Colcha

  • Museu: Museu Nacional de Arte Antiga
  • Nº de Inventário: 2237 Tec
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Têxteis
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: Século 16/17
  • Suporte: Duas telas de algodão
  • Técnica: Bordado.
  • Dimensões (cm): Alt. 335 x Larg. 257
  • Descrição: Colcha historiada bordada a seda amarela sobre duas telas de algodão. Composição em barras que se desenvolvem à volta de um centro. Ao centro a Justiça de Salomão, e nos quatro cantos do centro as quatro partes do mundo. A primeira barra narra a história de Arion. A segunda os trabalhos e outros episódios da história de Hércules. Uma terceira faixa mostra nos cantos e no centro dos quatro lados o Julgamento de Páris, Tisbe e Príamo, Hero e Leandro, Ulisse e Penélope (?), Acteon, Cupido e duas cenas não identificadas. Por último a típica barra das caçadas. Franja e borlas de seda amarela. «Há um tipo de colchas indo-portuguesas em que o esquema da composição consiste numa série de faixas ou cercaduras dispostas em redor de um painel central rectangular; a ornamentação historiada representa episódios do Antigo Testamento, da mitologia greco-romana, caçadas, cenas marítimas e, por vezes, acontecimentos coevos: geralmente uma cercadura ostenta ornatos vegetalistas, pássaros e seres fantásticos; nalguna exemplares inscrevem-se legendas em português, explicando as histórias que são narradas em séries de pequenos quadros, separados e emoldurados por tarjas de ornatos geométricos ou florais. «(...) Continuando a descriçã deste último exemplar vejamos agora a primeira faixa da composição onde numa série de pequenos quadros se relatam as aventuras de Arion, músico e poeta, protagonista de um alenda grega reproduzida por Heródoto. Segundo essa lenda, tendo Arion embarcado com suas riquezas os marinheiros decidiram lancá-lo ao mar para o roubarem. O poeta pede que o deixem cantar antes de morrer; um delfim atraído pela suavidade da voz vem salvar Arion e conduzi-lo às margens da Lacónia. A história começa à esquerda, abaixo do painel com a figuração do continente da Ásia. O poeta está está sentado tangendo a viola, à beira das águas de onde emergem as cabeças dos peixes - «Arion com o seu canto detem a corrente do rio». Depois ele canta para os bichos e para as aves; vêm ouvi-lo juntos os lobos e as ovelhas, os galgos e as lebres, as gazelas e os leões, as águias e as pombas. Os moradores das cidades fortificadas saem todos fora das muralhas que os guardam e defendem uns dos outros, atraídos pela melodiosa voz; e a própria Lua parava ouvindo o canto de Arion. Agora o cenário muda. O poeta abandona a frondosa árvore que lhe servia de abrigo e parte paar uma viagem pelo mar. «Embarca-se Arion para a sua Terra», explica a legenda. Os quadros seguintes dsecrevem os tormentos de Arion; o piloto quer matá-lo, ele que o deixem cantar antes de morrer e depois lança-se às águas; nesta altura aparece o delfim; segue-se um quadro em que o bordado desapareceu mas que representaria Arion salvo pelo peixe. Depois a história continua e o poeta, sobre o dorso do delfim, recomeça o seu canto melodioso. No quadro seguinte a figuração de Arion é seguida pelso deuses que «veem ver a grande piedade do delfim». Finalmente «Jupiter põe o delfim no ceu e lhe deu por cima nove estrelas». A faixa seguinte é consagrada aos trabalhos de Hércules e outras façanhas praticadas por esse herói. (...) Nos cinco quadrados da cabeceira superior, a partir da esquerda, Hércules combate e mata o leão de Numeia, cuja pele ele veste e usará sempre; mata a hidra de Lerna e vence o javali de Erimanto; apodera-se da corça dos pés de bronze e pontas de ouro depois de a perseguir durante um ano pelas florestas do Ménalo, e doma o touro da ilha de Creta. Continuando na zona lateral da cercadura, o primeiro quadro representa o herói entregando a Perseu a Rainha das Amazonas; segue-se um painel em que segundo a legenda Hércules tira Argia do mar e peleja com Neptuno e monstros marinhos; depois mata Gérion, o monstro de três cabeças, faz devorar Diómedes pelos seus cavalos e dsece aos infernos onde prende Cérber para libertar Teseu. A cabeceira inferior mostra-nos Hércules nos jardins das Hespérides de onde leva os pomos de ouro depois de matar o dragão que os guardava; combata e vence os centauros; livra Tesiona, filha do rei de Tróia, de um monstro marinho que ia devorá-la e sustenta o céu sobre os seus ombros para aliviar o gigante Atlas. Aqui se interrompem as façanhas heróicas e começa uma fábula jocosa conteda por Ovídio em que Hércules e Ônfale zombaram de um fauno. No primeiro quadro, Hércules ia com sua dama e oa fauno os viu no monte e se enamoroou dela. A fábula continua na zona lateral da cercadura onde se vê o herói comendo com sua dama e depois trocando com ela os vestidos; a legenda explicativa da segunda cena diz:« Hércules dormindo o fauno pega nele enganado dos vestidos» e finalmente no terceiro quadro Hércules e Ôfale, envergando os trajes trocados zombam do fauno caído por terra. Nos dois últimos quadros