Descrição: Painel de azulejos de composição figurativa em faiança monocromática: azul sobre branco. Registo com cena que representa Santo António, aureoleado, colocado à esquerda do observador, numa margem, pregando aos peixes, que emergem para o ouvir. Na margem oposta três personagens arabizantes assistem à cena. A cena está circunscrita por uma moldura em trompe l´oeil, com motivo de meia cana sobre o qual se inscreve folhagem. Concheados pujantes definem as arestas da moldura, motivos que se repetem no eixo longitudinal sobrepondo-se na cena.
Origem/Historial: "(...)"registos" (...) testemunham uma religiosidade fervorosa,a aparentemente exarcebada pela catástrofe decorrente do grande Terramoto de 1755 (...) a figuração do chamado "Milagre dos peixes" é caso único, estando, normalmente, mais associada a Ciclos narrativos antonianos, aspecto que traz alguma ambiguidade à classificação desta peça. A semelhança do emolduramento com o conjunto que hoje forra a Tribuna Real do convento da Madre de Deus, originário de uma capela do convento de Santo Alberto, dito das Albertas, de acordo com o testemunho de Liberato Teles, poderá indicar idêntica origem para esta peça.
O painel pretende simular um quadro do tipo que se poderia observar na época, com a sua pesada e impositiva moldura de talha. Na representação da cena, tendo em segundo plano a população que testemunha o milagre da pregação, os peixes ganham um destaque tão grande como o próprio santo. Eles localizam-se no centro da composição, com a água a marcar claramente a fronteira entre o mundo dos crentes, representado por António, e o dos hereges, localizado ao fundo.
O pintor, talvez porque o painel se destinasse a um local que poderia dificulatr a visualização da discreta imagem das cabeças dos peixes a emergir do mar, decidiu colocar dois pujantes delfins, figuras mais adequadas à representação escultórica de uma fonte ou chafariz de pendor mitológico que ao realismo do mundo aquático(...).
A importância do "milagre dos peixes" na hagiografia franciscana prende-se com o que transmite da capacidade e eloquência de Santo António, cujo poder de oratória conseguiu, assim, arrancar às profundezas da água os seus habitantes, encantados pela palavra deste novo Orfeu. O santo surge deste modo como contraponto cristão ao músico da mitologia clássica, que com a sua música atraia e subjugava as feras, tal como António soube cativar os peixes com a sedução da sua voz e a expressividade do seu discurso."
Vide Bibliografi, Alexandre Pais in A Água no azulejo português do século XVIII
Incorporação: Desconhecido (Fundo antigo)
Centro de Fabrico: Lisboa
Bibliografia
MECO, José - Azulejaria portuguesa. Lisboa: Bertrand, 1985
SIMÕES, João Miguel dos Santos - Azulejaria em Portugal no século XVIII. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1979
A Água no azulejo português do século XVIII, Museu da Água - Mãe d'Água das Amoreiras, Lisboa, 18 de Setembro de 2014 a 30 de Junho de 2015, MNAz, EPAL, Museu da Água, 119 págs.