Descrição: Pequeno retábulo devocional em louvor a Santa Isabel, Princesa de Aragão e Rainha de Portugal.
Pintura a óleo sobre madeira de carvalho, de pequenas dimensões, inserida em moldura de madeira dourada, coeva, em forma de pórtico, cujo par de colunas toscanas que sustentam o frontão triângular acentuam a verticalidade da figura retratada em primeiro plano na composição pictural. No tímpano e na base uma jaculatória à Rainha Santa, composta por um dístico helegíaco nas duas primeiras linhas.
A Rainha, coroada e nimbada, aparece em primeiro plano de corpo inteiro, em posição frontal e centralizada, num suave contraposto que imprime ritmo à figura e orienta a atenção do observador para as cenas de fundo.
Num plano intermédio, à direita, um amplo pátio onde várias figuras - quase miniaturais - observam e veneram Santa Isabel que, ajoelhada, lava os pés a uma mendiga, numa alusão à sua devoção aos pobres e numa referência subtil à encomenda desta pintura. (É conhecido, através das lendas da sua vida, o hábito de a Rainha, todas as quintas-feiras santas chamar vários pobres aos paços onde morava, lavando-lhes os pés, antes de ela própria lhes servir a refeição).
Ao fundo desse pátio decorre outra cena, o «Milagre das rosas»: Dona Isabel é surpreendida por D. Dinis no momento em que leva dinheiro para os mendigos; o rei abre o manto dobrado da esposa e vê rosas, atributo já anunciado na figura em primeiro plano. O cenário deste encontro é um palácio de características renascentistas, de grandes dimensões, numa alusão aos Paços que a Rainha edificou junto ao Convento de Santa Clara, onde se pode ver na loggia do piso superior uma multidão de observadores - provavelmente um arcaísmo medievo relacionado com o "teatro de mistérios".
Compensando a sobrecarga narrativa contínua da direita, abre-se à esquerda do observador uma paisagem, numa mistura de azuis e castanhos esbatidos. É o perfil urbano de Coimbra - onde Santa Isabel passou a maior parte da sua vida -, sendo pontos de referência bem definidos a ponte de Santa Clara e a sua torre de portagem.
Segundo a tradição oral, esta pintura foi oferecida pelo canonista Martinho de Azpilcueta, «o Navarro» a sua sobrinha, Ana Azpilcueta, freira do Mosteiro de Celas, paralítica, pela cura que obtivera por intercessão da Rainha Santa. Desconhece-se a quem Martinho de Azpilcueta terá encomendado o pequeno retábulo. Datável de meados do século XVI, esta composição pictórica revela-se uma produção de menor valia artística, quer pelas suas incorrecções estéticas - o tratamento da côr, os valores lumínicos, a resolução perspéctica e a figuração antómica o uso da narrativa contínua de cariz medieval -, quer ainda pela assimilação deficiente dos valores estilísticos da época, pois não se afirma nem nos cânones da emergente pintura maneirista, nem ainda no universo da Renascença. Terá sido executado por um pintor de recursos limitados, que operava numa oficina local, ainda apegado a certos arcaísmos pictóricos e talvez mesmo em contacto com a pintura de iluminuras.
Ignora-se também a autoria da jaculatória inscrita na moldura, anulando-se a hipótese, apontada tradicionalmente, de esta ser um exerto da "oratio" proferida por André de Resende no Colégio das Artes em 1551, perante e para D. João III. De facto esta inscrição não vem descrita nos exemplares da referida oração e, segundo o Professor Américo Ramalho, o texto da moldura não tem erudição semelhante à oratória conhecida quer de André de Resende, quer de Martinho de Azpilcueta.
No entanto, todos os dados convergem para que seja um "ex-voto", em que é representada a homenageada com as cenas principais da sua vida e virtudes, localizando-a na cidade onde viveu e da qual é patrona.
No reverso do suporte está escrito: «D. Ieronimo».
Origem/Historial: Segundo o livro de objectos do Museu Nacional de Machado de Castro, de 1915-16, esta pintura foi oferecida pelo canonista Martinho de Azpilcueta (que leccionava na Universidade de Coimbra entre 1538-1555) a sua sobrinha, Ana Azpilcueta, freira bernarda do Convento de Santa Maria de Celas, paralítica, pela cura milagrosa que obtivera (v. «História Popular da Rainha Santa Isabel, protectora de Coimbra»,Coimbra, Gráfica de Coimbra,1988, pág. 47).
Esta pequena pintura esteve inicialmente no Mosteiro de Santa Maria de Celas, donde foi levada pelo Cónego Prudêncio Quintino Garcia para a sacristia do Mosteiro de Santo António dos Olivais, passando a integrar as colecções do Museu a partir de 1915-16 (v. CARVALHO, Teixeira de, «Uma Imagem da Rainha Santa», in "Resistência", nº 153, Coimbra, 6 de Agosto de 1896).
Incorporação: Transferência (Conventos extintos). Mosteiro de Santa Maria de Celas. Esteve como depósito da Junta de F. dos Olivais.
Bibliografia
CARVALHO, J. M. Teixeira de - «Uma Imagem da Rainha Santa», in Resistência, Nº153. Coimbra: 6 de Agosto, 1896
CHICHORRO, Maria Frederica Ressano Garcia Morão - A Santa Rainha - como exemplo de pintura como objecto de propaganda (trabalho policopiado, no âmbito do Mestrado em História da Arte). FLUC, Coimbra: 1994
CORREIA, Vergílio - Secções de Arte e Arqueologia. Coimbra: MNMC, 1941
DIAS, Pedro; SANTOS, J.J. Carvalhão - A Pintura Maneirista de Coimbra - ensaio iconográfico. Coimbra: Instituto H.A., FLUC, 1988
Gosto de Mulheres (cat. exp.). Portimão: 2009
GUSMÃO, Adriano de - Pintura Maneirista do Museu Nacional de Machado de Castro (cat. exp.). Coimbra: Secretaria de Estado da Cultur, 1987
Imagen De La Reina Santa - Santa Isabel, Infanta de Aragón y Reina de Portugal (cat. exp.). Zaragoza: Disputación Provincialde Zaragoza, 1999
Exposições
Pintura Maneirista do Museu Nacional de Machado de Castro
Lisboa, Galeria Almada Negreiros
24/9/1987 a 25/10/1987
Exposição Física
Santa Isabel, Infanta de Aragón y Reina de Portugal
Igreja de Santa Isabel, Saragoça
Exposição Física
Gosto de Mulheres
Galeria do Arade - Parque de Feiras e Exposições, Portimão