vê-se o bandido Caco a roubar o rebenho de Hércules o qual depois destapa a cova onde Caco se refugiara; falta a última cena que representa a morte de Caco dentro da cova. A faixa seguinte é preenchida pelo motivo dos dragões tendo no centro um mascarão coroado de folhas; desse ornato partem os enrolamentos que ostentam nas extremidades as cabeças de animais com as fauces hiantes; nos lados os seres compósitos- corpo antropomórfico e cabeça de veado. A ornamentação é de belo efeito decorativo rica de motivos florais, frutos, diversas aves emplumadas e pequenos quadrúpedes de lonag cauda. Na decoração desta cercadura pode haver influência de carácter ocidental e renascentista mas é curioso notar que numa pintura hindu, do século XI, proveniente do Turquestão Oriental, representando a 'Tentação de Mar' vê-se, entre as visões demmoníacas que assaltaram Buda, a figuração do veado semelhante e na mesma posição à que se encontra na colcha indo-portuguesa. [É uma pintura em seda que pertence ao Museu Guimet, vidé historia del Arte. Labor vol. IV, pág. 245; parece que a figuração não é usual na iconografia da mitologia indiana.] Nos eixos centrais desta faixa há quatro painéis emoldurados por uma espécie de pórtico; os linteis formados pelos corpos de serpente com cabeças de homem - os nagas -ostentam no centro máscaras demoníacas; os linteis assentam sobre duas estátuas de «naginis». Os «nagas» e as «naginis» são génios marinhos que, com o pássaro Garuda, pertencem à mitologia vaishnavita. As máscaras que parecem ser cabeças de leão podem derivar do «Kirttimukha» ou «Face da glória» símbolo do culto de Shiva. O Kirttimukha aparece nos linteis das entradas dos templos e nos frisos dos santuários, é uma máscara demoníaca que guarda e defende os limiares. [ Heinrich Zimmer, Myths and Symbols in Indian Art and Civilization, 1946, pág. 175. ] Os pequenos painéis emoldurados pela composição que acabamos de descrever representam na cabeceira inferior Cupido, de olhos vendados, montado no dorso de um leão; na cercadura lateral direita, um génio lado empunhando a tuba, conduzido por um pássaro monstro. Na cabeceira superior a cena parece representar o «Julgamento de Paris», vendo-se nela um homem que oferece um pomo atrês mulheres. No último painel um cavaleiro, com a cabeça coberta por elmo, é recebido por um adama no limiar de um edifício. O significado das cenas representadas nos cantos desta cercadura não está suficientemente esclarecido. No canto inferior, à direita, o painel representará talvez a fábula de Hero e Leandro, quando Hero se precipita do alto da torre ao reconhecer o corpo de Leandro sepultado nas águas do mar. No canto esquerdo o bordado está deteriorado, vendo-se apenas parte de uma figuar fabulosa, com busto humano, semelhante a outras que ornamentam a faixa de assuntos marítimos do Museu de Boston. Na parte superior, à esquerda, três mulheres dentro de um tanque, recebem nos corpos desnudados jorros de água lançados do alto por ornatos em forma de serpente; diante das mulheres vê-se uma figuara com corpo de cavaleiro e cabeça de veado. O painel pode ilustrar a metamorfose de Actéon, transformado em veado por Diana, quando surpreendeu a deusa no banho com as ninfas. No canto da direita o bordado está deteriorado, vendo-se uma dama e parte da figura de uma homaem; no último plano encontra-se um animal feroz e outra figuar feminina. A cercadura é prenchida por diversas cenas de montaria ao leão, ao búfalo, ao veado, ao javali; alguns caçadores desfecham as armas contra macacos e outros atacam monstros alados. Nos centros desta faixa, há um friso composto por flores de lotus e patos bravos; nas cabeceiras esse ornato mostra também uma manda de búfalos deitados ; note-se que esses motivos florais e animalistas são símbolos de Vishnu no culto vaishnavita. Os caçadores a pé e a cavalo vão armados de espingardas e de lanças; outros transportam a caça abatida ao ombro ou suspensa de uma lança, estes últimos devem ser servidores e têm a cabeça coberta por um barrete. As outras personagens levam chapéu de aba rígida redonda, com a copa alteada e pluma; este pormenor da indumentária e as golas altas dos gibões que os caçadores envergam, aparecem nos fins do século XVI e estiveram em uso até cerca de 1630. Dado o carácter seiscentista do bordado, esses pormenores de indumentária permitem datar a colcha do 1º terço do século XVII. O fundo da cercadura está inteiramente preenchido com ornatos florais, aves e pequenos quadrúpedes. Nos cantos, águias bicéfalas coroadas. As faixas e os pequenos páineis da composição são contornados com tarjas de rosetas estilizadas. Bordado feito em seda cor de palha sobre duas telas de algodão branco a ponto de cadeia; nas tarjas emprega-se também o ponto de margarida.» Maria José Mendonça «AlgunsTipos de Colchas Indo-portuguesas na Colecção do Museu Nacional de Arte Antiga» in Colchas Bordadas do Museu Nacioanl de Arte Antiga / Índia Portugal China / Séculos XVI/XVIII, Lisboa, M.N.A.A., 1978.
  • Incorporação: Leilão Burnay
  • Centro de Fabrico: Índia

