Boneca
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AV.836
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Actividades lúdicas
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: Século 20
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Técnica: Base: espiral cosida.
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Dimensões (cm): Alt. 22 x Larg. 9,9
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Descrição: Boneca constituída por um toro cilindriforme de madeira escura, revestido por uma malha torcida, com a extremidade inferior assente numa base em forma de campânula e a extremidade superior exibindo fibras vegetais torcidas, missangas e adornos vários, representando um penteado.
A base, constituída por voltas de feixes de capim é feita pela técnica de espiral cosida. Encontra-se aplicada ao toro por meio do revestimento de malha, de fibras vegetais entrançadas.
Na parte superior da base duas voltas de um fio de fibras vegetais torcidas envolve a cintura da boneca. Dobrado sobre esse fio, encobrindo-o, encontra-se tanto na parte da frente e na de trás, um pano escuro, sendo o da frente estampado a cor mais clara, e o de trás listado verticalmente a cor mais clara. Ambos os panos representam o traje tradicional do grupo a que pertence.
Acima dos panos surge uma tira de pele (couro?) que envolve o toro, representando um cinto.
A três quartos da altura da boneca, aparece aplicado à malha, várias voltas de fibras vegetais entrançadas, unidas transversalmente por um fio de fibras vegetais torcidas com uma tacha metálica verde por cima, representando um colar tradicional do grupo a que pertence.
De um dos lados encontra-se pendente uma trança de fibras vegetais, com um nó a meio, e finalizando numa espiral entrançada, figurando um braço e a respectiva mão. À altura do pulso encontra-se um aro de dois fios de capim torcidos, representando uma pulseira, adorno tradicional do grupo a que pertence.
Acima do colar figura a cabeça. O rosto exibe dois botões, presos por fios de fibras vegetais torcidas, figurando os olhos. Fazendo de testa surge aplicado à malha, um conjunto de fibras vegetais.
A boneca apresenta um penteado tradicional do grupo a que pertence. Este é constituído por fibras vegetais torcidas, cobrindo toda a parte posterior da cabeça, figurando tranças. Centralmente, começando na testa e estendendo-se até à cintura, apresenta uma dupla trança de fibras vegetais, adornada no final com um botão branco, aplicado por um fio de fibras vegetais. Presos no topo da cabeça, a boneca apresenta uma série de adornos pendentes, fiadas de missangas vermelhas e brancas, azuis e brancas, e pretas e brancas, fiadas várias de canudos vegetais e aros circulares em capim torcido. Algumas fiadas são ligadas por fios de fibras vegetais torcidas, outras em fios de nylon, ou em correntes metálicas prateadas. Uma das fiadas apresenta também uma medalha de metal prateado, figurando um santo. Preso lateralmente na zona da nuca, encontra-se uma corrente de metal prateado.
Toda a peça apresenta-se untada com uma substância gordurosa escura.
Diâmetro do toro envolvido pela malha: 5,9 cm
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Origem/Historial: A colecção de bonecas com uma tipologia "mwila" consiste em 42 objectos, tendo sido adquiridos por diferentes colectores e em diferentes contextos. Estas bonecas inserem-se numa colecção mais vasta, de 83 objectos, todos eles referentes ao Sudoeste angolano (bonecas kwanyama, bonecas carolo de milho e bonecas mwila de barro).
O nome desta tipologia advém da tribo mwila, devido a esta ser uma das principais produtoras destes objectos.
Carlos Medeiros adquiriu seis bonecas no sudoeste angolano, duas das quais pertencentes à tipologia "mwila", e as outras quatro pertencentes à tipologia carolo de milho. Estas peças foram colectadas em contexto de trabalho de campo para a sua tese de doutoramento pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas do Ultramar, efectuado em 1970-1.
As duas bonecas foram colectadas em 1971, e provêem de duas diferentes tribos: uma
pertence aos munda (Medeiros, 1972, contextualiza esta tribo como tendo fortes influências da tribo mwila, grupo nyaneka-humbi); e a outra pertence aos humbes (Povo banto, grupo nyaneka-humbi).
A ficha de inventário não refere informação sobre a função ou produtor, mas, na sua obra, Medeiros refere que "Quando arranja uma boneca, tchiotche, [as raparigas] pedem a um primo direito, filho da irmã do pai (1), que lhe ponha o nome. Esta boneca, conserva-a a rapariga, mesmo depois de casada (foto 55), só se desfazendo dela após o nascimento do 1º filho. Lembramo-nos de ter visto um respeitável Bwal com uma boneca às costas e quando estranhamos a atitude, disse-nos ser o filho da sua filha mais velha, mulher casada mas que ainda não conhecera maternidade. (1) este primo, é, como veremos, o marido preferencial da rapariguinha." (Medeiros, 1972: 129)
Medeiros define Bwal como "aquele que tem a sabedoria experimental da sua existência e o conhecimento tradicional das vivências dos antepassados". (Medeiros, 1972: 130).
A sua tese de doutoramento encontra-se publicada: Medeiros, Carlos L., 1972, Vakwandu: análise de uma vivência, ISCSPU, Universidade Técnica de Lisboa.
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Bibliografia
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- CAMERON, Elisabeth - Isn't s/he a Doll? Play and Ritual in African Sculpture: UCLA Fowler of Cultural History, 1996
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- ESTERMANN, Carlos - Álbum de Penteados do Sudoeste de Angola. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960
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- MEDEIROS, Carlos Laranjo - Vakwandu- Análise de uma vivência. Lisboa: ISCSPU, 1972
- OLIVEIRA, Ernesto Veiga de (*) - Apontamentos sobre Museologia: Museus Etnológicos. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1971
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