Descrição: Relicário em forma de busto executado em prata dourada, com policromia a sugerir carnação, na face e pescoço.
Arcaizante na sua feitura, reproduz uma cara masculina de configuração anatómica desproporcionada: testa curta, estreita e um rosto demasiado largo, no qual sobressaem olhos grandes e inexpressivos que acentuam rudeza de traços. Os cabelos à altura da base da nuca são trabalhados em madeixas soltas onduladas junto ao rosto seguindo depois, no conjunto, um tratamento liso.
À maneira oriental, uma fita cinge-lhe a cabeça. Nesta, é visível a existência de uma inscrição em toda a sua extensão mas que, face ao desgaste sofrido pelo relicário, está hoje totalmente ilegível; a metade da fita do lado esquerdo do observador possibilita apenas decifrar algumas letras isoladas, enquanto na metade do lado direito ainda permite ler na zona terminal um resto da inscrição: ... EM XX DE AGOSTO DA ERA DE 1509 A(NOS).
Sobre a fita na zona frontal do crâneo, salienta-se um cabochão oval montado numa armação em prata dourada e esmaltada, que segue formalmente os modelos em voga no século 16.
O tronco revela um modelo de veste sem gola rematada por galão decorado com motivos vegetalistas, cujo acabamento na zona do peito não é visivel, devido à cartela epigrafada que foi aplicada em 1548. Nesta, além da referência à cabeça de São Pantaleão, segue-se a identificação dos santos cujas relíquias ali acrescentaram em data desconhecida: Santo Estêvão, Santa Eufémia e Santa Clara.
Na sequência dos ombros, contornando toda a zona inferior do busto, uma faixa larga serve de enquadramento a uma inscrição coeva da sua manufactura em que a cartela e as sete cabeças de anjos que lhe foram aplicadas possivelmente na mesma altura, por apresentarem um tratamento igual ao dos três elementos que a decoram, não permitem uma leitura completa. Ação somente possível após a abertura do relicário e dos levantamentos realizados a partir do interior. Assim, na face interior, ao centro e na zona do peito, visualiza-se uma cruz que por sua vez assinala o início da inscrição:+ HOC : ENIM : CAPUT : sanCtl : PANTELEYONIS : ET Cetera : 1509.
A base sem peanha apresenta sobre um fundo liso uma filactera dobrada em estola que exibe outra inscrição: ESTA: CABECA: LEIXOU: GONCALO DA: CUNHA: MEO: CONIGO.
Origem/Historial: *Forma de Protecção: classificação;
Nível de Classificação: interesse nacional;
Motivo: Necessidade de acautelamento de especiais medidas sobre o património cultural móvel de particular relevância para a Nação, designadamente os bens ou conjuntos de bens sobre os quais devam recair severas restrições de circulação no território nacional e internacional, nos termos da lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro e da respectiva legislação de desenvolvimento, devido ao facto da sua exemplaridade única, raridade, valor testemunhal de cultura ou civilização, relevância patrimonial e qualidade artística no contexto de uma época e estado de conservação que torne imprescindível a sua permanência em condições ambientais e de segurança específicas e adequadas;
Legislação aplicável: Lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro;
Acto Legislativo: Decreto; N.º 19/2006; 18/07/2006*
No Livro de Despesas da Fábrica da Sé Catedral do Porto relativo ao ano de 1548, um assento datado de 16 de Abril, revela o conserto da "cabeça de sã pantaliã", pelo ourives Brás Afonso que nesta data lhe "pôs de prata mais do que tinha em cravação e Rotolo e soldar... e de a dourar..." Terá sido nesta altura que todos os acrescentos se fizeram.
Este assento é da maior importância por constituir não só o registo documental mais antigo que faz referência expressa ao busto relicário, mas também porque o identifica como parte integrante do tesouro da Sé Catedral do Porto.
A sua permanência na catedral portuense é atestada ao longo de séculos em sucessivos inventários até que, em data indeterminada, deixa o tesouro catedralício. Em 1862, já não é referido no inventário realizado pela Mitra do Porto, assim como não consta no arrolamento dos bens da Sé, efectuado em 1911 no contexto da Lei da Separação da Igreja do Estado, como consequência da implantação da República.
