Boneca
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AG.804
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Actividades lúdicas
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: Século 20
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Técnica: Base: espiral cosida.
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Dimensões (cm): Alt. 20,3 x Larg. 11,3
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Descrição: Boneca constituída por um toro cilindriforme de madeira escura, revestido por uma malha torcida, com a extremidade inferior assente numa base em forma de campânula e a extremidade superior exibindo fibras vegetais torcidas, missangas e adornos vários, representando um penteado.
A base, constituída por voltas de feixes de capim, é feita pela técnica de espiral cosida. Encontra-se aplicada ao toro por meio do revestimento de malha de fibras vegetais torcidas, dispostas paralela e transversalmente, formando tranças diagonais.
Na parte superior da base um fio de tecido escuro envolve a cintura da boneca, sendo amarrada à frente. Dobrado sobre este fio, encobrindo-o, encontra-se na parte da frente, um pano escuro. Na parte de trás, também dobrado sobre o fio de tecido, surge uma pele com pêlos castanhos, tendo nas pontas algumas missangas brancas, um fecho éclair disposto em arco, encimado lateralmente por dois botões brancos, e uma fiada de missangas brancas, também disposta em arco. A vestimenta representa o traje tradicional do grupo a que pertence.
Envolvendo a vestimenta surge uma fiada de missangas brancas, figurando um cinto.
A três quartos da altura da boneca, surgem duas saliências feitas por enrolamentos de fibras vegetais torcidas, aplicados à malha, representando os seios. Estes ostentam fios de fibras vegetais torcidas, cruzando-os, representando um adorno tradicional do grupo a que pertence.
Um pouco acima, enfiados na malha, surgem dois fios de fibras vegetais torcidas, com as extremidades pendentes e atadas juntas.
A extremidade superior do toro figura a cabeça. Enquadrando o rosto, surge transversalmente um entrançado de fibras vegetais, que se estende até abaixo do peito da boneca e é adornado centralmente por um fecho éclair. Na parte superior do entrançado, por debaixo do fecho éclair, o rosto exibe duas tachas metálicas douradas e verdes, figurando os olhos.
A boneca apresenta um penteado tradicional do grupo a que pertence. Este é constituído por fios de fibras vegetais torcidas, figurando tranças, que partindo do topo da cabeça, estendem-se até às costas da boneca. Algumas destas tranças apresentam missangas brancas, e todas elas terminam num enrolamento ou nó das fibras. No topo da cabeça surge um revestimento de uma substância pastosa castanha escura, que se estende até meio do penteado. No inicio do revestimento surgem transversalmente várias fiadas circulares e entrecruzadas de missangas brancas, sendo que também o ladeiam entrecruzadamente. Na parte inferior deste revestimento surge no centro uma composição geométrica de missangas brancas alternadas por contas metálicas verdes.
Na fronte, sobre um enrolamento transversal da malha, inicia-se um revestimento feito de uma substância pastosa castanha, imbricada com cabelo natural, que acompanha o penteado. No topo apresenta centralmente um botão branco, ladeado por duas tachas metálicas douradas e verdes, sendo esta composição seguida por uma fila de sete tachas, três botões brancos, e finalizada por duas tachas. Presas ao segundo botão apresenta-se, de ambos os lados, duas fiadas de missangas brancas, verdes, vermelhas, amarelas e azuis, seguidas por, de um lado uma curta fiada dupla de missangas brancas, intervaladas por vermelhas, e, do outro, por uma fiada entrecruzada de missangas das mesmas cores. Do lado da fiada dupla surge também presa, uma fiada circular de missangas brancas intervaladas por azuis, que acompanham o penteado. Na quarta tacha apresenta-se, de cada lado, uma fiada de missangas brancas intervaladas por verdes, tendo de um dos lados também preso uma fiada circular de missangas brancas intervaladas por pretas. Entre o primeiro e o terceiro botão surgem duas fiadas de missangas brancas intervaladas com sementes castanhas. Debaixo do segundo botão apresentam-se presas duas fiadas de missangas brancas.
Toda a peça apresenta-se untada com uma substância gordurosa escura.
Diâmetro do toro envolvido pela malha: 6,8 cm
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Origem/Historial: A colecção de bonecas com uma tipologia "mwila" consiste em 42 objectos, tendo sido adquiridos por diferentes colectores e em diferentes contextos. Estas bonecas inserem-se numa colecção mais vasta, de 83 objectos, todos eles referentes ao Sudoeste angolano (bonecas kwanyama, bonecas carolo de milho e bonecas mwila de barro).
O nome desta tipologia advém do grupo cultural mwila, devido a este ser um dos principais produtores destes objectos.
António Carreira adquiriu 60 bonecas do Sudoeste angolano, trinta das quais pertencente à tipologia "mwila", colectadas em contexto de Missões de Prospecção de Material Etnográfico, dirigidas pelo Museu de Etnologia do Ultramar, efectuadas entre 1965 e 1969.
Todas as bonecas "mwila" colectadas por António Carreira referem amuleto, amuleto de fertilidade ou amuleto de fecundidade, como função.
Em 1965 e 66, Carreira anexa a seguinte informação:
"Confeccionada com fibra de Mupanda (árvore frondosa). Ao cabelo da boneca chamam Maldi, por ser fibra. Ao cabelo humano chamam Nohuki. É usado por solteiras, viúvas e estéreis, no dorso, como se fosse uma criança de mama. O tipo de cabeleira das bonecas reproduz o das mulheres do planalto." (Ficha de inventário de AH.051)
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Bibliografia
- BASTIN, Marie-Louise - Escultura angolana. Memorial de culturas. Lisboa: MNE, 1994
- BAUMANN, Hermann; Beatrx Heintze - Die Ethnographische Sammlung aus Südwest-Angola im Museum von Dundo, Angola (1954). Katalog/A Colecção Etnográfica do Sudoeste de Angola no Museu do Dundo, Angola (1954). Catálogo. Koln: Rudiger Koppe Verlag, 2002
- CAMERON, Elisabeth - "Corpos futuros: as bonecas do Sudoeste Angolano" in: Na Presença dos Espíritos: Arte Africana do Museu Nacional de Etnologia. Nova Iorque: Museum for African Art, 2000
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- ESTERMANN, Carlos - Álbum de Penteados do Sudoeste de Angola. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960
- ESTERMANN, Carlos - Etnografia do Sudoeste de Angola, vol 2: Grupo Étnico Nhaneca-Humbe. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960
- ESTERMANN, Carlos - Penteados, Adornos e Trabalhos das Muílas. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1970
- GABUS, Jean - Guide du Musée d'Ethnographie de Neuchâtel. Neuchâtel: Musée d'Ethnographie, 1970
- JORDÁN, Manuel - "Hair Matters in South Africa" in Hair in African Art and Culture. New York: Museum for African Art, 2000
- LANG, A.; Tastevin, C. - La Tribu dês Va-Nyaneka, Mission Rohan-Chabot, Tome V, Ethnographie. Corbéil: Imprimérie Crété1937
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- Poppen: spel en ritueel/Dolls: for play and ritual. Berg an Dal: Afrika Museum, 1995
- SILVA, Sónia(*) - A Vez dos Cestos. Lisboa: MC/IPM/MNE, 2003
Exposições
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A Vez dos Cestos
- Museu Nacional de Etnologia, Lisboa
- 3/6/2003 a 26/9/2004
- Exposição Física