Boneca
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AG.805
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Actividades lúdicas
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: Século 20
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Técnica: Base: espiral cosida.
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Dimensões (cm): Alt. 20,2 x Larg. 12,3
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Descrição: Boneca constituída por um toro cilindriforme de madeira escura, revestido por uma malha torcida, com a extremidade inferior assente numa base em forma de campânula e a extremidade superior exibindo fibras vegetais torcidas, missangas e adornos vários, representando um penteado.
A base, constituída por voltas de feixes de capim, é feita pela técnica de espiral cosida. Encontra-se aplicada ao toro por meio do revestimento de malha de fibras vegetais torcidas, dispostas paralela e transversalmente, formando tranças diagonais.
Na parte superior da base um fio de tecido azul escuro estampado a creme, envolve a cintura da boneca, sendo amarrado à frente. Dobrado sobre este fio, encobrindo-o, encontra-se na parte da frente, um pano com um padrão axadrezado, com as cores vermelha, amarela e azul. Na parte de trás, também dobrado sobre o fio de tecido, surge um pano azul escuro estampado a creme com motivos geométricos vários. A vestimenta representa o traje tradicional do grupo a que pertence.
A três quartos da altura da boneca, surgem duas saliências feitas por enrolamentos de fibras vegetais entrançadas, aplicados à malha, representando os seios. Estes ostentam fios de fibras vegetais torcidas, cruzando-os, representando um adorno tradicional do grupo a que pertence.
Um pouco acima dos seios aparecem várias voltas de fios de fibras vegetais torcidas, unidos transversalmente por outros fios de fibras, representando um colar tradicional do grupo a que pertence.
Na extremidade superior do toro figura a cabeça.
A boneca apresenta um penteado tradicional do grupo a que pertence. Este é constituído por fios de fibras vegetais torcidas ou entrançadas, que partindo do topo da cabeça, estendem-se até às costas da boneca. Algumas destas tranças apresentam missangas brancas ou azuis, intervaladas por contas vegetais, e todas elas terminam num nó das fibras. Na fronte, sobre um enrolamento transversal da malha, inicia-se um revestimento feito de uma substância pastosa castanha, imbricada com cabelo natural, que acompanha o penteado, apresentando centralmente no topo uma medalha circular de metal prateado, tendo no centro uma rodela vermelha (camurça?), seguida por uma fila de três botões brancos. Ladeando longitudinalmente a medalha, duas composições de missangas azuis e brancas. Pendendo para a frente, envolvendo o rosto surgem também, em ambos os lados, duas fiadas de missangas brancas e azuis. Transversalmente à medalha, e de ambos os lados, surgem presas, duas fiadas de missangas brancas. Num dos lados, fixo entre as duas fiadas, surge um adorno constituído por penas cinzentas. Presas ao segundo botão, em ambos os lados, apresentam-se duas tranças de fibras vegetais, decoradas a meio com um outro botão branco.
Toda a peça apresenta-se untada com uma substância gordurosa escura.
Diâmetro do toro envolvido pela malha: 6,3 cm
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Origem/Historial: A colecção de bonecas com uma tipologia "mwila" consiste em 42 peças, tendo sido adquiridos por diferentes colectores e em diferentes contextos. Estas bonecas inserem-se numa colecção mais vasta, de 83 objectos, todos eles referentes ao Sudoeste angolano (bonecas kwanyama, bonecas carolo de milho e bonecas mwila de barro).
O nome desta tipologia advém do grupo culturalmwila, devido a este ser um dos principais produtores destes objectos.
António Carreira adquiriu 60 bonecas do Sudoeste angolano, trinta das quais pertencente à tipologia "mwila", colectadas em contexto de Missões de Prospecção de Material Etnográfico, dirigidas pelo Museu de Etnologia do Ultramar, efectuadas entre 1965 e 1969.
Todas as bonecas "mwila" colectadas por António Carreira referem amuleto, amuleto de fertilidade ou amuleto de fecundidade, como função.
Em 1965 e 66, Carreira anexa a seguinte informação:
"Confeccionada com fibra de Mupanda (árvore frondosa). Ao cabelo da boneca chamam Maldi, por ser fibra. Ao cabelo humano chamam Nohuki. É usado por solteiras, viúvas e estéreis, no dorso, como se fosse uma criança de mama. O tipo de cabeleira das bonecas reproduz o das mulheres do planalto." (Ficha de inventário de AH.051)
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Bibliografia
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- BAUMANN, Hermann; Beatrx Heintze - Die Ethnographische Sammlung aus Südwest-Angola im Museum von Dundo, Angola (1954). Katalog/A Colecção Etnográfica do Sudoeste de Angola no Museu do Dundo, Angola (1954). Catálogo. Koln: Rudiger Koppe Verlag, 2002
- CAMERON, Elisabeth - "Corpos futuros: as bonecas do Sudoeste Angolano" in: Na Presença dos Espíritos: Arte Africana do Museu Nacional de Etnologia. Nova Iorque: Museum for African Art, 2000
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- CARREIRA, António - Missão de Prospecção de Material Etnográfico: Relatório de Campanha em Moçambique e Angola. Lisboa: Ministério do Ultramar, Junta de Investigações do Ultramar, 1967
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- ESTERMANN, Carlos - Álbum de Penteados do Sudoeste de Angola. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960
- ESTERMANN, Carlos - Etnografia do Sudoeste de Angola, vol 2: Grupo Étnico Nhaneca-Humbe. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960
- ESTERMANN, Carlos - Penteados, Adornos e Trabalhos das Muílas. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1970
- GABUS, Jean - Guide du Musée d'Ethnographie de Neuchâtel. Neuchâtel: Musée d'Ethnographie, 1970
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- LANG, A.; Tastevin, C. - La Tribu dês Va-Nyaneka, Mission Rohan-Chabot, Tome V, Ethnographie. Corbéil: Imprimérie Crété1937
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