“Mater Dolorosa”

  • Museu: Museu Nacional de Etnologia
  • Nº de Inventário: AA.588
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Artes plásticas
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: Século 20
  • Dimensões (cm): Alt. 0.26
  • Descrição: Em madeira preta, rija, com a altura de 0.26. O artista, influenciado por um sentimento religioso de fé cristã, transformou a matéria inerte, que deixou sair sob o corte da sua faca, na figura representativa de “Mater Dolorosa”. É possível que o artista fosse buscar como modelo qualquer estampa que o tivesse impressionado e conduzido à leitura desta peça. Artista de mérito, podia não ter sido convencido pelo sentimento religioso da fé cristã, mas ao que é certo é que soube exprimir no seu trabalho uma interpretação tão delicada que nos leva a vê-lo aproximado dessa mesma fé e por esta talvez vencido. Os artistas Macondes deixam frequentemente correr a lâmina das suas facas para o domínio de expressões selváticas, das quais não faltam com os figurativos das suas escarificações tribais. Neste caso o artista, auto desta peça, animado pelo pensamento místico que lhe teria inspirado a estampa que caiu sobre os seus olhos, soube dar à figura proporções e relevos de grande equilíbrio e segurança de talhe que indicam um trabalho cuidado, através do qual obteve expressões de doçura e de serenidade que põem em relevo uma força interior de expressão resignada, que dá vida à figura esculturada. Todavia o artista não pode fugir , o que é natural, aos pequenos pormenores anatómicos que caracterizam as suas figuras , o que, alias, não perturbem o ritmo procurado, num afastadamente absoluto que qualquer litigio de linhas. Temos neste caso a triangulação dos lábios, acompanhada de uma marcante pragmatismo labial. Esta escultura apresenta-se com afiguração de um manto a cobrir a cabeça, como se de uma beatilha se tratasse , manto que cai sobre os ombros e que esconde os membros superiores se prolonga, em dobras suaves, até à região tribal posterior. Todo o corpo da figura encontra-se envolvido por uma roupagem característica, que se aconchega ``a linha da cintura, por meio de um cinto proporcionalmente largo. Esta escultura de corte um tanto ou quanto estilizado, lhe não diminui aliás , o nível de misticismo a que o artista a elevou, pode considerar-se sem exagero, um testemunho do poder artístico da sensibilidade visual do seu autor, que são , afinal, comuns aos artistas macondes. Embora vejamos esta peça aproximada de uma técnica ligada à civilização europeia, todavia, pelas imperfeiçoes do seu acabamento, podemos transporta-la para a época anterior à industrialização.
  • Incorporação: Anterior proprietário: Desconhecido

Bibliografia

  • DIAS, Jorge; Dias, Margot (*) - Os Macondes de Moçambique: cultura material, vol. 2. Lisboa: JIU/CEAC, 1964
  • DIAS, Jorge; Dias, Margot (*) - Os Macondes de Moçambique: aspectos históricos e económicos, vol.1. Lisboa: JIU/CEAC, 1964
  • DIAS, Jorge; Margot Dias (*) - Os Macondes de Moçambique: vida social e ritual, vol.3. Lisboa: JIU/CEAC, 1970
  • GUERREIRO, Manuel Viegas(*) - Os Macondes de Moçambique: sabedoria, língua, literatura e jogos, vol.4. Lisboa: JIU/CEAC, 1966
  • Oliveira, António de - Mahamba: tentativa de interpretação artística e psicológica de documentos de arte dos negros africanos. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1959

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