Técnica: Azul cobalto aplicado com pincel sobre a porcelana crua revestida em seguida de vidrado
Dimensões (cm): Alt. 9 x Diâm. boca:19,5; base:18,1
Descrição: Taça com corpo de porcelana branca, muito fino, e um vidrado levemente azulado. Tem paredes arredondadas que se projectam para o exterior junto ao bordo, formando um pequeno lábio, e repousa sobre um pé ligeiramente inclinado para o interior, cuja extremidade, não vidrada, se tornou acastanhada em contacto com a atmosfera do forno. É de forma bastante irregular, conforme se pode verificar pelas medidas do diâmetro. A taça é decorada a azul cobalto sob o vidrado. O pé e o bordo são sublinhados por dois círculos concêntricos azuis. O interior apresenta, no fundo, dentro de dois círculos, um medalhão formado por botões de lótus estilizados entrelaçados, e, nas paredes, dez flores de lótus com botões e folhas estilizadas; a decoração é rematada, junto do bordo, por uma cercadura de motivos geométricos cruzados. No exterior, sobre um friso de painéis de lótus, desenvolve-se um enrolamento contínuo de seis flores de lótus com botões e folhas. A peça ostenta na base, sob o vidrado e dentro de um duplo círculo, a marca apócrifa de Xuande (1426-1435), caligrafada a azul, em seis caracteres dispostos em duas colunas de três caracteres: "da Ming Xuande nian zhi" (feito no período Xuande da grande dinastia Ming).
A flor de lótus, um elemento da iconografia budista, símbolo de pureza por crescer imaculada nas águas pantanosas, constituia já um dos principais e mais populares motivos de decoração das cerâmicas do começo da dinastia Song (960-1279), provenientes dos fornos Ding, Yaozhou e Longquan.
A porcelana azul e branca começou a ser produzida cerca de 1320 nos mesmos centros dos "qingbai", e exportada em meados do século XIV, durante a dinastia Yuan (1279-1368). O cobalto vinha da Pérsia, da aldeia de Qamsar, sendo extraído das montanhas à volta de Kashan. O minério de cobalto era já utilizado naquele país nas faianças cozidas a baixa temperatura, tendo sempre tendência para escorrer. Em Jingdezhen, foi pintado com um pincel sobre a porcelana crua, apenas seca, que o absorvia, e revestido de um vidrado transparente que o cozia, tal como o corpo, a alta temperatura. Neste centro cerâmico, o maior e mais importante da China, o azul cobalto será estabilizado, o que permitira obter efeitos totalmente diferentes.
Origem/Historial: A peça foi adquirida a Luis Leal Lda em 01/11/1943, por 1.000$00 (mil escudos). Em 1965, as Finanças atribuíram-lhe o valor de 12.000$00 (doze mil escudos). A peça foi incorporada em 18/8/1967 por auto de entrega e cessão de bens ao Estado.
Incorporação: Por testamento de 31 Julho de 1964
Centro de Fabrico: Fornos de Jingdezhen
Bibliografia
DESROCHES, Jean-Paul; Pinto de Matos, Maria Antónia - Do Tejo aos Mares da China: uma epopeia portuguesa. Paris: Réunion des Musées Nationaux, 1992
LION-GOLDSCHMIDT, Daisy - Les poteries et porcelaines chinoises. Paris: Presses Universitaires de France, 1978
MATIAS, Maria Margarida Marques; Mota, Manuela - China e Islão. Gramáticas Decorativas. Lisboa: 1992
PINTO DE MATOS, Maria Antónia - A Casa das Porcelanas. Cerâmica chinesa da Casa-Museu Dr.Anastácio Gonçalves. Londres: Phipip Wilson/IPM, 1996
KRAHE, Cinta - Chinese Porcelain in Habsburg Spain, Centro de Estudos Europa Hispânica, 2016
AAVV, Le Bleu des Mers. Dialogues entre la Chine, la Perse et l'Europe, Fondation Baur, Musée des Arts d'Extreme Orient, Continents Editions, Italie, Novembro 2017