Descrição: Boneca constituída por um toro cilindriforme de madeira escura, com a extremidade inferior assente numa base em forma de campânula e a extremidade superior exibindo fibras vegetais enroladas, fiadas de missangas e adornos vários, representando um penteado.
A base, constituída por três voltas de feixes de capim é feita pela técnica de espiral cosida. Encontra-se aplicada ao toro por meio de um revestimento de malha de fibras vegetais torcidas dispostas paralela e transversalmente, formando tranças diagonais.
Por cima da malha, à altura da cintura da boneca, a peça exibe várias voltas de uma fiada de sementes castanhas. Entre a malha e as voltas da fiada encontram-se, um na parte frontal e outro na parte posterior da boneca, dois panos, dobrados sobre a fiada de modo a que as duas extremidades destes fiquem do mesmo tamanho. Os panos apresentam diferentes padrões, o frontal é estampado, e o posterior é listado, mas alternam entre as mesmas cores: creme e azul, e representam o traje tradicional do grupo a que pertence.
A meio da sua altura, a boneca apresenta duas saliências esferóides feitas de fibras vegetais, representando seios. Estes ostentam uma fiada dupla de sementes, pontuada com missangas brancas, que os circunda alternadamente. Uma das fiadas é amarrada na parte posterior, a outra cai naturalmente entre os dois seios pela boneca. Representa um adorno tradicional do grupo a que pertence.
A boneca apresenta também a figuração de um colar tradicional do grupo a que pertence, constituído por dois entrançados de fibras vegetais, adornados com filas de tachas metálicas verdes.
Na extremidade superior da boneca figura a cabeça. O rosto exibe duas tachas metálicas verdes figurando os olhos.
A boneca apresenta um penteado tradicional do grupo a que pertence. Este é constituído por fios de fibras vegetais torcidas, sugerindo tranças, que partindo do topo da cabeça estendem-se a toda a altura da boneca, cobrindo a parte posterior desta. Algumas das tranças são finalizadas por combinações de missangas brancas, amarelas, sementes e cauris (conchas brancas), outras por enrolamentos das fibras vegetais, ou simplesmente nós. Acima dos olhos encontram-se duas fiadas de missangas brancas figurando uma testeira, adorno tradicional do grupo a que pertence. Atrás, percorrendo longitudinalmente o topo da cabeça encontram-se uma faixa de pele (couro?) decorada com duas filas de botões brancos. Esta faixa é encimada por duas filas transversais de missangas metálicas, intervaladas por filas de missangas brancas e finalizada também por uma fiada de missangas de cor branca e verde envolvendo parcialmente um agrupamento de missangas metálicas. Em toda a lateral da faixa e em ambos os lados encontram-se presos adornos vários: curtas fiadas de missangas castanhas e brancas, às quais se encontram amarrados fiadas de missangas pretas e brancas entrecruzadas; tranças adornadas com botões brancos terminando com múltiplas decorações feitas em missanga branca; fiadas de missangas de plástico de cores amarela, branca e verde, combinadas com missangas metálicas e sementes; e um colar de missangas brancas disposto transversal e interiormente à faixa.
Toda a peça apresenta-se untada com uma substância gordurosa escura.
Diâmetro do toro envolvido pela malha: 7,8 cm
Origem/Historial: A colecção de bonecas com uma tipologia "mwila" consiste em 42 objectos, tendo sido adquiridos por diferentes colectores e em diferentes contextos. Estas bonecas inserem-se numa colecção mais vasta, de 83 objectos, todos eles referentes ao Sudoeste angolano (bonecas kwanyama, bonecas carolo de milho e bonecas mwila de barro).
O nome desta tipologia advém da tribo mwila, devido a esta ser uma das principais produtoras destas peças.
António Carreira adquiriu 60 bonecas do Sudoeste angolano, trinta das quais pertencente à tipologia "mwila", colectadas em contexto de Missões de Prospecção de Material Etnográfico, dirigidas pelo Museu de Etnologia do Ultramar, efectuadas entre 1965 e 1969.
Todas as bonecas "mwila" colectadas por António Carreira referem amuleto, amuleto de fertilidade ou amuleto de fecundidade, como função.
Em 1965 e 66, Carreira anexa a seguinte informação:
"Confeccionada com fibra de Mupanda (árvore frondosa). Ao cabelo da boneca chamam Maldi, por ser fibra. Ao cabelo humano chamam Nohuki. É usado por solteiras, vivas e estéreis, no dorso, como se fosse uma criança de mama. O tipo de cabeleira das bonecas reproduz o das mulheres do planalto." (Ficha de inventário de AH.051)
Informação constante na etiqueta: "Boneca símbolo da fertilidade. Utilizado por raparigas solteiras, mulheres estéreis e viuvas, com o ? de conceberem seguidamente."
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