Em 1936, quando o então Director interino do Museu Nacional de Arte Antiga, Dr. João Couto, ao proceder à avaliação do recheio da casa forte do Palácio das Necessidades, a pedido da Direcção-Geral da Fazenda Pública, depara com o busto relicário entre tantas peças ali guardadas, enceta negociações com a Direcção-Geral no sentido desta ceder para o museu algumas das peças que ali se encontravam, incluindo entre as seleccionadas o busto relicário. A 11 de Julho de 1938 é lavrado o Auto de Depósito desta alfaia religiosa no Museu Nacional de Arte Antiga. Entretanto, o Dr. Vasco Valente, à época Director do Museu Nacional de Soares dos Reis, ao saber da sua existência, insiste junto do Director-Geral da Fazenda Pública para que o relicário venha para o museu do Porto, argumentando o significado que este tinha para a cidade, visto ser S. Pantaleão o seu patrono. Anuido o pedido, por despacho ministerial de 10 de Janeiro de 1941, é autorizada a cedência, que se efectua a 16 do mesmo mês e ano, tal como consta no respectivo Auto de Entrega.
Ao longo da sua existência como objecto musealizado, o relicário de S. Pantaleão tem sido alvo de vários estudos, o mais recente dos quais, em alargado campo de pesquisa multi e interdisciplinar, forneceu importantes dados documentais.
É neste contexto que surgem dois documentos relevantes que poderão servir de explicação para a sua saída do tesouro da Sé e o seu aparecimento nos cofres do Palácio das Necessidade: um desenho do busto relicário assinado pela Rainha D. Amélia, datado de 1910, e uma carta com a data de 1 de Outubro do mesmo ano, enviada pela Rainha ao bispo do Porto a agradecer o empréstimo dos objectos da Sé que entretanto desenhara. Sem que haja nesta uma menção específica ao busto relicário, prova-o o desenho efectuado. Por outro lado, a data permite aventar a hipótese de que, por essa altura, o relicário estaria já na casa forte do Palácio das Necessidades e que depois do tumulto desse ano ali tenha permanecido durante vários anos.
e que depois do tumulto desse ano ali tenha permanecido durante vários anos.
Incorporação: Transferência da Direcção Geral da Fazenda Pública
Bibliografia
[1579] - Inventairo do ouro, prata, ornamentos, tapeçaria e de todas as mais cousas que ao presente foraom achadas nesta see do Porto conforme ao inventairo que dantes fez o senhor bispo Aires da Sylva e cousas que de novo acresçeram - ADP/Mitra 176
[1589] - Inventairo do ouro, prata, ornamêtos. Tapecaria e de todas as maes cousas que ao presente forão achadas nesta see do Porto, Conforme ao inventairo que fez o Snõr bpo dom frey Marcos de Lisboa, e cousas que de nouo acrescerão e sua Senhoria deu. - ADP/Mitra 176, Lº 33
[1793] - Autos de Inventario dos bens moveis, ornamentos e Alfayas pertencentes à Fabrica e Santa Igreja Catedral desta Cidade - ADP/Mitra 33
AMÉLIA, Rainha de Portugal - Mes Dessins, II, Art et Archéologie. Londres:: Maggs Bros, 1928
Arquivo Documental do Museu Nacional de Soares dos Reis
Auto de Entrega do Depósito efectuado pela Direcção Geral da Fazenda Pública ao Museu Nacional de Soares dos Reis, do Busto Relicário de São Pantaleão, datado de 16 de Janeiro 1941
BASTO, A. de Magalhães - A Cabeça de S. Pantaleão. Nota documental do séc. XVI. In MUSEU, vol. II, nº 5. Porto: Círculo Dr. José de Figueiredo, 1943
BASTO, A. de Magalhães - Apontamentos para um Diccionário de Artistas e Artífices. Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto. Porto: Câmara Munipal do Porto, vol. XII (Mar.-Jun. 1949), fasc., 19__, p. 11.
