Boneca
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AH.051
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Actividades lúdicas
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: Século 20
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Técnica: Base: espiral cosida.
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Dimensões (cm): Alt. 16,5 x Larg. 11,3
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Descrição: Boneca constituída por um toro cilindriforme de madeira escura, revestido por uma malha torcida, com a extremidade inferior assente numa base em forma de campânula e a extremidade superior exibindo fibras vegetais torcidas e missangas várias, representando um penteado.
A base, constituída por voltas de feixes de capim é feita pela técnica de espiral cosida. Encontra-se aplicada ao toro por meio do revestimento de malha, de fibras vegetais torcidas, dispostas paralela e transversalmente, formando tranças diagonais.
Na parte superior da base, envolvendo a cintura da boneca, apresenta-se um fio de tecido cinzento. Dobrado sobre esse fio, encobrindo-o, encontra-se na parte da frente, um pano escuro, feito de um tecido listado horizontalmente a vermelho e preto. Na parte de trás encontra-se dobrado um pano escuro, estampado com motivos florais a cinzento, orlado por missangas várias aplicadas por fios de fibras vegetais, de cores amarela, verde, branca e rosa. Aplicado ao pano encontram-se também três botões brancos, dois botões pretos, uma corrente metálica prateada, e um pendente em forma de flor feito de um tecido piloso amarelo. Ambos os panos representam o traje tradicional do grupo a que pertence.
A três quartos da altura da boneca, dois destaques semi-esféricos feitos por enrolamentos de fibras vegetais torcidas, representam os seios. Estes ostentam fios torcidos de fibras vegetais, que os cruzam, representando um adorno tradicional do grupo a que pertence.
Na extremidade superior da boneca, através de um enrolamento transversal da malha, figura a cabeça.
A boneca apresenta um penteado tradicional do grupo a que pertence. Este é constituído por fios de fibras vegetais torcidas, sugerindo tranças, que partindo do topo da cabeça estendem-se até ao fim das costas da boneca, cobrindo a parte posterior desta. Algumas das tranças são finalizadas por missangas brancas, verdes ou amarelas, outras por enrolamentos das fibras vegetais. Amarrado a uma trança encontra-se uma fiada de missangas brancas, e, noutra trança, um recorte entrançado feito de tecido vermelho. Centralmente, iniciando-se na testa e estendendo-se até às costas, apresenta um revestimento entrançado feito de uma substância pastosa, castanha escura, imbricada com cabelo natural, e adornada no topo por um botão branco.
Toda a peça apresenta-se untada com uma substância gordurosa escura.
Diâmetro do toro envolvido pela malha: 6,1 cm.
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Origem/Historial: A colecção de bonecas com uma tipologia "mwila" consiste em 42 objectos, tendo sido adquiridos por diferentes colectores e em diferentes contextos. Estas bonecas inserem-se numa colecção mais vasta, de 83 objectos, todos eles referentes ao Sudoeste angolano (bonecas kwanyama, bonecas carolo de milho e bonecas mwila de barro).
O nome desta tipologia advém do grupo cultural mwila, devido a este ser um dos principais produtores destes objectos.
António Carreira adquiriu 60 bonecas do Sudoeste angolano, trinta das quais pertencente à tipologia "mwila", colectadas em contexto de Missões de Prospecção de Material Etnográfico, dirigidas pelo Museu de Etnologia do Ultramar, efectuadas entre 1965 e 1969.
Todas as bonecas "mwila" colectadas por António Carreira referem amuleto, amuleto de fertilidade ou amuleto de fecundidade, como função.
Em 1965 e 66, Carreira anexa a seguinte informação:
"Confeccionada com fibra de Mupanda (árvore frondosa). Ao cabelo da boneca chamam Maldi, por ser fibra. Ao cabelo humano chamam Nohuki. É usado por solteiras, viúvas e estéreis, no dorso, como se fosse uma criança de mama. O tipo de cabeleira das bonecas reproduz o das mulheres do planalto." (Ficha de inventário de AH.051)
Informação constante na etiqueta: "Boneca símbolo da fertilidade. Utilizado por raparigas solteiras, viúvas e mulheres estéreis no dorso como fazem às crianças de colo."
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Bibliografia
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- ESTERMANN, Carlos - Álbum de Penteados do Sudoeste de Angola. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960
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