Suporte: Tecido: veludo cortado, de dois altos, lavrado a fio dourado com anelado de um alto.
Técnica: Bordado: bordado directo e bordado de aplicação; pontos de ouro, ouro estendido, ouro matizado, ouro com relevo; seda matizada, ponto fendido, ponto lançado, ponto a cheio, seda frouxa estendida, sujeita por um fio dourado; (ver restante técnica no catálogo "Imagens em paramentos bordados: séc. XIV a XVI).
Dimensões (cm): Alt. cost: 118; frente 101 x Larg. Cost. 70; frente 70
Descrição: Casula, frente ligeiramente recortada, costas arredondadas na base; tecido lavrado; sebastos bordados, na frente sebasto em forma de cruz e uma edícula, nas costas, duas edículas; galão bordado e galão estreito, tecido, a debruar os sebastos; galão largo, tecido, a debruar toda a peça; emendas com outro tecido.
Do notável conjunto de paramentaria, designado normalmente por «Paramento de Santo Estevão», destaca-se a casula, não só pelo valor simbólico mas também pela sua grande qualidade, formal e técnica.
Peça destinada ao principal celebrante na Missa, nela se concentrava o poder imagético, neste caso com a representação da Crucificação de Cristo e a evocação dos santos, Estevão e Paulo.
A presença repetida do protomártir indicia a presença a um local de culto a ele dedicado, muito provavelmente a Capela de Santo Estevão, fundada em finais do século XIV e pertencente à Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira. Na dotação de igrejas e mosteiros com peças de elevado valor, frequentemente adquiridas ou mesmo encomendadas nos melhores centros de produção europeus, incluía-se também a Paramentaria, de que esta casula e o conjunto em que se integra são um excelente exemplo.
Pela grande mestria dos bordados, utilizando vários tipos de fio metálico e sedas policromas, obtiveram-se efeitos quase escultóricos, simultaneamente com suaves matizes, a definir as imagens dos sebastos.
O tecido do corpo da peça, um veludo carmim, lavrado a fio metálico dourado, insere-se na tipologia dos veludos italianos do final do século XV, florentinos e venezianos. Já o bordado, proveniente sem qualquer dúvida de um grande centro oficial, apresenta características comuns a Inglaterra (Cena da Crucificação) e aos Países Baixos do Sul (Estruturas arquitecónicas e perfeito domínio da técnica de ouro matizado).
É datável do início do século XVI.
Ornamentação: representação de imaginária em edículas e no sebasto em forma de cruz.
Figuras com dalmática e alva; figuras com manto e túnica; auréola e atributos.
Cena da Crucificação, cortada no topo e nos braços laterais; cruz de base volumosa, ornamentada com pequenas esferas, onde assenta cálice; legenda no topo; Cristo, com coroa de espinhos e auréola, ladeado por dois anjos sustentando cálices; anjos com asas oceoladas, vestes muito ornamentadas e fronte cingida por diadema e cruz; em fundo de jardim, crânio e ossadas.
Enquadramentos arquitectónicos.
Iconografia:
Frente: cena da crucificação, Santo Estêvão, tonsura, veste de diácono; cabeça ferida (?), segura pedras no plano pendente do ombro. Costas: Santo Estêvão, descrição semelhante à anterior; S. Paulo, espada e livro fechado.
Teresa Alarcão
Casula de veludo carmim lavrado e bordado. Apresenta sebastos bordados com motivos hagiológicos e geométricos, aplicados e contornados por galões dourados, que igualmente debruam toda a peça. Os motivos do veludo são de grandes dimensões, desenvolvendo-se verticalmente em movimentos serpenteantes acompanhando palmetas, alcachofras, cardos e elementos vegetativos constituidos por flores e folhas. A utilização da flor do cardo indica uma tipologia italiana situada entre 1450 e 1480.
Ornamentação/Iconografia:
Sebasto da frente: Cristo morto na cruz, ladeado por anjos, e Santo Estevão.
Sebasto das costas: Santo Estevão, e S. Paulo.
Figuras enquadradas por elementos arquitectónicos renascentistas.
Manuela Pinto da Costa
Origem/Historial: Proveniência de uso: Guimarães, Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, Capela de Santo Estevão (?)
Incorporação: Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, Guimarães.
Bibliografia
ALARCÃO, Teresa; CARVALHO, José Alberto Seabra - Imagens em paramentos bordados: séculos XIV a XVI. Lisboa: Instituto Português de Museus, 1993.
BASTOS, Carlos - Arte Monumental dos Tecidos. Porto: [s.n.], 1954.
CALDAS, António José Ferreira - Guimarães: Apontamentos para a sua História. Guimarães: Câmara Municipal; Sociedade Martins Sarmento, 1996.
GUIMARÃES, Alfredo - Exposição de Arte Sacra. Lisboa: Ed. Nação Portuguesa, 1928.
GUIMARÃES, Alfredo - Mobiliário Artístico Português: Elementos para a sua História: Guimarães. Vila Nova de Gaia: Edições Pátria, 1935.
MORAES, Maria Adelaide Pereira de - Velhas Casas VIII: Casa do Cano ou do Salvador. "Boletim de Trabalhos Históricos". Guimarães: Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. Vol. 32 (1981), p. 15-120
Velluti e moda tra XV e XVII secolo. Milano: Skira; Museo Poldi Pezzoli, 1999.
GRAÇA, Manuel de Sampayo Pimentel Azevedo – Angelorum. Anjos em Portugal = Angels in Portugal. Guimarães: Museu de Alberto Sampaio, 2012.
Exposições
Imagens em Paramentos Bordados - séculos XIV a XVI