Boneca
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AH.046
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Actividades lúdicas
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: Século 20
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Técnica: Base: espiral cosida.
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Dimensões (cm): Alt. 22,5 x Larg. 11,2
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Descrição: Boneca constituída por um toro cilindriforme de madeira escura, revestido por uma malha torcida, com a extremidade inferior assente numa base em forma de campânula e a extremidade superior exibindo fibras vegetais torcidas, missangas e adornos vários, representando um penteado.
A base, constituída por voltas de feixes de capim, é feita pela técnica de espiral cosida. Encontra-se aplicada ao toro por meio do revestimento de malha de fibras vegetais torcidas, dispostas paralela e transversalmente, formando tranças diagonais.
Na parte superior da base um fio de fibras vegetais torcidas, envolve a cintura da boneca, sendo amarrado à frente. Dobrado sobre este fio, encobrindo-o, encontra-se tanto na parte da frente, como na de trás, um pano castanho com um padrão listado, feito a creme. A vestimenta representa o traje tradicional do grupo a que pertence.
A três quartos da altura da boneca, surgem duas saliências semi-esféricas feitas de tecido, aplicadas à malha através de fibras vegetais, representando os seios. Estes ostentam dois fios de fibras vegetais torcidas, cruzando-os, representando um adorno tradicional do grupo a que pertence.
Um pouco acima dos seios aparecem várias voltas de fios de fibras vegetais torcidas, unidos transversalmente por outros fios de fibras, e tendo no centro duas tachas metálicas verdes, representando um colar tradicional do grupo a que pertence.
Na extremidade superior do toro, no acabamento enrolado da malha, figura a cabeça. O rosto exibe duas tachas metálicas verdes figurando os olhos.
A boneca apresenta um penteado tradicional do grupo a que pertence. Este é constituído por fios de fibras vegetais torcidas, figurando tranças, que partindo do topo da cabeça, estendem-se até ao fim das costas da boneca. Algumas destas tranças apresentam enfiadas missangas brancas ou verdes, intervaladas por contas vegetais, ou um botão branco. Na fronte, sobre o enrolamento transversal da malha, inicia-se um revestimento feito de uma substância pastosa castanha, imbricada com cabelo natural, que acompanha o penteado, apresentando centralmente no topo uma composição geométrica feita por fiadas de missangas brancas, azuis e vermelhas, seguida, mais abaixo, por uma fila de sete botões brancos. Entre a composição geométrica e o primeiro botão encontram-se presas, de ambos os lados, várias fiadas transversais, cobrindo as fiadas torcidas, tais como: uma corrente metálica prateada, à qual se encontra presa e pendendo para trás uma composição geométrica de missangas brancas; uma fiada de missangas brancas; um par de uma fiada de missangas azuis, brancas, pretas e vermelhas e pares de fiadas de sementes castanhas intervaladas com missangas brancas. De um dos lados surge também um fecho éclair. Ainda antes do primeiro botão surge novamente um outro fecho éclair e uma fiada de sementes castanhas intervalada com missangas brancas, com as extremidades pendentes ladeado a fila de botões brancos. Uma outra fiada de sementes castanhas intervalada com missangas brancas surge presa entre o primeiro e o segundo botão.
Toda a peça apresenta-se untada com uma substância gordurosa escura.
Diâmetro do toro envolvido pela malha: 5,8 cm
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Origem/Historial: A colecção de bonecas com uma tipologia "mwila" consiste em 42 objectos, tendo sido adquiridos por diferentes colectores e em diferentes contextos. Estas bonecas inserem-se numa colecção mais vasta, de 83 objectos, todos eles referentes ao Sudoeste angolano (bonecas kwanyama, bonecas carolo de milho e bonecas mwila de barro).
O nome desta tipologia advém do grupo cultural mwila, devido a este ser um dos principais produtores destes objectos.
António Carreira adquiriu 60 bonecas do Sudoeste angolano, trinta das quais pertencente à tipologia "mwila", colectadas em contexto de Missões de Prospecção de Material Etnográfico, dirigidas pelo Museu de Etnologia do Ultramar, efectuadas entre 1965 e 1969.
Todas as bonecas "mwila" colectadas por António Carreira referem amuleto, amuleto de fertilidade ou amuleto de fecundidade, como função.
Em 1965 e 66, Carreira anexa a seguinte informação:
"Confeccionada com fibra de Mupanda (árvore frondosa). Ao cabelo da boneca chamam Maldi, por ser fibra. Ao cabelo humano chamam Nohuki. É usado por solteiras, viúvas e estéreis, no dorso, como se fosse uma criança de mama. O tipo de cabeleira das bonecas reproduz o das mulheres do planalto." (Ficha de inventário de AH.051)
Informação constante na etiqueta: "utilizado pelas mulheres casadas após o 1º filho e pelas estéreis."
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Bibliografia
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- BAUMANN, Hermann; Beatrx Heintze - Die Ethnographische Sammlung aus Südwest-Angola im Museum von Dundo, Angola (1954). Katalog/A Colecção Etnográfica do Sudoeste de Angola no Museu do Dundo, Angola (1954). Catálogo. Koln: Rudiger Koppe Verlag, 2002
- CAMERON, Elisabeth - "Corpos futuros: as bonecas do Sudoeste Angolano" in: Na Presença dos Espíritos: Arte Africana do Museu Nacional de Etnologia. Nova Iorque: Museum for African Art, 2000
- CAMERON, Elisabeth - Isn't s/he a Doll? Play and Ritual in African Sculpture: UCLA Fowler of Cultural History, 1996
- CARREIRA, António - Missão de Prospecção de Material Etnográfico: Relatório de Campanha em Moçambique e Angola. Lisboa: Ministério do Ultramar, Junta de Investigações do Ultramar, 1967
- DELACHAUX, Theodore; Thiebaud, Ch-E - Pays et Peuples d'Angola: etudes, souvenirs et photos de la deuxième mission scientifique Suisse en Angola. Neuchatel: Editions Victor Attinger, 1934
- ESTERMANN, Carlos - Álbum de Penteados do Sudoeste de Angola. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960
- ESTERMANN, Carlos - Etnografia do Sudoeste de Angola, vol 2: Grupo Étnico Nhaneca-Humbe. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960
- ESTERMANN, Carlos - Penteados, Adornos e Trabalhos das Muílas. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1970
- GABUS, Jean - Guide du Musée d'Ethnographie de Neuchâtel. Neuchâtel: Musée d'Ethnographie, 1970
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- LANG, A.; Tastevin, C. - La Tribu dês Va-Nyaneka, Mission Rohan-Chabot, Tome V, Ethnographie. Corbéil: Imprimérie Crété1937
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- Poppen: spel en ritueel/Dolls: for play and ritual. Berg an Dal: Afrika Museum, 1995