Descrição: Boneca constituída por um toro cilindriforme de madeira escura, revestido por uma malha torcida, com a extremidade inferior assente numa base em forma de campânula e a extremidade superior exibindo fibras vegetais torcidas, adornos e missangas várias, representando um penteado.
A base, constituída por voltas de feixes de capim é feita pela técnica de espiral cosida. Encontra-se aplicada ao toro por meio do revestimento de malha, de fibras vegetais torcidas, dispostas paralela e transversalmente, formando tranças diagonais. Apresenta colada na base, uma etiqueta de formato rectangular com os cantos arredondados, com a inscrição "O Ultramar Português através da Arte e da Imagem, Caldas da Rainha, 1967, nº de cat.º 341".
Na parte superior da base, envolvendo a cintura da boneca, apresenta-se um cordel amarrado à frente. Dobrado sobre esse fio, encobrindo-o, encontra-se na parte da frente, um pano listado horizontalmente, alternando entre as cores vermelha, roxa, preta e azul, e na parte de trás um pano escuro estampado com círculos preenchidos a creme. Ambos os panos representam o traje tradicional do grupo a que pertence.
A três quartos da altura da boneca, dois destaques semi-esféricos constituídos por uma pasta escura envolvida por enrolamentos de fibras vegetais torcidas aplicados à malha, representam os seios. Estes ostentam fios torcidos de fibras vegetais, que os cruzam, representando um adorno tradicional do grupo a que pertence.
Na extremidade superior da boneca, através de um enrolamento transversal da malha, figura a cabeça. O rosto exibe uma tacha metálica verde, figurando um olho.
A boneca apresenta um penteado tradicional do grupo a que pertence. Este é constituído por fios de fibras vegetais torcidas, sugerindo tranças, que partindo do topo da cabeça estendem-se até ao fim das costas da boneca, cobrindo toda a parte posterior desta. No topo apresenta um revestimento feito de uma substância pastosa, castanha escura, imbricada com cabelo natural, e adornado transversalmente por uma fila dupla de missangas brancas. Posteriormente a este revestimento surge uma trança que se estende também até ao fim das costas, adornada por uma fila de três botões brancos e mais dois dispostos lado a lado, e finalizada por uma composição geométrica de duas fiadas de missangas azuis, vermelhas, brancas e de sementes, separadas por uma fiada de missangas brancas, azuis e verdes, que se separa em dois segmentos. No início desta trança encontram-se presos duas curtas fiadas de missangas vermelhas e azuis intercaladas com sementes, e duas curtas fiadas de missangas brancas e pretas, e uma fila de três alfinetes metálicos presos transversalmente. No topo e a meio desta trança pendem, de ambos os lados, duas fiadas de missangas brancas, verdes e azuis, intercaladas com sementes, e acompanhando a forma do penteado.
A boneca apresenta-se untada com uma pasta gordurosa escura.
Diâmetro do toro envolvido pela malha: 5,9 cm.
Origem/Historial: A colecção de bonecas com uma tipologia "mwila" consiste em 42 objectos, tendo sido adquiridos por diferentes colectores e em diferentes contextos. Estas bonecas inserem-se numa colecção mais vasta, de 83 objectos, todos eles referentes ao Sudoeste angolano (bonecas kwanyama, bonecas carolo de milho e bonecas mwila de barro).
O nome desta tipologia advém do grupo cultural mwila, devido a este ser um dos principais produtores destes objectos.
António Carreira adquiriu 60 bonecas do Sudoeste angolano, trinta das quais pertencente à tipologia "mwila", colectadas em contexto de Missões de Prospecção de Material Etnográfico, dirigidas pelo Museu de Etnologia do Ultramar, efectuadas entre 1965 e 1969.
Todas as bonecas "mwila" colectadas por António Carreira referem amuleto, amuleto de fertilidade ou amuleto de fecundidade, como função.
Em 1965 e 66, Carreira anexa a seguinte informação:
"Confeccionada com fibra de Mupanda (árvore frondosa). Ao cabelo da boneca chamam Maldi, por ser fibra. Ao cabelo humano chamam Nohuki. É usado por solteiras, viúvas e estéreis, no dorso, como se fosse uma criança de mama. O tipo de cabeleira das bonecas reproduz o das mulheres do planalto." (Ficha de inventário de AH.051)
Informação constante na etiqueta: "Boneca símbolo da fertilidade. Utilizado por raparigas solteiras, mulheres estéreis e viúvas, com o ? de conceberem seguidamente."
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