Boneca
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AH.050
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Actividades lúdicas
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: Século 20
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Técnica: Base: espiral cosida.
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Dimensões (cm): Alt. 27,4 x Larg. 11,4
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Descrição: Boneca constituída por um toro cilindriforme de madeira escura, revestido por uma malha torcida, com a extremidade inferior assente numa base em forma de campânula e a extremidade superior exibindo fibras vegetais torcidas, missangas e adornos vários, representando um penteado.
A base, constituída por voltas de feixes de capim, é feita pela técnica de espiral cosida. Encontra-se aplicada ao toro por meio do revestimento de malha de fibras vegetais torcidas, dispostas paralela e transversalmente, formando tranças verticais.
Na parte superior da base um fio de tecido listado alternando entre as cores verde e amarela, envolve a cintura da boneca. Envolvendo esse fio, encontra-se por sua vez duas voltas de uma fiada de missangas rosas, intercaladas com brancas. Dobrado sobre ambos os fios, encobrindo-os, encontra-se tanto na parte da frente, como na de trás, um pano listado, semelhante àquele que os prende. O da frente apresenta as listas dispostas na vertical e o de trás apresenta as listas dispostas na horizontal. A vestimenta representa o traje tradicional do grupo a que pertence.
A três quartos da altura da boneca, surgem duas saliências semi-esféricas feitas de fibras vegetais enroladas, aplicadas à malha, representando os seios.
Na extremidade superior do toro, no acabamento enrolado da malha, figura a cabeça. O rosto exibe duas tachas metálicas verdes figurando os olhos.
A boneca apresenta um penteado tradicional do grupo a que pertence. Este é constituído por fios de fibras vegetais torcidas, figurando tranças, que partindo do topo da cabeça estendem-se até às costas da boneca. Algumas destas tranças apresentam enfiadas missangas brancas, verdes, ou conjuntos nestas cores. Na fronte, sobre o enrolamento transversal da malha, inicia-se um revestimento feito de fibras vegetais entrançadas, que acompanha o penteado até meio, apresentando centralmente várias fiadas de missangas, que se entrecruzam ao longo deste. A meio o revestimento apresenta uma fiada circular, presa dobrada, com as extremidades pendentes para ambos os lados, mais longas que o penteado, e no fim termina com uma composição de missangas amarelas, azuis e brancas. No topo, presas transversalmente e de ambos os lados, surge um par de fiadas de missangas brancas, e, um pouco mais atrás, uma fiada múltipla. De um dos lados esta fiada é com missangas brancas e vermelhas e do outro lado é feita com missangas brancas e pretas.
Toda a peça apresenta-se untada com uma substância gordurosa escura.
Diâmetro do toro envolvido pela malha: 7,3 cm.
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Origem/Historial: A colecção de bonecas com uma tipologia "mwila" consiste em 42 objectos, tendo sido adquiridos por diferentes colectores e em diferentes contextos. Estas bonecas inserem-se numa colecção mais vasta, de 83 objectos, todos eles referentes ao Sudoeste angolano (bonecas kwanyama, bonecas carolo de milho e bonecas mwila de barro).
O nome desta tipologia advém do grupo cultural mwila, devido a este ser um dos principais produtores destes objectos.
António Carreira adquiriu 60 bonecas do Sudoeste angolano, trinta das quais pertencente à tipologia "mwila", colectadas em contexto de Missões de Prospecção de Material Etnográfico, dirigidas pelo Museu de Etnologia do Ultramar, efectuadas entre 1965 e 1969.
Todas as bonecas "mwila" colectadas por António Carreira referem amuleto, amuleto de fertilidade ou amuleto de fecundidade, como função.
Em 1965 e 66, Carreira anexa a seguinte informação:
"Confeccionada com fibra de Mupanda (árvore frondosa). Ao cabelo da boneca chamam Maldi, por ser fibra. Ao cabelo humano chamam Nohuki. É usado por solteiras, viúvas e estéreis, no dorso, como se fosse uma criança de mama. O tipo de cabeleira das bonecas reproduz o das mulheres do planalto." (Ficha de inventário de AH.051)
Informação constante na etiqueta: "Boneca símbolo da fertilidade. Utilizado por raparigas solteiras, mulheres estéreis e viúvas transportam ao dorso como as crianças."
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Bibliografia
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- BAUMANN, Hermann; Beatrx Heintze - Die Ethnographische Sammlung aus Südwest-Angola im Museum von Dundo, Angola (1954). Katalog/A Colecção Etnográfica do Sudoeste de Angola no Museu do Dundo, Angola (1954). Catálogo. Koln: Rudiger Koppe Verlag, 2002
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- CARREIRA, António - Missão de Prospecção de Material Etnográfico: Relatório de Campanha em Moçambique e Angola. Lisboa: Ministério do Ultramar, Junta de Investigações do Ultramar, 1967
- DELACHAUX, Theodore; Thiebaud, Ch-E - Pays et Peuples d'Angola: etudes, souvenirs et photos de la deuxième mission scientifique Suisse en Angola. Neuchatel: Editions Victor Attinger, 1934
- ESTERMANN, Carlos - Álbum de Penteados do Sudoeste de Angola. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960
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- ESTERMANN, Carlos - Penteados, Adornos e Trabalhos das Muílas. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1970
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- LANG, A.; Tastevin, C. - La Tribu dês Va-Nyaneka, Mission Rohan-Chabot, Tome V, Ethnographie. Corbéil: Imprimérie Crété1937
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