Negro a cavalo

  • Museu: Museu Nacional de Etnologia
  • Nº de Inventário: AQ.797
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Artes plásticas
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: Século 20
  • Técnica: A especificação da técnica encontra-se no campo do Historial.
  • Dimensões (cm): Alt. 18 x Larg. 6
  • Descrição: Negro em barro policromado, representando uma figura antropomórfica masculina a cavalo. As figuras assentam numa base plana rectangular pintada de amarela e verde com bordo pintado de laranja e riscas roxas. O animal é constituído por quatro patas de cor negra e dois membros dianteiros e traseiros cilindriformes. O corpo é igualmente cilindriforme e apresenta uma cauda comprida com linhas incisas. Na parte traseira, o animal exibe um ponto inciso. O pescoço é de formato cilíndrico, de contorno superior convexo e contorno inferior côncavo, e exibe ainda de cada lado uma série de incisões que representam a crina. A cabeça do animal apresenta duas orelhas cónicas, um focinho alongado de forma cilíndrica, no qual são visíveis dois olhos, uma linha recta incisa de cor amarela que representa a boca e dois pontos incisos amarelos dispostos paralelamente figurando as narinas. Na cabeça destacam-se, ainda, linhas de cor amarela que representam a cabeçada e rédeas. O animal é pintado de cinzento com manchas de tonalidade negra. A figura masculina encontra-se montada no animal sobre uma manta de tonalidade laranja, com linhas pintadas de amarelo e contorno verde. Sobre esta manta está disposto ainda, um destaque pintado de castanho e de formato cilíndrico, de extremidades decoradas com incisões, figurando uma almofada onde o negro apoia as costas. O negro apresenta duas botas e é constituído por dois membros inferiores cilíndricos que se encontram esticados e dispostos de cada lado do corpo do animal. O tronco é de formato cilíndrico apresentando um ponto inciso na parte lateral esquerda e os membros superiores apresentam-se arqueados para dentro, com as mãos estendidas e assentes nas pernas. As mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico. A cabeça apresenta dois olhos, o nariz é largo em relevo e a boca apresenta lábios grossos delineados e enchidos com cor vermelha. Na cabeça figura ainda cabelo de cor negra picotado para figurar carapinha, encimado por um chapéu de aba circular larga revirada na parte frontal e com copa de formato semi-cilíndrico. O chapéu exibe a tonalidade amarela com rebordo pintado de vermelho. A figura ostenta botas pretas e um fato constituído por calças e casaca. As calças apresentam a tonalidade branca e a casaca é de cor laranja e apresenta uma gola alta e dois destaques de formato triangular que figuram a cauda da casaca. Exibe ainda, cinco destaques vermelhos de formato semi-esférico, dispostos longitudinalmente na parte frontal do tronco. Dimensões da Base: Comp: 7,4 Cm; Larg: 4,4 Cm.
  • Origem/Historial: Na ficha de inventário dactilografada e no Livro de Tombo a peça tem a designação "Boneco de Barro". No entanto, optei por utilizar a denominação "Negro a Cavalo", na medida em que identifica à priori a temática da peça. Técnica: Os métodos utilizados na barrística são, os de rolo, da bola e da lastra, esta última, na elaboração de vestuário e bases. As partes constituintes dos bonecos, que apresentam maior espessura e volume são previamente picadas por meio de uma agulha ou arame e depois corrigidos com os dedos. Este procedimento permite uma maior secagem no interior do boneco evitando assim, quebradura e fendilhagem no acto da cozedura. Um dos aspectos que mais caracteriza os bonecos de Estremoz, e diferencia este figurado do restante, é o facto destes nascerem nus e serem posteriormente vestidos. Um boneco de Estremoz é constituído por diversas partes que são unidas entre si. Assim, a primeira peça a ser realizada é a base, que é feita através de um pedaço de barro espalmado por intermédio de uma palmatória. A próxima tarefa consiste em fazer as pernas ou saias e seguidamente o tronco. Com uma bola de barro, e um molde, segue-se a face e depois o pescoço. Os rostos são, na maior parte dos casos, feitos por meio dum molde e colados à bola de barro que constitui a cabeça. Com a ajuda dum teque ou teco (palheta na gíria dos artesãos) modela-se o cabelo. Coloca-se o boneco na base, previamente feita e com furos no local onde este vai assentar, colando-o com barbutina ou lamugem na gíria bonequeira. De seguida, passa-se para a elaboração dos braços que é realizada através de um rolinho. Corta-se a extremidade que liga ao ombro e faz-se em seguida as mãos. Estas são feitas espalmando-se a extremidade do braço menos grossa, e depois, por intermédio de uma série de incisões com a ajuda dos já mencionados teques criam-se os dedos. Unem-se os braços ao tronco com lamugem. É altura então, de vestir os bonecos e colocar todos os adornos referentes ao modelo representado, como chailes, lenços, brincos, chapéus e um número infindável de enfeites saídos da imaginação do artista, empregando-lhes assim, "movimento, vida, alma" (Vermelho, Joaquim, Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística, página 76, Limiar, 1990). Deixa-se o boneco secar e vai ao forno ou à mufla a 800 cº ou 850 cº, no entanto, é importante referir que durante a modelação do boneco convém deixar secar a peça durante as fases da união das várias partes constituintes do boneco. Os bonecos são peças muito frágeis e portanto, são necessários muitos cuidados no processo de enfornamento. Finalmente, o boneco passa pelo processo de pintura onde prevalecem o verde, o azul, o vermelho, o zarcão, o amarelo, o branco, o roxo, o laranja e o preto. As tintas utilizadas são os óxidos que são dissolvidos em água e misturados com grude previamente derretido. Contudo, foram introduzidos recentemente, por questões comerciais e técnicas, têmperas, ou seja tintas a água ou plásticas que são misturadas com colas resinosas para madeira. Estas colas proporcionam ao boneco, resistência à luz e à humidade, sem no entanto, prejudicar a cor. Sobre a pintura seca é colocado um verniz que, nos séculos passados, era fabricado pelos próprios barristas através de processos que se perderam. Foram posteriormente substituídos por vernizes industriais.
  • Incorporação: Anterior Proprietário: Desconhecido

