Homem sentado numa canoa
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AN.562
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Artes plásticas
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Autor:
Autor desconhecido
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Datação: Século 20
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Dimensões (cm): Comp. 21,2 x Alt. 10,4 x Larg. 7
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Descrição: Homem sentado numa canoa com uma tartaruga e um cão à sua frente, em barro.
A canoa de formato oblongo apresenta a base plana, a popa de recorte retilíneo e a proa termina numa saliência cilindriforme.
O homem encontra-se sentado à ré da canoa. Este apresenta os membros inferiores cilindriformes, o tronco rectangular e os membros superiores de formato cilíndrico, com as mãos dispostas sobre a canoa. O pescoço é de forma tronco-cónica e a cabeça ovóide. Esta é constituída por três traços incisos que figuram os olhos e a boca, o nariz em relevo e dois círculos pintados de preto nas faces. A cabeça apresenta, ainda, uma cabeleira semi-esférica pintada de preto.
A tartaruga encontra-se disposta em frente ao homem e voltada para a proa.Esta apresenta os membros dianteiros e traseiros ovóides, a cauda e a cabeça de forma cónica, e a carapaça discóide. A cabeça exibe dois círculos vermelhos que figuram os olhos.
O cão encontra-se de pé em frente à tartaruga e voltado para a proa. O animal apresenta os membros e o corpo cilindriformes, e a cauda de secção circular, cuja ponta assenta sobre o corpo. A cabeça exibe um focinho e duas orelhas de forma cónica.
O exterior da canoa é pintado de preto.
O homem é ornamentado, em cada membro inferior e no tronco, com um motivo composto por dois quadrados preenchidos com outros dois quadrados. Cada membro superior é decorado com dois pares de linhas transversais. No rosto é visível uma faixa transversal vermelha que cobre os olhos. Os motivos são pintados de preto e o espaço que os envolve é pintado de vermelho.
A tartaruga é ornamentada, nos membros, com traços e círculos pintados de vermelho. A carapaça é decorada com vários círculos concêntricos. O motivo é pintado de preto e o restante espaço de vermelho.
O cão exibe os membros traseiros pintados de vermelho e os dianteiros de preto. O corpo é decorado com duas linhas pretas e dois círculos vermelhos. A cauda é pintada de preto e vermelho. A cabeça apresenta dois círculos vermelhos, o focinho preto e as orelhas pintadas de vermelho.
O homem exibe, nas costas, uma inscrição a lápis de carvão: "271".
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Origem/Historial: Segundo informações contidas na ficha manual a mulher que moldou esta peça, produziu igualmente as peças AN560, AN561, AN563, AN564 e AN565.
Na ficha manual a designação da peça é Figura de barro no entanto optei por utilizar a denominação Homem sentado numa canoa, uma vez que identifica à priori a temática do objecto.
"A cerâmica dos índios do Brasil encontra entre os Karajá uma das suas melhores manifestações. Além da louça de barro são exímios fabricantes de figuras antropomorfas, as chamadas "bonecas" (litxokô) que, longe de constituírem apenas meros brinquedos de crianças, espelham admiravelmente os aspectos sociais do seu grupo. Nelas, a figura humana é identificada pelos traços culturais que lhe são opostos, como a pintura corporal, tatuagem tribal, itens de vestuário e adornos. Através desses traços transcende-se à mera representação humana, individual, passando-se à sua inserção, dentro do contexto social karajá, em categorias mais amplas de classes ou grupos.
Sob o ponto de vista estilístico distingue-se, nesta arte figurativa, duas fases bem marcadas, descritas por Castro Faria (1959): a clássica ou antiga e a moderna ou recente. A primeira, anterior a 1940, caracteriza-se pela produção restrita de pequenas figuras isoladas, quase miniaturas (...), representadas sempre de pé, dentro de padrões extremamente rígidos. Nelas, a dimensão formal que pervalece é o jogo de volumes, ligada a uma dimensão simbólica do corpo, expressa no tratamento dado às nádegas, membros inferiores e cabeleira. Há uma marcante esteatopigia e esteatomeria em contraposição ao tratamento discreto dado ao tronco, membros superiores e cabeça. (...)
A identificação sexual é conferida, no caso feminino, mediante a aposição de elementos culturais às figuras, como colares, brincos e sobretudo a tradicional tanga de líber das mulheres Karajá. No caso masculino, além dos adornos típicos dos homens, como o tembetá, e ainda braçadeiras e ligas, os órgãos sexuais são representados com muito realimos. O penteado feito nas cabeleiras - nesta fase sempre em cera negra - serve algumas vezes também como elemento de diferenciação sexual.
