Boneca

  • Museu: Museu Nacional de Etnologia
  • Nº de Inventário: AV.828
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Actividades lúdicas
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: Século 20
  • Técnica: Base: espiral cosida.
  • Dimensões (cm): Alt. 24,1 x Larg. 9,9
  • Descrição: Boneca constituída por um toro cilindriforme de madeira escura, revestido por uma malha torcida, com a extremidade inferior assente numa base circular e a extremidade superior exibindo fibras vegetais torcidas, missangas e adornos vários, representando um penteado. A base, constituída por voltas de feixes de capim é feita pela técnica de espiral cosida. Encontra-se aplicada ao toro por meio do revestimento de malha, de fibras vegetais torcidas, dispostas paralela e transversalmente, formando tranças diagonais. Na parte superior da base duas voltas de uma fiada de missangas brancas pintadas com linhas vermelhas, azuis ou verdes, encimado por várias voltas de um cordel, envolvem a cintura da boneca. Dobrado sobre ambos, encobrindo-os, encontra-se na parte da frente da boneca um pano com um padrão axadrezado, com as cores creme e vermelha. Na parte de trás, dobrado sobre as voltas do cordel e por baixo da fiada de missangas apresenta-se um pano azul, com motivos circulares preenchidos a creme. Acima destes dois panos, surge um terceiro pano, de cor salmão, amarrado à frente e envolvendo a cintura da boneca. Todos os elementos representam o traje tradicional do grupo a que pertence. A três quartos da altura da boneca, aparece, na parte frontal e aplicado à malha, duas tranças de fibras vegetais, apresentando a meio um nó e finalizando numa espiral, representando os braços e as respectivas mãos. Na extremidade superior a boneca apresenta um destaque transversal da malha, representando a testa. De um dos lados apresenta-se pendente um enrolamento de fibras vegetais, finalizado com vários segmentos de cana ou curtas fiadas de missangas brancas, representando um amuleto de fertilidade. Do outro lado pende uma fiada de missangas brancas. A boneca apresenta um penteado tradicional do grupo a que pertence. Este é constituído por inúmeras e variadas fiadas de contas de cana, cobrindo toda a parte posterior da cabeça. No topo da cabeça, a boneca apresenta uma composição geométrica através de três séries de duas curtas fiadas de missangas, sendo as centrais brancas, e as laterais brancas com linhas pintadas a azul, vermelho ou verde. Esta composição é finalizada por uma fiada de missangas de cana, disposta transversalmente. Por debaixo das fiadas posteriores apresenta-se uma fiada circular de missangas brancas e rosa, que pende para ambos os lados. Toda a peça apresenta-se untada com uma substância gordurosa vermelha escura. Diâmetro do toro envolvido pela malha: 5,1 cm
  • Origem/Historial: A colecção de bonecas com uma tipologia "mwila" consiste em 42 objectos, tendo sido adquiridos por diferentes colectores e em diferentes contextos. Estas bonecas inserem-se numa colecção mais vasta, de 83 objectos, todos eles referentes ao Sudoeste angolano (bonecas kwanyama, bonecas carolo de milho e bonecas mwila de barro). O nome desta tipologia advém da tribo mwila, devido a esta ser uma das principais produtoras destas peças. Carlos Medeiros adquiriu seis bonecas no sudoeste angolano, duas das quais pertencentes à tipologia "mwila", e as outras quatro pertencentes à tipologia carolo de milho. Estes objectos foram colectados em contexto de trabalho de campo para a sua tese de doutoramento pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas do Ultramar, efectuado em 1970-1. As duas bonecas foram colectadas em 1971, e provêem de duas diferentes tribos: uma pertence aos munda (Medeiros, 1972, contextualiza esta tribo como tendo fortes influências da tribo mwila, grupo nyaneka-humbi); e a outra pertence aos humbes (Povo banto, grupo nyaneka-humbi). A ficha de inventário não refere informação sobre a função ou produtor, mas, na sua obra, Medeiros refere que "Quando arranja uma boneca, tchiotche, [as raparigas] pedem a um primo direito, filho da irmã do pai (1), que lhe ponha o nome. Esta boneca, conserva-a a rapariga, mesmo depois de casada (foto 55), só se desfazendo dela após o nascimento do 1º filho. Lembramo-nos de ter visto um respeitável Bwal com uma boneca às costas e quando estranhamos a atitude, disse-nos ser o filho da sua filha mais velha, mulher casada mas que ainda não conhecera maternidade. (1) este primo, é, como veremos, o marido preferencial da rapariguinha." (Medeiros, 1972: 129) Medeiros define Bwal como "aquele que tem a sabedoria experimental da sua existência e o conhecimento tradicional das vivências dos antepassados". (Medeiros, 1972: 130). A sua tese de doutoramento encontra-se publicada: Medeiros, Carlos L., 1972, Vakwandu: análise de uma vivência, ISCSPU, Universidade Técnica de Lisboa.

Bibliografia

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  • CAMERON, Elisabeth - "Corpos futuros: as bonecas do Sudoeste Angolano" in: Na Presença dos Espíritos: Arte Africana do Museu Nacional de Etnologia. Nova Iorque: Museum for African Art, 2000
  • CAMERON, Elisabeth - Isn't s/he a Doll? Play and Ritual in African Sculpture: UCLA Fowler of Cultural History, 1996
  • DELACHAUX, Theodore; Thiebaud, Ch-E - Pays et Peuples d'Angola: etudes, souvenirs et photos de la deuxième mission scientifique Suisse en Angola. Neuchatel: Editions Victor Attinger, 1934
  • ESTERMANN, Carlos - Álbum de Penteados do Sudoeste de Angola. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960
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  • ESTERMANN, Carlos - Penteados, Adornos e Trabalhos das Muílas. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1970
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  • LANG, A.; Tastevin, C. - La Tribu dês Va-Nyaneka, Mission Rohan-Chabot, Tome V, Ethnographie. Corbéil: Imprimérie Crété1937
  • MEDEIROS, Carlos Laranjo - Vakwandu- Análise de uma vivência. Lisboa: ISCSPU, 1972
  • OLIVEIRA, Ernesto Veiga de (*) - Apontamentos sobre Museologia: Museus Etnológicos. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1971
  • Poppen: spel en ritueel/Dolls: for play and ritual. Berg an Dal: Afrika Museum, 1995

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