Bibliografia

  • AZINHAL, Abelho - Memória sobre os barros de Estremoz. Lisboa: Panorama, 1964
  • BORRALHO, Álvaro António Gancho - As Artes do Barro. Contribuição para o estudo dos Bonecos de Estremoz, Dissertação de Tese de Licenciatura em Sociologia vertente de Sociologia da Cultura. ISCTE, Lisboa: 1993
  • CHAVES, Luís - Os Barristas Portugueses: nas escolas e no povo.. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925
  • CONDE, António Fialho - "A Olaria Alfacinha e o Contributo dos Mestres", "Mestres Oleiros no Alentejo" in Mestres Artesãos do Século: artefactos do mundo por mãos portuguesas. Lisboa: Instituto do Emprego e Formação: FIL, 2002
  • CORREIA, Virgílio - "Brinquedos na Louça de Estremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
  • FERRO, António - "Bonecos de Barro" in Vida e Arte do Povo Português. Lisboa: 1940
  • PARVAUX, Solange - La Céramique du Hault-Alentejo. Paris, Lisboa: Puf, Gulbenkian, 1968
  • PESSANHA, D. Sebastião - "Bonecos de Extremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
  • VERMELHO, Joaquim - "Mobilidade e Influências nos bonecos de Estremoz" in Conversas à volta da Olaria. Oficinas do Convento: Associação Cultural de Arte e Comunicação, Dezembro 1998
  • VERMELHO, Joaquim - "O Culto do Figurado de Estremoz" in Cultus: o mistério e o maravilhoso nos artefactos portugueses. Lisboa, IEFP: FIL, 2001
  • VERMELHO, Joaquim - "Olaria e Barrística de Estremoz" in Artesanato da Região do Alentejo. Évora: IEFP, 2000
  • VERMELHO, Joaquim - Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística: Limiar, 1990

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