Santo António
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AT.456
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Artes plásticas
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: Século 20
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Técnica: A especificação da técnica encontra-se no campo do Historial.
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Dimensões (cm): Alt. 29 x Larg. 12
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Descrição: Santo António em barro policromado, representando uma figura masculina em pé segurando um livro.
A figura assenta numa peanha paralelipipédica de base semi-hexagonal e com contornos convexos na parte traseira. A peanha apresenta a tonalidade amarela e laranja com bordos superior e inferior de cor azul, decorada com três ramagens de tonalidade verde dispostas na parte frontal.
Santo António apresenta dois pés com incisões, figurando os dedos. Enverga um hábito da ordem dos Franciscanos, de formato tronco-cónico e apresenta um tronco cilindriforme. Exibe ainda dois membros superiores cilindriformes, dobrados e erguidos à altura da cintura com a mão esquerda segurando um destaque de formato paralelipipédico de tonalidade laranja, figurando um livro. Neste livro está aplicado um segmento recto em arame onde estaria colocado o Menino Jesus. As mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico. Na cabeça figuram dois pontos negros que representam os olhos, encimados por dois traços e duas sobrancelhas de cor castanha. O nariz em relevo é de formato triangular e o queixo é salinte. A boca apresenta lábios delineados e enchidos com cor vermelha. De cada lado da face é visível uma rosácea alaranjada. A cabeça exibe, ainda, cabelo de cor castanha, e apresenta no seu topo uma zona calva em formato circular e também, um destaque semi-esférico, figurando um tufo de cabelo. Esta, é encimada por um destaque aplicado à cabeça da figura por meio de um segmento de arame, figurando um resplendor em barro. Apresenta forma circular com extremidades recortadas, e uma saliência côncava na parte inferior, onde é apoiado na cabeça da figura.
A figura ostenta um hábito castanho com gola alta da mesma cor e é decorado com pregas. Á volta da cintura exibe um cordão amarelo com as extremidades pendentes. O hábito encontra-se repuxado junto ao braço esquerdo revelando uma saia da mesma cor do mesmo.
Santo António apresenta-se envolto numa capa que lhe cobre os ombros e aperta junto ao pescoço. A capa exibe pregas e está pintada de castanha e bordo amarelo.
O resplendor apresenta-se decorado na parte frontal, com círculos de tonalidade amarela, verde e laranja, e com linhas incisas que convergem do centro do mesmo. Na parte traseira apresenta-se decorado com pintas de cor verde.
Dimensões da Base:
Comp: 8,2 Cm;
Larg: 9,7 Cm.
Dimensões do Resplendor:
Diâmetro: 5,6 Cm.
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Origem/Historial: Na ficha de inventário dactilografada e no Livro de Tombo a peça tem a designação "Imagem Religiosa". No entanto, optei por utilizar a denominação "Santo António", na medida em que identifica à priori a temática da peça.
Na ficha de inventário dactilografada não refere o Local de Fabrico.
Na ficha de inventário dactilografada refere que falta o Menino (sobre o Livro).
Técnica:
Os métodos utilizados na barrística são, os de rolo, da bola e da lastra, esta última, na elaboração de vestuário e bases. As partes constituintes dos bonecos, que apresentam maior espessura e volume são previamente picadas por meio de uma agulha ou arame e depois corrigidos com os dedos. Este procedimento permite uma maior secagem no interior do boneco evitando assim, quebradura e fendilhagem no acto da cozedura.
Um dos aspectos que mais caracteriza os bonecos de Estremoz, e diferencia este figurado do restante, é o facto destes nascerem nus e serem posteriormente vestidos.
Um boneco de Estremoz é constituído por diversas partes que são unidas entre si. Assim, a primeira peça a ser realizada é a base, que é feita através de um pedaço de barro espalmado por intermédio de uma palmatória. A próxima tarefa consiste em fazer as pernas ou saias e seguidamente o tronco. Com uma bola de barro, e um molde, segue-se a face e depois o pescoço. Os rostos são, na maior parte dos casos, feitos por meio dum molde e colados à bola de barro que constitui a cabeça. Com a ajuda dum teque ou teco (palheta na gíria dos artesãos) modela-se o cabelo. Coloca-se o boneco na base, previamente feita e com furos no local onde este vai assentar, colando-o com barbutina ou lamugem na gíria bonequeira.
