Coche de D. Carlota Joaquina
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Museu: Museu Nacional dos Coches
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Nº de Inventário: V 0024
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Super Categoria:
Arte
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Categoria: Meios de transporte
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Autor:
Pintor (-)
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Datação: 1775/1784
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Suporte: Madeira de carvalho e/ou azinho (estrutura); faia inglesa (parsevão)
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Técnica: Madeira entalhada, policromada e dourada; pintura a óleo; couro humedecido e estirado; bronze fundido em molde e dourado; veludo cortado; bordado de aplicação a fio laminado dourado
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Dimensões (cm): Comp. 695 x Alt. 270 x Larg. 221 x Diâm. 85 / 171 (rodados dianteiro e traseiro) x Esp. 6 / 5,5 (rodas dianteiras e traseiras)
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Descrição: Coche de caixa trapezoidal fechada, montada sobre quatro rodas e suspensade fortes correões de couro dispostos entre os ângulos inferiores e os montantes.
A caixa, baixa e sóbria, é fechada por duas portinholas articuladas e por vidraças. Os eixos dos rodados estão ligados por um varal longitudinal, levemente arqueado, de secção quadrangular e mais largo nas extremidades - onde é reforçado por aros metálicos -, prolongando-se na parte anterior por dois arcos em ferro forjado, ditos em "pescoço de cisne", que o ligam à "quinta roda" e ajudam a manobrar a viatura. Octogonais e pintados de vermelho-ocre, estes arcos são interrompidos ao centro por nó oitavado, para o qual confluem dois meios-balaústres facetados e dourados.
O sistema de suspensão é constituído por correões de couro negro pespontado e por quatro molas em ferro pudelado e laminado, compostas por dois grupos de sete lâminas de tamanhos decrescentes, o superior arqueado na direcçãoda caixa e o inferior no sentido inverso. Os respectivos resguardos, simples e baixos, têm decoração de contas, volutas e motivos fitomórficos, apresentando-se actualmente baços e com uma coloração acastanhada por acção do verniz protector incorrectamente aplicado. O coche possui ainda dois pares de tesouras de segurança cruzadas - um à frente e outro atrás - que, à semelhança dos correões, são fechadas por fivelas de bronze.
As rodas posteriores, livres de decoração, são formadas por seis pinas interligadas por "gatos" de ferro e cingidas no extradorso por um aro de ferro munido de pequenas cavilhas semiesféricas, as quais se fixam ao intradorso das rodas por meio de parafusos (dois por pina) e porcasquadrangulares. Possuem doze raios nivelados, convergentes e ligeiramente oblíquos. A massa é lisa e reforçada por batentes anelares dourados; o cubo nela contida, circular e em bronze dourado, é rematado por um florão hexagonal constituído por seis palmetas e uma roseta central, fixando-se à madeira por cavilha de ferro que o atravessa verticalmente. À semelhança do "chassis" e dos jogos, também os rodados são pintados de vermelho-ocre. Inciso a goiva na face superior do eixo do rodado traseiro encontra-se o nº "17", certamente respeitante a um antigo inventário.
As rodas dianteiras, em tudo idênticas às traseiras mas de menor diâmetro, são constituídas por oito raios nivelados e por quatro pinas. O aro de ferro que as cinge tem um número de cavilhas proporcionalmente maior ao das rodas traseiras, contando-se três por pina.
O cabçal dianteiro é dominado pelo banco do cocheiro, elevado acima do escabelo e com almofada rectangular de couro castanho, assente sobre uma rede de tiras entrançadas do mesmo material. Cobre-a uma saia de veludo carmesim liso, formada por cinco panos: um para o tampo e quatro para as abas, que são franjadas e agaloadas a ouro.
As janelas e os painéis superiores das ilhargas são moldurados por três fiadas de pregaria dourada, contrastantes com as placas de couro negro. No alçado esquerdo, os apainelados inferiores têm pintadas as figuras alegóricas da Bondade e Beleza Feminina. Aquela, no painel posterior, é representada sob a forma de uma figuar feminina vestida de verde e vermelho e coroada de louros, tendo aos pés um pelicano que alimenta os filhos com o próprio sangue;a seu lado, um querubim também assente sobre nuvens, sobrepõe-se a troféus militares. À frente, a Beleza Feminina envolta em panejamentos vermelhos e com bracelete de ouro no braço, é acompanhada por um dragão e por um querubim que lhe oferece um espelho e uma flecha.
