Dolman-manta
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Museu: Museu dos Biscainhos
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Nº de Inventário: 2770 MB
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Super Categoria:
Arte
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Categoria: Traje
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Autor:
Autor desconhecido (Modista ou costureira (?))
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Datação: 1884/1888
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Dimensões (cm): Comp. manga 66 x Alt. frontal c.92; dorsal c.55
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Descrição: Dolman-manta ou dolman-mantelete, em tecido de gorgorão de seda preta, definindo uma espécie de casaco com duas bandas frontais prolongadas até ao meio da perna e mangas compridas em formato de pagode. Supõe-se que parte expressiva desta peça de vestuário, nomeadamente a bordadura da frente, contorno inferior e costuras das costas, assim como a extremidade das mangas tenham sido guarnecidas por um galão em cordão de seda negro, o que se define pela sobrevivência de linhas castanhas e brancas pespontadas nas áreas mencionadas, e dada a presença deste tipo de adorno na orla lateral de uma das abas. A face dorsal desenha inferiormente um triplo apêndice sendo o central com muita roda e remate em ponta ou bico. Actualmente, o exemplar não apresenta gola que foi removida, e de que resta sómente uma área parcial do forro. Ainda relativamente à ornamentação exterior é de salientar a inserção de um elemento de passamanaria de seda negra, composto por uma rosácea com cordão e tripla borla, junto da costura da manga do lado direito.
As bainhas frontais são reforçadas internamente por uma tira de tecido de gaze de linho (estamenha ?) de cor branca, sendo de presumir que esta técnica seja extensível às áreas restantes não visíveis. Fixada a partir da costura central dorsal através de ponto de cruz a linha de linho castanho, introduz-se uma fita de cintura em fitilho de tecido do estreito de seda tafetá negra para permitir o ajustamento cintado ao corpo, a qual se encontra presentemente destacada de um dos lados.
A peça é forrada a tecido de seda natural negra e é alcochoada por pasta de algodão castanha costurada mecanicamente (máquina de costura) através de linhas paralelas enviesadas.
O dolman-mantelete em foco apresenta-se do maior interesse por corresponder a um período muito curto da moda feminina, situável entre cerca de 1884 e 1888, em que a "tournure" assumiu o seu maior dimensionamente, pelo que condicionava a que certos agasalhos, de que esta peça é exemplo, se definissem até à cintura, na face posterior,a fim de evitar um excesso volumétrico. Por outro lado, o facto de ter sido profundamente intervencionada com o ausentar de inúmeros adornos nomeadamente os respeitantes ao contorno frontal e dorsal e de um dos broches em passamanaria, que seria paralelo ao existente, assim como pelo forro se encontrar descosido, permite-nos constatar as técnicas de costura utilizadas no último quartel do século XIX português.
Trata-se de uma peça de qualidade, ilustrativa de uma confecção original cuidada assim como de uma origem abastada o que se confirma dado que pertenceu a uma família da nobreza do norte do país. Permite ainda documentar o conhecimento dos ditames da moda feminina francesa, à semelhança da capital e da Europa, entre a sociedade nobre e burguesa da região, de que se cita, a titulo de exemplo, "A Estação. Jornal Ilustrado para a Família", adaptado do francês para Portugal pela Livraria Chardron, em que no ano de 1886, se podem constatar vários modelos similares ao vestuário em análise.
Glossário|
Pasta de algodão| Inserimos o conceito oitocentista (1889): "Chama-se pasta de algodão ao algodão fino cardado e engomado nas superfícies. (...) tendo o cuidado de deixar para o lado de dentro a parte engomada, de modo que a parte mais quente fique voltada para o forro." In "Diccionario universal da vida pratica na cidade e no campo: (...)". Adap. de Teixeira Bastos. - Magalhães & Moniz, editores, Porto, 1889, I vol., p.118-119.
"Tournure| "Armação interior destinada a dar volume à parte posterior da saia feminina, usada de 1869 a 1890. Inicialmente, consistia numa almofada ou numa sucessão de folhos armados, sendo depois substituída por flexíveis semi-aros de metal para se transformar novamente num pequeno volume almofadado". In DIMAS, Dina Caetano. - Glossário. In "Museu Nacional do Traje. Roteiro", IPM, Lisboa, 2005, p.168.
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Origem/Historial: Posteriormente ao falecimento da Senhora Dona Maria da Purificação de Araújo e Brito Lima da Rocha Aguiã, o seu marido, o Senhor Dr. António Alberto de Magalhães Barros Lançós Cerqueira Queiroz fez doação ao Museu dos Biscainhos, de um importante núcleo de Traje Civil português, que pertencera à família da sua esposa, datável maioritariamente do século XIX, de que o presente espécimen fez parte integrante.
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Incorporação: Doação do Senhor Dr. António Alberto de Magalhães Barros Lançós Cerqueira Queiroz| Colecção Senhora Dona Maria da Purificação de Araújo e Brito Lima da Rocha Aguiam, da Casa da Ponte, Arcos de Valdevez.
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Centro de Fabrico: Presumivelmente Portugal.
Bibliografia
- "A Estação. Jornal Ilustrado para a Família". Porto: Lombaerts & Comp. Livraria Ernesto Chardron, 1886
- "Histoire du Costume en France", «Encyclopédie par l'image»: Librairie Hachette, 1924
- TOUDOUZE, G.- - "Le Costume Français", «Collection Arts, styles et techniques». Paris: Librairie Larousse, 1945
- WILCOX, R. Turner - "La Moda en el vestir". Buenos-Aires: Ediciones Centurión
- JOHNSTON, Lucy; KITE, Marion;PERSSON, Helen. - "Nineteenth-century Fashion Detail", V & A Publishing, 2009.