Virgem do Leite

  • Museu: Museu Nacional Grão Vasco
  • Nº de Inventário: 2233
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Pintura
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: Século 16
  • Suporte: Madeira
  • Técnica: Pintura a óleo
  • Dimensões (cm): Alt. 67 x Larg. 51,5
  • Descrição: Virgem amamentando o Menino. A Virgem apresenta-se sentada perto do Menino que, desnudado e envolto num manto branco, se encontra sentado em cima de uma pequena almofada pousada num muro, com os braços abertos e face junto ao peito da Mãe. Esta, de longo cabelo castanho, aureolada, com túnica vermelha e manto verde, aconchega o Menino nos seus braços preparando-se para O amamentar. No plano fundeiro, de um lado e do outro do cadeirão, vislumbra-se a paisagem arbórea que se estende até à linha do horizonte, situada ao nível dos ombros da Virgem, deixando o restante espaço do campos figurativo para o céu. Trata-se de uma obra que, pela sua estrutura e forma, pertenceu a um conjunto retabular ou a um oratório. "A representação da Virgem do Leite, ou seja, Maria portando ao colo o seu filho e amamentando-o, é uma temática desenvolvida apenas no final da Idade Média, correspondendo a um período de afirmação da devoção à Virgem e, em termos artísticos, a um momento de humanização das representações de pendor religioso que marcam a fase inicial do Renascimento. Em termos iconográficos a Virgem surge-nos a meio corpo, com a cabeça ligeiramente inclinada para a direita, rosto sereno bastante ovalado, cabelos louros, longos e soltos, caindo sobre os ombros; olhando o Menino e oferecendo-lhe o seu seio. Segura o seu filho desnudo, junto ao colo e apoia-o numa pequena almofada sobre um peitoril de pedra. Ao contrário da mãe, cujos gestos são cautelosos e calmos, o Menino agita-se para abraçá-la. Ainda sobre o peitoril de pedra está um pequeno jarro de água em barro. A imagem da virgem é respaldada com uma peça têxtil pendente, estando em pano de fundo uma paisagem esfumada na qual se adivinha um jardim com roseiras, algumas árvores e montanhas. Do ponto de vista iconológico, Maria surge como uma simples mulher que expressa todos os sinais de ternura pelo seu filho, mas também simboliza a mãe de Deus (como mãe de todos os Homens). Em tudo, esta representação evoca as diversas qualidades da Virgem, como as que se proclamam na sua Ladainha. Sendo uma representação que põe em evidência o relacionamento de uma mãe com o seu filho, no momento íntimo em que aquela o abraça com ternura e o amamenta, esta mesma não deixa de ser uma alegoria em que a oferta do leite surge como a essência nutritiva da vida espiritual, como um potencial de crescimento da Fé. A atenção e o cuidado que Maria põe em segurar o Menino são sinais da sua total entrega e devoção e, simultaneamente, podem ser interpretados como a proteção que a Virgem (e a Igreja) oferece aos fiéis. Outros fatores simbólicos em destaque são a existência da áurea mística em torno da cabeça da Virgem, símbolo de beatitude; o seu cabelo solto e cabeça não coberta, símbolo de simplicidade e de pureza; rosto sereno e gracioso, sinal de paz; pescoço longo, como uma torre de David (por alusão às escrituras Cant 4.4); o Menino, nascido como Rei, porém desnudo como símbolo da sua expressão humana; o abraço do Menino como sinal, para os Homens, do amor filial à Mãe de Deus e à Igreja; a presença de um pano de respaldo, geralmente associado a um trono ou a um baldaquino, destaca a figura de Maria como Rainha; a existência de um horto, como um espaço concluso de meditação e espiritualidade, onde existe um jardim com rosas vermelhas, símbolo por excelência da Virgem, das suas alegrias e dos seus sacrifícios; a árvore, eventualmente um cedro, símbolo de beleza e de santidade também expressa nas escrituras; e o jarro de água que está sobre o peitoril, reforçando a ideia de que o Messias e a Virgem são fonte de sabedoria. Esta obra pictórica, aparentemente simples mas carregada de significados, possivelmente parte integrante de um pequeno retábulo de devoção pessoal, ainda encerra alguns enigmas quanto à sua autoria e datação precisas. Embora de modesta qualidade plástica, recorda alguns modelos flamengos em voga no início do século XVI, alguns deles portados por Frei Carlos e por si reproduzidos em, pelo menos, duas obras com o mesmo título. A Virgem do Leite do Museu Grão Vasco é ainda dominada por uma expressão plástica elementar, quase icónica, mais próxima da produção nacional do século XV do que dos valores importados de Bruges ou Itália, no primeiro quartel do século seguinte. Não deixa de ser, no entanto, um excelente “documento” sobre as devoções e um contraponto a outros aspetos da produção artística presentes neste Museu. " Sérgio Gorjão (Diretor do Museu Grão Vasco, 2011)
  • Incorporação: Transferência do Paço Episcopal do Fontelo - Viseu

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