Ao centro da portinhola direita forma pintados os escudos descritos, ladeados por dois grupos de três querubins: os da esquerda empunham trombetas e um feixe de raios e os da direita, um cálice, umceptro e duas pombas brancas. Na portinhola esquerda, a decoração pictórica é em tudo idêntica, com excepção dos atributos transportados pelos querubins: um facho ardente, um ceptro e uma coroa real aberta, símbolos da Monarquia.
No painel posterior direito representa-se a Fidelidade, vestida de branco e verde, com chave na mão esquerda e sinete na direita, instrumento utilizado para selar um segredo; o cão, seu principal atributo, encontra-se junto do querubim. No painel anterior, um casal enlaçado simboliza a Concórdia Matrimonial, a dama com um coração inflamado na mão esquerda. Todas as figurações descritas inscrevem-se numa moldura de entrelaços vegetalistas, os quais sustêm uma espécie de listel verde que remata o todo.
O apainelado traseiro é preenchido pelo escudo duplo com as armas portuguesas e espanholas, tendo à esquerda dois querubins, um dos quais com um espelho e o outro com uma serpente estilizada (atriburos da Prudência); os querubins da direita, alusivos ao Amor, ostentam um coração trespassado por flecha, uma coroa de louros e, o segundo, um arco.
O escuco duplo repete-se no painel dianteiro, tendo à direita dois querubins, um dos quais com livro contendo a presumível marca do pintor e o segundo com trombeta, assente sobre tambor e feixe de varas, símbolo da Justiça.
O tejadilho, convexo e ligeiramente bojudo no sentido do comprimento, foi montado a partir de uma armação composta por quatro asnas arqueadas e cruzadas, sobre as quais se estende o couro negro. É rematado por oito terminais ou maçanetas de bronze, colocados axialmente em relação às ilhargas e aos pés-direitos das portinholas. Têm a forma de urna profusamente decorada com cabochões e motivos vegetalistas, sendo rematados superiormente por alcachofra.
O interior da caixa é revestido de veludo de seda vermelho cortado, tendo no tecto um bordado de aplicação a lâmina de ouro, com larga franja do mesmo. As cortinas são de tafetá de seda vermelha. O parsevão é forrado de couro castanho e pregaria.
No exterior lança, lança 18,acessório de viatura, varal de madeira, fixado na estrutura da viatura (tesouras) que fai a ligação/ encaixe (neste caso encaixe perpendiculares) entre a viatura e a atrelagem dos animais, apenas na parelha do tronco (mais próxima da viatura).
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Origem/Historial: * Forma de Protecção: classificação;
Nível de Classificação: interesse nacional;
Motivo: Necessidade de acautelamento de especiais medidas sobre o património cultural móvel de particular relevância para a Nação, designadamente os bens ou conjuntos de bens sobre os quais devam recair severas restrições de circulação no território nacional e internacional, nos termos da lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro e da respectiva legislação de desenvolvimento, devido ao facto da sua exemplaridade única, raridade, valor testemunhal de cultura ou civilização, relevância patrimonial e qualidade artística no contexto de uma época e estado de conservação que torne imprescindível a sua permanência em condições ambientais e de segurança específicas e adequadas;
Legislação aplicável: Lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro;
Acto Legislativo: Decreto; N.º 19/2006;18/07/2006 *
Segundo a tradição, este coche - assim como os seus congéneres nºs invº 25 e 26 -, uma oferta de Carlos IV a sua filha, terá vindo para Portugal em 1784, por ocasião do casamento de D. Carlota Joaquina de Bourbon com o Príncipe D. João, futuro D. João VI de Portugal. Esta versão parece confirmar-se no programa iconográfico escolhido para decoração dos painéis da caixa.
Posteriormente, este coche serviu no funeral do Núncio, em 9 de Maio de 1906.
Procede do Depósito I da Repartição das Reais Cavalariças, antigo Picadeiro Real de Belém.
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Incorporação: Casa Real Portuguesa. Bens da Coroa.
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Bibliografia
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- PINTO, Augusto Cardoso - Museu Nacional dos Coches - Guia do Visitante (Ilustrada), 5ª ed.. Lisboa: 1963
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