Bibliografia

  • PEREIRA, Teresa Pacheco - À volta de alguns bordados indianos monocromos in Oriente Nº 15. Lisboa: Fundação Oriente, 2002
  • PEREIRA, Teresa Pacheco - Fábulas Bordadas. M.N.A.A.: 1989
  • Colchas Bordadas do Museu Nacional de Arte Antiga Índia Poprtugal China. Séculos XVI/XVII(Catálogo de exposição). Lisboa: MNAA, 1978
  • GARDE, Georg - "Portugisere og Indere: Silkebroderede billedscener fra 17. arhundrede", in Arv og eje (Arbog for Dansk Kulturshistorik Museumsforening): 1970
  • PEREIRA, Teresa Pacheco - «Colcha» in Henri Burnay. De Banqueiro a Coleccionador.. Lisboa: IPM/CMAG, 2003
  • IRWIN, John - "Indo-Portuguese Embroideries of Bengal", in Art and Letters. The Journal of the Royal India, Pakistan & Ceylon Society, vol. XXVI, n.º 2, second issue: 1952
  • SILVA, Maria Madalena de Cagigal e - A Arte Indo-Portuguesa. Lisboa: Edições Excelsior, 1966
  • Portugal and the East Through Embroidery: 16th to 18th Century Coverlets from the Museu Nacional de Arte Antiga, Lisbon. Washington DC: 1981
  • Colchas Bordadas dos Séculos XVII e XVIII (catálogo de exposição). Lisboa: M.N.A.A., 1945
  • MENDONÇA, Maria José de - "Alguns tipos de Colchas Indo-Portuguesas na Colecção do Museu de Arte Antiga", in Boletim do Museu Nacional de Arte Antiga. Vol. II, Fasc. 2: 1949
  • XVII Exposição Europeia de Arte Ciencia e Cultura, Casa dos Bicos. Lisboa: 1983

Exposições

  • Colchas Bordadas do Museu Nacional de Arte Antiga. Índia Portugal China. Séculos XVI/XVII

    • Lisboa, M.N.A.A.
    • 1/9/1978 a 30/9/1978
    • Exposição Física
  • Z Indii Do Portugalii. Tkaniny haftowane z XVII i XVIII wieku

    • Muzeum Naradowe w Warszawie, Praga, Polónia
    • Exposição Física
  • Colchas Bordadas dos Séculos XVII e XVIII

    • Lisboa, MNAA
    • Exposição Física
  • Portugal and The East Through Embroidery - 16th to 18th Century Coverlets from the Museu Nacional de Arte Antiga

    • Washington D.C., Textile Museum; New Bedford, Whaling Museum
    • Exposição Física
  • XVII Exposição Europeia de Arte Ciência e Cultura "Os Descobrimentos portugueses e a Europa do Renascimento"

    • Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga
    • Exposição Física
  • Henri Burnay: de Banqueiro a Coleccionador

    • Lisboa - Casa-Museu Anastácio Gonçalves
    • 27/11/2003 a 30/6/2004
    • Exposição Física

Multimédia

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