Nª Senhora ajoelhada a rezar
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AQ.108
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Artes plásticas
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: Século 20
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Técnica: A especificação da técnica encontra-se no campo do Historial.
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Dimensões (cm): Alt. 19,5 x Larg. 9
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Descrição: Nª Senhora em barro policromado, representando uma figura antropomórfica feminina ajoelhada a rezar.
A figura assenta numa base oval, decorada com linhas incisas dispostas na horizontal, e pintada de tonalidade amarela com riscas verdes e vermelhas.
Nª Senhora apresenta, um vestido tronco-cónico e o tronco cilindriformes.
Os membros superiores apresentam-se arqueados para dentro, com as mãos postas. As mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico.
A cabeça apresenta dois pontos negros que figuram os olhos, encimados por dois traços e duas sobrancelhas de tonalidade castanha. O nariz é triangular em relevo e a boca apresenta lábios delineados e enchidos com cor vermelha. De cada lado da face é visível uma rosácea alaranjada. Na cabeça figuram ainda dois destaques de forma oval de tonalidade amarela, dispostos em cada lado da face, representando brincos. Figura também, cabelo de cor castanha encimado por um véu de forma triangular, de tonalidade branca e com a extremidade superior decorada com linhas incisas pintadas de azul e dourado. Por sua vez, o véu é encimado por um destaque aplicado à cabeça da figura por meio de um segmento de arame, figurando uma corôa. Esta, é em barro e é constituída por uma base tronco-cónica, formando cinco semi-círculos na sua extremidade, na qual são aplicados três adornos de formato cilíndrico unidos uns aos outros nas suas extremidades superiores. A corôa apresenta-se decorada com incisões e é pintada de tonalidade dourada.
A figura ostenta um vestido amarelo, decorado com flores azuis e rosa com o caule verde. O vestido apresenta ainda uma gola de formato circular, picotada, de tonalidade dourada e punhos da mesma cor.
Na parte posterior do corpo, apresenta-se uma cobertura que figura um manto e que acompanha os contornos da figura. O manto ostenta a tonalidade azul com as extremidades decoradas com linhas incisas e pintadas de dourado, figurando folhos, sendo a sua parte de dentro pintada de grená.
No lado esquerdo da figura, junto ao seu braço, encontra-se um destaque de formato oval pintado de tonalidade grená e de extremidade igualmente decorada com linhas incisas de cor dourada, podendo figurar as pontas do manto.
Dimensões:
Diâmetro da base: 9,5 Cm.
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Origem/Historial: Na ficha de inventário dactilografada e no Livro de Tombo a peça tem a designação "Boneco de Barro". No entanto, optei por utilizar a denominação "Nª Senhora", na medida em que identifica à priori a temática da peça.
Na ficha de inventário dactilografada refere a função figura de presépio.
Técnica:
Os métodos utilizados na barrística são, os de rolo, da bola e da lastra, esta última, na elaboração de vestuário e bases. As partes constituintes dos bonecos, que apresentam maior espessura e volume são previamente picadas por meio de uma agulha ou arame e depois corrigidos com os dedos. Este procedimento permite uma maior secagem no interior do boneco evitando assim, quebradura e fendilhagem no acto da cozedura.
Um dos aspectos que mais caracteriza os bonecos de Estremoz, e diferencia este figurado do restante, é o facto destes nascerem nus e serem posteriormente vestidos.
Um boneco de Estremoz é constituído por diversas partes que são unidas entre si. Assim, a primeira peça a ser realizada é a base, que é feita através de um pedaço de barro espalmado por intermédio de uma palmatória. A próxima tarefa consiste em fazer as pernas ou saias e seguidamente o tronco. Com uma bola de barro, e um molde, segue-se a face e depois o pescoço. Os rostos são, na maior parte dos casos, feitos por meio dum molde e colados à bola de barro que constitui a cabeça. Com a ajuda dum teque ou teco (palheta na gíria dos artesãos) modela-se o cabelo. Coloca-se o boneco na base, previamente feita e com furos no local onde este vai assentar, colando-o com barbutina ou lamugem na gíria bonequeira.
De seguida, passa-se para a elaboração dos braços que é realizada através de um rolinho. Corta-se a extremidade que liga ao ombro e faz-se em seguida as mãos. Estas são feitas espalmando-se a extremidade do braço menos grossa, e depois, por intermédio de uma série de incisões com a ajuda dos já mencionados teques criam-se os dedos. Unem-se os braços ao tronco com lamugem.
É altura então, de vestir os bonecos e colocar todos os adornos referentes ao modelo representado, como chailes, lenços, brincos, chapéus e um número infindável de enfeites saídos da imaginação do artista, empregando-lhes assim, "movimento, vida, alma" (Vermelho, Joaquim, Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística, página 76, Limiar, 1990).
Deixa-se o boneco secar e vai ao forno ou à mufla a 800 cº ou 850 cº, no entanto, é importante referir que durante a modelação do boneco convém deixar secar a peça durante as fases da união das várias partes constituintes do boneco.
Os bonecos são peças muito frágeis e portanto, são necessários muitos cuidados no processo de enfornamento.
Finalmente, o boneco passa pelo processo de pintura onde prevalecem o verde, o azul, o vermelho, o zarcão, o amarelo, o branco, o roxo, o laranja e o preto.
As tintas utilizadas são os óxidos que são dissolvidos em água e misturados com grude previamente derretido. Contudo, foram introduzidos recentemente, por questões comerciais e técnicas, têmperas, ou seja tintas a água ou plásticas que são misturadas com colas resinosas para madeira. Estas colas proporcionam ao boneco, resistência à luz e à humidade, sem no entanto, prejudicar a cor. Sobre a pintura seca é colocado um verniz que, nos séculos passados, era fabricado pelos próprios barristas através de processos que se perderam. Foram posteriormente substituídos por vernizes industriais.
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Incorporação: Anterior Proprietário: Desconhecido
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Bibliografia
- AZINHAL, Abelho - Memória sobre os barros de Estremoz. Lisboa: Panorama, 1964
- BORRALHO, Álvaro António Gancho - As Artes do Barro. Contribuição para o estudo dos Bonecos de Estremoz, Dissertação de Tese de Licenciatura em Sociologia vertente de Sociologia da Cultura. ISCTE, Lisboa: 1993
- CHAVES, Luís - Os Barristas Portugueses: nas escolas e no povo.. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925
- CONDE, António Fialho - "A Olaria Alfacinha e o Contributo dos Mestres", "Mestres Oleiros no Alentejo" in Mestres Artesãos do Século: artefactos do mundo por mãos portuguesas. Lisboa: Instituto do Emprego e Formação: FIL, 2002
- CORREIA, Virgílio - "Brinquedos na Louça de Estremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
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- LUCENA, Armando - "Os Presépios", in Arte, Usos e Costumes Portugueses, Volume 1. Lisboa
- MACEDO, Diogo de - Presépios Portugueses. Lisboa: Artis, [19...]
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- PESSANHA, D. Sebastião - "Bonecos de Extremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
- VERMELHO, Joaquim - "Mobilidade e Influências nos bonecos de Estremoz" in Conversas à volta da Olaria. Oficinas do Convento: Associação Cultural de Arte e Comunicação, Dezembro 1998
- VERMELHO, Joaquim - "O Culto do Figurado de Estremoz" in Cultus: o mistério e o maravilhoso nos artefactos portugueses. Lisboa, IEFP: FIL, 2001
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- VERMELHO, Joaquim - Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística: Limiar, 1990