De seguida, passa-se para a elaboração dos braços que é realizada através de um rolinho. Corta-se a extremidade que liga ao ombro e faz-se em seguida as mãos. Estas são feitas espalmando-se a extremidade do braço menos grossa, e depois, por intermédio de uma série de incisões com a ajuda dos já mencionados teques criam-se os dedos. Unem-se os braços ao tronco com lamugem.
É altura então, de vestir os bonecos e colocar todos os adornos referentes ao modelo representado, como chailes, lenços, brincos, chapéus e um número infindável de enfeites saídos da imaginação do artista, empregando-lhes assim, "movimento, vida, alma" (Vermelho, Joaquim, Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística, página 76, Limiar, 1990).
Deixa-se o boneco secar e vai ao forno ou à mufla a 800 cº ou 850 cº, no entanto, é importante referir que durante a modelação do boneco convém deixar secar a peça durante as fases da união das várias partes constituintes do boneco.
Os bonecos são peças muito frágeis e portanto, são necessários muitos cuidados no processo de enfornamento.
Finalmente, o boneco passa pelo processo de pintura onde prevalecem o verde, o azul, o vermelho, o zarcão, o amarelo, o branco, o roxo, o laranja e o preto.
As tintas utilizadas são os óxidos que são dissolvidos em água e misturados com grude previamente derretido. Contudo, foram introduzidos recentemente, por questões comerciais e técnicas, têmperas, ou seja tintas a água ou plásticas que são misturadas com colas resinosas para madeira. Estas colas proporcionam ao boneco, resistência à luz e à humidade, sem no entanto, prejudicar a cor. Sobre a pintura seca é colocado um verniz que, nos séculos passados, era fabricado pelos próprios barristas através de processos que se perderam. Foram posteriormente substituídos por vernizes industriais.
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Incorporação: Anterior Proprietário: Rafael Rúdio
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Bibliografia
- AZINHAL, Abelho - Memória sobre os barros de Estremoz. Lisboa: Panorama, 1964
- BORRALHO, Álvaro António Gancho - As Artes do Barro. Contribuição para o estudo dos Bonecos de Estremoz, Dissertação de Tese de Licenciatura em Sociologia vertente de Sociologia da Cultura. ISCTE, Lisboa: 1993
- CHAVES, Luís - Os Barristas Portugueses: nas escolas e no povo.. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925
- CONDE, António Fialho - "A Olaria Alfacinha e o Contributo dos Mestres", "Mestres Oleiros no Alentejo" in Mestres Artesãos do Século: artefactos do mundo por mãos portuguesas. Lisboa: Instituto do Emprego e Formação: FIL, 2002
- CORREIA, Virgílio - "Brinquedos na Louça de Estremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
- FERRO, António - "Bonecos de Barro" in Vida e Arte do Povo Português. Lisboa: 1940
- MOITA, Irisalva - "O Culto do Figurado de Estremoz" in Cultus: o mistério e o maravilhoso nos artefactos portugueses. Lisboa: Instituto do Emprego e Formação: FIL, 30 de Junho a 8 de Julho de 2001, 2001
- PARVAUX, Solange - La Céramique du Hault-Alentejo. Paris, Lisboa: Puf, Gulbenkian, 1968
- PESSANHA, D. Sebastião - "Bonecos de Extremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
- PESSOA, Fernando - Os Santos Populares, Ilustrações de Almada Negreiros e Eduardo Viana. Casa Fernando Pessoa, CM Lisboa: Edições Salamandra, 1994
- PINTO, Silva - Santos Portuguezes. Lisboa: Livraria de António Maria Pereira, 1895
- VERMELHO, Joaquim - "Mobilidade e Influências nos bonecos de Estremoz" in Conversas à volta da Olaria. Oficinas do Convento: Associação Cultural de Arte e Comunicação, Dezembro 1998
- VERMELHO, Joaquim - "O Culto do Figurado de Estremoz" in Cultus: o mistério e o maravilhoso nos artefactos portugueses. Lisboa, IEFP: FIL, 2001
- VERMELHO, Joaquim - "Olaria e Barrística de Estremoz" in Artesanato da Região do Alentejo. Évora: IEFP, 2000
- VERMELHO, Joaquim - Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística: Limiar, 1990