Pinturas, incisões e pontuações feitas na argila reproduzem os padrões da pintura corporal, possivelmente associados a animais; e da tatuagem, como os característicos círculos de maçãs do rosto. Dois orifícios são feitos sistematicamente nestas figuras: um, equivalente ao umbigo, que via de regra atua como marco divisor ou como ponto central na distribuição dos motivos da pintura corporal. O outro, equivalente à boca, que pode também ser algumas vezes substituído por uma incisão. (...)
Apesar de todas as demais peças cerâmicas produzidas pelos Karajá serem cozidas, as figuras antroponorfas deste período clássico jamais entraram em contato com o fogo, por razões certamente intencionais, porém ainda não explicadas.
Ao que tudo indica, devido à destinação comercial das "bonecas" Karajá e às consequentes imposições do mercado, a partir da segunda metade do século XX, essas esculturas antropomorfas em barro sofrem uma verdadeira revolução, libertando-se da austeridade dos cânones que regiam a representação da figura humana no período anterior: é a fase moderna. As formas ganham extraordinário movimento: os braços se libertam, o corpo assume as mais diversas posturas, os indivíduos se agrupam formando cenas. O cotidiano passa a ser retratado com grande realismo e intensa policromia, refletindo as atividades económicas do grupo e a sua interação com o meio ambiente. Surgem as representações de animais, até então inexistentes. (...) Desaparecem as cabeleiras em cera negra, agora destacadas na própria argila, através de colorido. Toda a produção feita anteriormente no barro cru passa, nesta nova fase, pelo processo de cozimento, sendo este fator, sob o ponto de vista técnico, que decerto possibilitou todas estas transformações. (...)
No que diz respeito à identificação sexual, as soluções encontradas na primeira fase, sobretudo as tanga de líber, no caso feminino, tornaram-se inviáveis com o advento das composições cênicas e da mobilidade que as figuras adquirem. Os atributos femininos (seios, ventres, gravidez) passam então a ser modelados com destaque, (...), muito embora em algumas figuras isoladas, feitas ainda no estilo clássico, sejam colocados os antigos elementos de identificação. Com as figuras masculinas, entretanto, não surge nenhuma incompatibilidade formal, mantendo-se a modelagem realística dos órgãos sexuais e a colocação do tembetá (...).
Apesar dessas concessões, no entanto, a arte oleira Karajá está fundamentalmente voltada para a expressão dos valores do grupo, não obstante o desejo de ir ao encontro das excpectativas do comprador. (...)" (Cerâmica Indígena Brasileira in Suma Etnológica Brasileira - Tecnologia Indígena Vol. 2, 1986: 218-220)
Nota informativa sobre a constituição da Colecção Victor Bandeira:
Em 1964/65 Victor Bandeira e Françoise Carel Bandeira, incentivados por Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira, e com o apoio do Centro de Estudos de Antropologia Cultural de Junta de Investigações do Ultramar e das autoridades brasileiras, empreenderam uma expedição à selva amazónica, com o objectivo de conhecer, por experiência e participação efectiva, as formas de comportamento, a cultura material e imaterial, os rituais, os ritos e as artes, dos grupos indígenas que habitavam nessa região.
Durante a sua estada no terreno, o casal Bandeira, percorreu várias regiões do Brasil, Equador, Peru e Colômbia, e contactou com diferentes grupos de índios.
Dessa investigação resultou uma extensa colecção de artefactos que documenta e exprime de um modo perfeito e completo todos os aspectos da vida e das concepções, dos ritos e da criação plástica dos vários grupos com quem estabeleceram relações, inúmeros registo visuais e sonoros, e um vasto conhecimento teórico sobre a vida, a cultura e arte dos ameríndios do Brasil.
Esta colecção foi apresentada ao público em Outubro de 1966 nos Salões da Sociedade de Belas Artes de Lisboa, sob o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian e da Embaixada do Brasil.
Em 1969 a colecção é adquirida pelo então Ministério do Ultramar, com a participação financeira da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação da Casa de Bragança e de alguns particulares devotados, a fim de ser entregue e incorporada no património do Museu Nacional de Etnologia.
A colecção, constituída por cerca de 745 peças, abrange todas as classes de artefactos.
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Bibliografia
- BANDEIRA, Françoise, "Les Indiens Karajá de L'Araguaia" in Geographica N.º 15, 1966
- OLIVEIRA, Ernesto Veiga de, et al, Índios da Amazónia. Lisboa: Museu de Etnologia/ Instituto de Investigação Cientifica e Tropical, 1986
- LIMA, Tânia Andrade - "Cerâmica Índigena Brasileira" in Suma Etnológica Brasileira, 2º vol. Petrópolis: Vozes/FINEP, 1986
- RIBEIRO, Berta G., Dicionário do Artesanato Indígena. São Paulo: Itatiaia Limitada, USP, 1988
- RIBEIRO, Darcy, "Arte índia" in Suma Etnológica Brasileira - Tecnologia Indígena, vol. 3. Petrópolis: FINEP/Vozes, 1986