BASTO, A. de Magalhães - Notícias curiosas sobre assuntos portuenses extraídas dos "papeis" do académico setecentista António Cerqueira Pinto. Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto.. Porto: Câmara Municipal do Porto, (Mar.-Jun 1949), vol. XII, Fasc., Fasc. 1-2. p. 145-14
BASTO, A. de Magalhães - O Tesouro da Sé do Porto em 1589. MUSEU, vol. I, nº 1: 1942
BASTO, A. de Magalhães - Um quinto centenário da história do Porto.. O TRIPEIRO, nº 8, V série, Ano IX: Porto,, 1953
BOLETIM CULTURAL DA CMP. vol. XII, fasc. 3-4: 1949
Boletim dos Museus Nacionais de Arte Antiga, vol. I, fasc. 1: 1939
Boletim dos Museus Nacionais de Arte Antiga, Vol. II, fas. 5: 1941
CAMPO BELLO, 4º Conde de - O Tesouro da Sé do Porto no século XVIII. BOLETIM CULTURAL DA CMP., vol. XXVIII. fasc. 3-4: 1965
CASTRO, Marília João de - Ourives Portuenses dos séculos XVI e XVII. Contributos para um dicionário.. MUSEU, IV série, nº 8: 1999
CORRÊA, José Augusto - Cidades de Portugal. Lisboa: Clássica Editora, 1907
CUNHA, D. Rodrigo da - Catálogo dos Bispos do Porto. Porto: Officina Prototypa Episcopal, 2.ª ed., II, 1742
GONÇALVES, Flávio - S. Pantaleão. Documentos portuenses para o estudo da sua iconografia. O Tripeiro. Porto: Ed. António Sardinha, 1947, nº 3, V série, Ano III, pp. 62-64.
Historia da Cidade do Porto. Porto: Portucalense Editora, vol II
Inventairo do ouro, ornamentos, tapeçaria e de todas as mais cousas que ao presente foraom achadas nesta see do Porto conforme ao inventairo que dantes fez o senhor bispo Aires da Sylva e cousas que de novo acresçeram. Intr. de Flórido de Vasconcelos., Porto:. Biblioteca Pública Municipal do Porto,: Manuscritos Inéditos. 2ª série, 2, 1984
Livro de Notas, manuscrito, do Dr. Vasco Valente: s/d., refª. 44
MATTOS, Armando de - A cabeça de S. Pantaleão. MUSEU, vol. I: 1942
Museu Nacional de Soares dos Reis. Roteiro da Colecção, 1.ª ed. Lisboa: IPM, 2001
NOVAES, Manuel Pereira de - Anacrisis historial. II Parte, Episcopologio, vol. III da Colecção Manuscritos inéditos agora dados à estampa. Porto: BPMP, 1912-1918
PESSOA, Alberto - S. Pantaleão. Separata de O INSTITUTO.. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1927, vol. 74, nº5
SILVA, Germano - À Descoberta do Porto: Relíquias de S. Pantaleão na Sé Catedral há 500 anos. JORNAL DE NOTÌCIAS (4 Abr. 1999)
SOUSA, Manuel Faria e - Europa Portuguesa. 1640, Tomo III, parte III, cap. XII, 2ª ed.
SOUTO, A. Meyrelles - A Iconografia de S. Pantaleão. Museu. Porto: Círculo Dr. José de Figueiredo, vol. V, n.º 11 (1949)
VASCONCELOS, Flórido de - O busto relicário de S. Pantaleão. Breve estudo da sua iconografia. MUSEU, nº 5, IV série: 1996
VASCONCELOS, Flórido de - O busto relicário de S. Pantaleão. Separata das Actas do Congresso Internacional "Bartolomeu Dias e a sua época". Porto: 1989
GULBENKIAN, Roberto, Relações históricas entre a Arménia e Portugal na Idade Média até o fim do século XVI. In ANAIS da Academia Portuguesa da História, II Série, Vol. 26, Tomo II, Lisboa, 1980