Técnica: Azul cobalto aplicado com pincel sobre a pasta crua revestida em seguida de vidrado.
Dimensões (cm): Alt. 3,4 x Diâm. 33,6; 18,2 (base)
Descrição: Prato fundo, circular, manufacturado num caulino muito claro manchado de impurezas ferruginosas, repousando sobre um pequeno pé com concreções arenosas, inclinado para o interior, cuja extremidade revela a matéria densa e branca que tomou uma cor acinzentada em contacto com a atmosfera do forno. O fundo apresenta uma concavidade no centro, a caldeira é arredondada e a aba estreita e levemente inclinada. A base, convexa, com estrias deixadas pelo torno, apresenta, inscrita num duplo círculo, a marca em azul cobalto sob o vidrado caligrafada em quatro caracteres, dispostos em cruz à volta de um quadrado central: « chang ming fu gui» (votos de longevidade, riqueza e honrarias); lê-se do alto para baixo e da direita para a esquerda. Esta peça recebeu uma decoração vigorosa, cuidada, em azuis luminosos marcados de traços e pontos escuros, revestida de um vidrado levemente azulado, e repartida por registos compreendidos entre círculos. No interior, no fundo delimitado por um duplo círculo, ergue-se, sobre ondas rebentando em espuma, um dragão alado em pleno voo, rodeado de nuvens. Este, herdeiro de uma tradiçao que remonta aos meados do seculo XV, persegue uma bola em chamas de onde parte uma espiral que simboliza o trovão, que se costuma denominar por «pérola»; na caldeira, quatro pêssegos alternam com abelhas; na aba dois pêssegos estão separados de três raminhos de flores de cinco pétalas por símbolos com fitas ondulantes: a cabaça, o nó sem fim e o losango. No exterior, além dos dois círculos que decoram o pé e os que separam o pé da parede da caldeira e esta da aba apresenta sete medalhões com cavalos a galope e, no reverso da aba, seis raminhos de flores com corola de cinco pétalas separadas por dois e três pontos. « A forma profunda, a porcelana espessa e pesada são típicas de Jiajing» (1), bem como o enquadramento com fitas sinuosas presentes em muitas peças desta época. « A marca com um quadrado central imitada de uma sapeca, figura sobre um grande número de peças de cerca de 1550» (2), o que nos leva a datar este prato de meados do seculo XVI.
A composição decorativa revela-nos a grande preocupação do imperador Shizong, correntemente designado por Jiajing de acordo com o nome da sua era: a procura da longa vida. Para reforçar o voto de longevidade expresso pela marca o oleiro utilizou o pêssego, «um emblema de casamento e símbolo de imortalidade e Primavera... o fruto que deu imortalidade aos imortais, e um importante ingrediente do elixir vitae dos Taoistas; a cabaça, atributo de um dos Oito Imortais Taoistas («seres lendários que terão vivido em várias épocas e atingido a imortalidade através dos seus estudos de segredos da natureza»), Li Tieguai, e ainda o nó místico, um emblema búdico, símbolo de longevidade porque não tem fim.
Existe um prato similar a este no tecto da «sala das porcelanas» dp palácio de Santos, actual residência do embaixador de França em Lisboa, datado do período Jiajing por Lion-Goldschmidt. No Topkapi Saray Museum existem vários pratos com o fundo decorado com o dragão alado, sendo uma dessas peças muito semelhante a este exemplar, com símbolos auspiciosos na aba e datado de meados do século XVI por Regina Krahl. Segundo Lion-Goldschmidt, a colecçao da Idemitsu Art Gallery de Tóquio, integra um pequeno prato esmaltado, datado Jiajing pelo Prof. Sato, que ostenta no centro um dragão semelhante, mas provido apenas de barbatanas.
(1) e (2) Lion-Goldschmidt, 1988, fig, 39 (nº 69), pp. 24-25
Origem/Historial: A peça foi adquirida a Antiquarium por 1.200$00 (mil e duzentos escudos), em 24/01/1945. Em 1965, as Finanças atribuiram-lhe o valor de 12.000$00 (doze mil escudos). A peça foi incorporada em 18/8/1967 por auto de entrega e cessão de bens ao Estado,
Incorporação: Por testamento em 31 de Julho de 1964
Centro de Fabrico: Fornos de Jingdezhen
Bibliografia
KRAHL, Regina; Erbahar,Nurdan - Chinese Ceramics,in the Topkapi Saray Museum (3 vols.). London: Sotheby's Publications, 1986
LION-GOLDSCHMIDT, Daisy - Les Poteries et Porcelaines Chinoises. Paris: Presses UPUF, 1978
MATIAS, Maria Margarida Marques; Mota, Manuela - China e Islão. Gramáticas Decorativas. Lisboa: 1992
PINTO DE MATOS, Maria Antónia - A Casa das Porcelanas. Cerâmica chinesa da Casa-Museu Dr.Anastácio Gonçalves. Londres: Phipip Wilson/IPM, 1996
WILLIAMS, C.A.S. - « Chinese Symbolism and Art Motifs». Vermont & Tokyo: Company Inc. of Rutland, 1993
KRAHE, Cinta - Chinese Porcelain in Habsburg Spain, Centro de Estudos Europa Hispânica, 2016
AAVV, Le Bleu des Mers. Dialogues entre la Chine, la Perse et l'Europe, Fondation Baur, Musée des Arts d'Extreme Orient, Continents Editions, Italie, Novembro 2017