu à entrega dos presentes enviados por Muley Hassam, entre os quais se contavam, para além dos referidos puro-sangue árabes, inúmeras sedas e bordados a ouro de inestimável valor.
Nos dias seguintes, Sid Tibi Benhima foi recebido no Paço das Necessidades por D. Fernando e pelo Infante D. Augusto, tendo ainda visitado as instalações do Asilo D. Maria Pia, em Xabregas, as oficinas da Fundição do Arsenal e a Imprensa Nacional. O programa incluía também um espectáculo no Teatro da Trindade - marcado pela ausência do embaixador que, devido ao cansaço, preferiu ficar no hotel - e um jantar de gala para noventa pessoas no Palácio da Ajuda.
A memória de tão ilustre visita seria perpetuada em fotografias dos Estúdios Filon e, em homenagem aos visitantes, realizou-se uma parada de despedida em Belém.
Na bibliografia mais antiga, os dez xabraques marroquinos que integram o acervo do Museu Nacional dos Coches foram designados genericamente por coberturas, em virtude de se desconhecer a sua verdadeira função e posicionamento no arreio.
Mais tarde, por ocasião da Exposição "Arte Oriental - Arreios e Atavios" (1981), a então directora do Museu, Maria Madalena de Cagigal e Silva, optou pela designação de "teliz", admitindo que estas peças têxteis serviriam para cobrir as selas das montadas. Todavia, a linearidade e dimensões das peças em questão parecem desmentir esta tese, já que seria muito difícil "moldá-las" às selas sem que se formassem pregas desnecessárias e inestéticas. Por outro lado, o arreio árabe do Norte de África desconhece o uso do teliz ocidental, encontrando este correspondência no xabraque, ou seja, um pano destinado a cobrir as ancas do cavalo. Mais, é a própria imprensa portuguesa da época que, ao narrar a ilustre visita, utiliza a expressão "xabraque" para descrever os panos que cobriam as cavalgaduras.
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Incorporação: Administração da extinta Casa Real. Fundo Antigo do Museu
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Bibliografia
- FREIRE, Luciano - Catálogo Descritivo e Ilustrado do Museu Nacional dos Coches. Lisboa: 1923
- Inventário de Todos os Bens Móveis e Semoventes que Existiam no dia 31 de Janeiro de 1908 no Museu dos Coches Reais (MNC - Doc. 3618/3618-A): 31 Janeiro 1908
- Inventário dos Objectos que são Propriedade Particular de Suas Majestades e Alteza e que Ficam Instalados no Museu Nacional dos Coches Reais, à Responsabilidade do Director do mesmo Museu (MNC - Doc. 3620). Lisboa: 3 Set. 1908
- KEIL, Luís - Catálogo do Museu Nacional dos Coches, 1943. Lisboa: 1943
- Repartição das Reais Cavalariças - Carros Nobres, Arreios de Tiro e Cavalaria, Aprestos de Torneio,- Catálogo do Depósito I, 2ª ed.. Lisboa: Tip. de "A Editora", 1905
Exposições
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Exposição Hípica
- Lisboa, Tapada da Ajuda
- Exposição Física