Sangrador

  • Museu: Museu Nacional de Etnologia
  • Nº de Inventário: AQ.820
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Artes plásticas
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: Século 20
  • Técnica: A especificação da técnica encontra-se no campo do Historial.
  • Dimensões (cm): Alt. 22 x Larg. 14,1
  • Descrição: Sangrador em barro policromado, representando uma figura antropomórfica masculina a fazer sangria a um homem. As figuras assentam numa base de formato rectangular, de tonalidade verde, decorada nas suas extremidade por flores de cor azul, branco e laranja com folhagem verde, e bordo pintado de laranja. O Sangrador exibe dois sapatos, dois membros inferiores de formato cilíndrico cobertos por meias de cor branca e um tronco tronco-cónico. Os membros superiores apresentam-se erguidos e arqueados para dentro. A mão esquerda apresenta-se apoiada no ombro do homem e a mão direita segura um segmento em arame dobrado a meio do seu comprimento, com o qual faz a lancetação ao pescoço do mesmo, encontrando-se ainda, com manchas de cor vermelha figurando sangue. As mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico. A cabeça apresenta dois pontos negros que representam os olhos, encimados por dois traços e duas sobrancelhas de tonalidade negra. O nariz é de formato cónico com ponta arredondada na qual se encontra um destaque em arame representando lunetas. A boca apresenta-se saliente com lábios delineados e enchidos com cor vermelha e o queixo é igualmente saliente. De cada lado da face é visível uma rosácea alaranjada. Na cabeça figura ainda, cabelo de cor verde, encimado por um chapéu de aba circular larga que se encontra revirada e junta na parte frontal. Exibe também, copa de formato cilíndrico. O chapéu apresenta a cor negra com contornos amarelos e pintas da mesma cor situadas onde a aba se encontra revirada. A figura ostenta sapatos negros e calções largos apertados junto aos joelhos de tonalidade amarela e contornos laranja, decorados com flores de cor igualmente laranja e verde. Exibe ainda, uma casaca que apresenta na parte traseira uma cauda bifurcada de formato rectangular, onde se podem ver dois bolsos de forma semi-circular em relevo e dois botões circulares, igualmente em relevo e de tonalidade laranja. Na parte frontal do tronco estão dispostos quatro destaques circulares em relevo, representando botões pintados de laranja. A casaca apresenta gola alta e punhos em relevo, pintada de verde com contornos negros e decorada com ramagens da mesma cor. Apoiado nos braços do Sangrador, encontra-se um destaque de formato rectangular e pintado de branco com as extremidades decoradas com linhas azuis, figurando um pano para onde escorre o sangue. O Homem exibe dois sapatos, dois membros inferiores e tronco cilindriforme. Os membros inferiores econtram-se arqueados para dentro com as mãos estendidas e assentes na cintura. As mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico e apresenta um ponto inciso onde se encontra o instrumento de lancetação. A cabeça apresenta olhos negros delimitados por uma linha vermelha, encimados por dois traços e duas sobrancelhas de tonalidade negra. O nariz encontra-se em relevo com ponta arredondada e a boca encontra-se aberta com o seu interior pintado de vermelho e com pontos de tonalidade branca figurando os dentes. De cada lado da face são visíveis orelhas com incisões e rosáceas alaranjadas. Na cabeça figura ainda, cabelo de cor verde com dois destaque nas partes laterais figurando rolos, encimado por um chapéu de formato clíndrico com destaque na parte frontal do mesmo. A figura ostenta sapatos negros, calças com riscas castanhas e verdes, um colete laranja com contornos negros e três botões da mesma cor, dispostos na parte frontal do tronco. Exibe ainda, uma casaca que apresenta na parte traseira uma cauda bifurcada de contornos arredondados, onde se podem ver dois bolsos de formato semi-circular em relevo e dois botões circulares, igualmente em relevo e de tonalidade laranja. A casaca é pintada de amarelo e decorada com ramagens de cor verde e pintas castanhas. Apresenta ainda, uma camisa de cor branca e gola alta, na qual se encontra uma gravata vermelha encimada por um destaque de formato circular em relevo pintado de azul. Dimensões da Base: Comp: 7,6 Cm; Larg: 10,6 Cm.
