Monumento funerário de Árquio

  • Museu: Museu da Guarda
  • Nº de Inventário: 3331
  • Super Categoria: Arqueologia
  • Categoria: Epigrafia
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: Século 2
  • Técnica: Talhe direto, incisão.
  • Dimensões (cm): Alt. 55 x Larg. 58 x Esp. 31
  • Descrição: Placa em bloco de granito de grão fino, de tonalidade amarelada, em forma de paralelepípedo. O campo epigráfico, defenido por um único sulco, pouco profundo, que dista, na parte inferior, entre 10 a 11 cm dos limites originais do suporte e nos restantes lados 5 a 6 cm. Nele se gravou, em letras capitais típicas da epigrafia alto-imperial, um conjunto de três linhas que tendem a ocupar toda a extensão disponível para a escrita; constata-se, no entanto, que a terceira linha , correspondente à fórmula funerária, se alinha à direita, circunstância que é menos habitual. A distribuição do texto revela a preocupações do lapicida na colocação em cada uma das linhas de uma realidade textual diferente, segundo as melhores regras: na primeira inscreve o nome do defunto; na segunda o patronímico; na terceira uma das mais correntes fórmulas funerárias latinas. Nesta, contra o que é mais usual, escreve-se por extenso a forma verbal EST, por via da regra abreviada. O bloco deveria encontrar-se integrado num monumento complexo, provavelmente um mausoléu, que deveria situar-se junto de um caminho, seguindo a mais comum das tradições romanas quanto à localização das sepulturas. O epitáfio gravado é o seguinte: ARQVIVS / TANGINI. F(ilius) / H(ic). S(itus). EST Interpretação: Arquius / Tangini f(ilius) / h(ic) s(itus) est. Tradução: Aqui jaz Árquio, filho de Tanguino Altura das letras: l.1:8cm, ma o segundo V=4; l.2: 9 diminuindo para 8; l.3:8/9cm. Campo epigráfico:36/35x(47). Espaços: em cima 1cm; em baixo 3cm. Espaços interlineares: 2/3 cm.
  • Origem/Historial: A peça foi encontrada nos anos 60, na Quinta da Granja, Gonçalo, propriedade do sr. Dr. António Cardoso Moniz (residente no Porto), Barão de Alva e Palma, quando era seu arrendatário o sr. Manuel Mateus Fonseca Pina. Confronta, esta quinta, com outra designada do Prado onde, em grande extensão, surgem, à superficie materiais de época romana. Por ali passava uma via romana que ligava Centum Celas a Famalicão passando pela portela do Castelão. Quando se procedia a trabalhos agrícolas, ter-se-á não só encontrado esta peça como consta que existiam fundações, a 30, 40 cm de profundidade, em alvenaria, de uma possivel construcção de planta rectangular. Na época uma outra pessoa terá encontrado um forno e ainda moedas, brincos e outros artefactos em ouro. A peça foi deslocada para um cabanal na Quinta dos Cantos da Ribeira - Ginjal - Belmonte, propriedade do sr. Manuel Mateus Fonseca Pina e de seu filho Manuel Nunes Fonseca Pina, morador na rua D. carlos I n.º 32, 2780 Porto Salvo. Informação recolhida pela senhora Directora do Museu Drª. Dulce Helena Pires Borges a 29 de Maio de 1995. A peça foi recolhida pelo Museu da Guarda a 23 de Janeiro de 2003, com a colaboração dos Serviços de Protecção Civil da Camâra Municipal da Guarda, tendo sido registada com o N.º Inv.: 1466 - D. Em 22 de Outubro de 2004 após despacho favoravel do Director do Instituto Português de Museus Dr. Bairrão Oleiro, passou a fazer parte do acervo do Museu da Guarda, com o N.º de Inv.: 3331. Comentário histórico-cultural da autoria do Professor Doutor Amilcar Guerra: Este documento epigráfico integra-se num amplo conjunto de inscrições funerárias que a Lusitânia romana nos legou. Neles transparece claramente o impacto que a cultura de origem latina teve nas populações desta provincía situada, na visão geográfica do mundo antigo, no confim das terras, no extremo do mundo conhecido. Estas populações longínquas adoptaram, contudo, muitos hábitos típicos dos conquistadores, entre eles o de promover homenagens aos defuntos, as quais se traduzia, com frequência numa inscrição gravada em pedra que identificava a personagem e proporcionava alguns elementos a seu respeito. Por isso estes vestígios permitem fazer uma ideia da realidade social que marca este período da nossa história longínqua. Neste caso concreto é fácil perceber, graças ao conhecimento que hoje possuímos de onomástica desta época, que a pessoa a quem se colocou este monumento sepulcral era de origem hispânica: tanto o seu nome como o de seu pai integram-se seguramente no grupo de antropónimos que integram a tradiçaõ onomástica pré-romana e que se manteve ainda durante séculos. Embora não saibamos quanto perduram estes elememtos num ambiente em que se vão afirmando progressivamente os nomes tipicamente latinos, é certo que passam muitos séculos até se perder o hábito de usar a onomástica tradicional. Arquius apresenta-se como um apelativo que, nesta forma, se encontra registado mais de vinte vezes na epigrafia de toda Hispânia; o mesmo nome aparece igualmente grafado como Arcius, formas que se pronunciariam da mesma forma. A primeira delas é mais abundante na parte norte da Península Ibérica, desde o Atlântico até ao vale do Ebro. A segunda encontra-se mais representada na região da Idanha e no território português a norte do Douro. De qualquer modo, não se pode considerar estranho que aqui se registe a variante menos habitual na região. Na realidade ambas são equivalente e não há aparentemente uma razão relevante para se preferir uma delas. O nome Tanginus/ Tancinus é um dos mais abundantes nomes indígenas que se conhece, estando registado quase uma centena de vezes, nas suas variantes gráficas. Trata-se, além do mais de um antropónimo típico da Lusitânia, só raramente encontrado fora desta província. Não restam pois dúvidas sobre a sua origem lusitana e certamente local de Árquio e de seu pai. Do ponto social ambos pertencem ao grupo de homens livres, de origem hispânica (os latinos chamavam-nos peregrini), podendo, portanto, gozar de todos os direitos inerantes a essa condição: em especial participar na vida pública da sua cidade, incluindo a possibilidade de exercer cargos públicos nesse âmbito. Teoricamente estava-lhes igualmente aberto o caminho da cidadania romana, representando esta uma promoção social que numa fase precoce se pode considerar um privilégio raro, mas que se vai progressivamente generalizando. Naturalmente esta personagem e quem lhe promove a homenagem conhecem e aceitam bem as tradições romanas, recorrendo ao trabalho de uma oficina especializada que elabora, de acordo com as regras, o monumento em que este bloco primitivamente se integrou. Ele constitui hoje a memária viva desse passado distante e dos mais eloquentes vestigíos de uma cultura letrada e próspera.
  • Incorporação: Foram doadores os senhores Manuel Mateus Fonseca Pina, Manuel Nunes Fonseca Pina e Maria de Lurdes Fonseca Pina.
  • Centro de Fabrico: Lusitânia

Bibliografia

  • GUERRA, Amilcar, "Monumento funerário de Árquio",julho, 2009, estudo não publicado, realizado a pedido do Museu da Guarda
  • CURADO, Fernando Patrício; "Alguns materiais romanas da quinta da Granja e Prazo, Gonçalo (Guarda)". Edição da Câmara Municipal da Guarda, Praça Velha nº 35, 1ª Série, novembro 2015. pág. 223-228

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