Técnica: decoração incisa; uniões da caixa e do soco à meia esquadria e emalhetada
Dimensões (cm): Alt. 69,5 x Larg. 141,5 x Prof. 38
Descrição: Arca de forma paralelepipédica, com tampa lisa, rectangular, faltando os rebordos da tampa. Assenta numa base (soco alto) rectangular, com faces lisas recortadas inferiormente.
Possui fechadura exterior de "caixão" saliente, com orla recortada, e ferrolho singelo (não é o original). No interior apresenta um escaninho incompleto do lado esquerdo, de que resta apenas a tampa.
Apresenta decoração incisa preenchida com uma massa escura, que se distribui pela frente da arca e da base.
A decoração da frente da arca consiste em dois dragões alados, adossados, inscritos numa reserva rectangular desenhada por uma cercadura composta por duplo filete enquadrando um motivo de tronco envolvido por "ramos cortados". O rebordo da caixa apresenta uma decoração incisa constituída por grupos de três círculos dispostos em triângulo, formando uma flor, colocados na união de arcos de círculo pontilhados e alinhados .No soco, largas volutas em "SS", dispostas em pares adossados com folhas lanceoladas na união, acompanham o recorte inferior de idêntica forma.
A tampa da caixa é articulada por engonços (não são os originais). Conserva vestígios dos engonços originais, que indicam que a tampa terá sido colocada ao contrário.
Origem/Historial: A massa que preenche as incisões que decoram este móvel foi analisada no Instituto de José de Figueiredo em 1976. A análise por cromatografia de camada fina realizada no Laboratório de Física e Química pela Drª Luísa Maria Picciochi Alves permitiu identificar a composição da massa como sendo fundamentalmente cera de abelha e corante à base de tanino. Ver relatório L.10-76.
Mais tarde, este corante foi identificado como sendo noz de galha.
Durante muito tempo, a madeira desta arca foi identificada como sândalo, o que originou erros na classificação deste tipo de peças, nomeadamente a possibilidade de se tratar de uma peça indo-portuguesa. Foi identificada em 1979 como sendo cedro ou zimbro, madeiras de que o arquipélago dos Açores era muito rico, concluindo-se que se tratava de móveis de fabrico nacional.
" A madeira desta arca foi, a pedido do Museu, observada, em 1972, pelo Sr. Eng.º Manuel Ferreirinha do Laboratório de Engenharia Civil. Classificada como uma madeira resinosa, pôs-se logo de parte a antiga atribuição. Análises ulteriores levadas a cabo no presente ano de 1979 pelo Sr. Eng.º Júlio Barreiro do mesmo laboratório, acrescentaram à classificação de resinosa a indicação de "gen. Juniperus", o que levou à conclusão ser o zimbro a madeira empregada na construção da arca" (Pinto, 1979, p. 134, nota 20).
Actualmente, alguns autores classificam esta "família" de móveis como açorianos (Dias, 1999, 2002; Felgueiras, 1996, 2002; Martins, 1997, p. 149, 1999).
Incorporação: Comprada na Casa Calendas. Despacho Ministerial de 21 de Outubro de 1955, visado pelo Tribunal de Contas em 25 do mesmo mês, com dispensa de concurso público e de contrato escrito (n.º26194).
Bibliografia
FELGUEIRAS, José J. G. Jordão - "O desconhecido Mobiliário Açoreano do Século de Ouro. "A propósito do despropósito contador de Argote", in Revista Museu, IV série, nº 11. Porto: Círculo Dr. José de Figueiredo, 2002
MARTINS, Francisco Ernesto de Oliveira - "Mobiliário açoriano do Cedro ao Jacarandá com Cedro séculos XV ao XVIII", in Angra, a Terceira e os Açores nas rotas das Índias e das Américas: a propósito dos 500 anos da passagem de Vasco da Gama por Angra em 1499. Angra do Heroísmo: MAH / BPAAH, 1999
PINTO, Maria Helena Mendes - Os Móveis e o seu Tempo. Mobiliário Português do Museu Nacional de Arte Antiga. Séculos XV-XIX. Lisboa: I.P.P.C./S.E.C., 1985-1987
FELGUEIRAS, José Jordão - "A propósito de uma curiosa arca", in Artes & Leilões, nº 16: Outubro 1996
DIAS, Pedro - História da Arte Portuguesa no Mundo (1415-1822) O espaço do Atlântico. Lisboa: Circulo de Leitores, 1999
SANDÃO, Artur de - O móvel pintado em Portugal. s.l.: Livraria Civilização, 1966
PINTO, Maria Helena Mendes; SOUSA, Conceição Borges de - Roteiro da exposição de mobiliário português do Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa: IPM, 2000
MARTINS, Francisco Ernesto de Oliveira - "A escultura flamenga nas ilhas dos Açores", in O Brilho do Norte. Escultura e Escultores do Norte da Europa em Portugal. Época Manuelina. Lisboa: CNCDP, 1997
DIAS, Pedro - "O fabrico de mobiliário na Ilha Terceira, no século XVI", in Manuelino. À Descoberta da Arte do Tempo de D. Manuel I. Lisboa: Editora Civilização, 2002
PINTO, Maria Helena Mendes - "Móveis", in Artes Decorativas Portuguesas no Museu Nacional de Arte Antiga. Séculos XV-XVIII. Lisboa: S.E.C./M.N.A.A., 1979
Exposições
Artes Decorativas Portuguesas no Museu Nacional de Arte Antiga. Séculos XV-XVIII