  • Origem/Historial: Na ficha de inventário dactilografada e no Livro de Tombo a peça tem a designação "Boneco de Barro". No entanto, optei por utilizar a denominação "Sangrador", na medida em que identifica à priori a temática da peça. A designação "Sangrador" consta na ficha de inventário dactilografada como Nome Local. Técnica: Os métodos utilizados na barrística são, os de rolo, da bola e da lastra, esta última, na elaboração de vestuário e bases. As partes constituintes dos bonecos, que apresentam maior espessura e volume são previamente picadas por meio de uma agulha ou arame e depois corrigidos com os dedos. Este procedimento permite uma maior secagem no interior do boneco evitando assim, quebradura e fendilhagem no acto da cozedura. Um dos aspectos que mais caracteriza os bonecos de Estremoz, e diferencia este figurado do restante, é o facto destes nascerem nus e serem posteriormente vestidos. Um boneco de Estremoz é constituído por diversas partes que são unidas entre si. Assim, a primeira peça a ser realizada é a base, que é feita através de um pedaço de barro espalmado por intermédio de uma palmatória. A próxima tarefa consiste em fazer as pernas ou saias e seguidamente o tronco. Com uma bola de barro, e um molde, segue-se a face e depois o pescoço. Os rostos são, na maior parte dos casos, feitos por meio dum molde e colados à bola de barro que constitui a cabeça. Com a ajuda dum teque ou teco (palheta na gíria dos artesãos) modela-se o cabelo. Coloca-se o boneco na base, previamente feita e com furos no local onde este vai assentar, colando-o com barbutina ou lamugem na gíria bonequeira. De seguida, passa-se para a elaboração dos braços que é realizada através de um rolinho. Corta-se a extremidade que liga ao ombro e faz-se em seguida as mãos. Estas são feitas espalmando-se a extremidade do braço menos grossa, e depois, por intermédio de uma série de incisões com a ajuda dos já mencionados teques criam-se os dedos. Unem-se os braços ao tronco com lamugem. É altura então, de vestir os bonecos e colocar todos os adornos referentes ao modelo representado, como chailes, lenços, brincos, chapéus e um número infindável de enfeites saídos da imaginação do artista, empregando-lhes assim, "movimento, vida, alma" (Vermelho, Joaquim, Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística, página 76, Limiar, 1990). Deixa-se o boneco secar e vai ao forno ou à mufla a 800 cº ou 850 cº, no entanto, é importante referir que durante a modelação do boneco convém deixar secar a peça durante as fases da união das várias partes constituintes do boneco. Os bonecos são peças muito frágeis e portanto, são necessários muitos cuidados no processo de enfornamento. Finalmente, o boneco passa pelo processo de pintura onde prevalecem o verde, o azul, o vermelho, o zarcão, o amarelo, o branco, o roxo, o laranja e o preto. As tintas utilizadas são os óxidos que são dissolvidos em água e misturados com grude previamente derretido. Contudo, foram introduzidos recentemente, por questões comerciais e técnicas, têmperas, ou seja tintas a água ou plásticas que são misturadas com colas resinosas para madeira. Estas colas proporcionam ao boneco, resistência à luz e à humidade, sem no entanto, prejudicar a cor. Sobre a pintura seca é colocado um verniz que, nos séculos passados, era fabricado pelos próprios barristas através de processos que se perderam. Foram posteriormente substituídos por vernizes industriais.
  • Incorporação: Anterior Proprietário: Desconhecido

Bibliografia

  • AZINHAL, Abelho - Memória sobre os barros de Estremoz. Lisboa: Panorama, 1964
  • BORRALHO, Álvaro António Gancho - As Artes do Barro. Contribuição para o estudo dos Bonecos de Estremoz, Dissertação de Tese de Licenciatura em Sociologia vertente de Sociologia da Cultura. ISCTE, Lisboa: 1993
  • CHAVES, Luís - Os Barristas Portugueses: nas escolas e no povo.. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925
  • CONDE, António Fialho - "A Olaria Alfacinha e o Contributo dos Mestres", "Mestres Oleiros no Alentejo" in Mestres Artesãos do Século: artefactos do mundo por mãos portuguesas. Lisboa: Instituto do Emprego e Formação: FIL, 2002
  • CORREIA, Virgílio - "Brinquedos na Louça de Estremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
  • FERRO, António - "Bonecos de Barro" in Vida e Arte do Povo Português. Lisboa: 1940
  • PARVAUX, Solange - La Céramique du Hault-Alentejo. Paris, Lisboa: Puf, Gulbenkian, 1968
  • PESSANHA, D. Sebastião - "Bonecos de Extremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
  • VERMELHO, Joaquim - "Mobilidade e Influências nos bonecos de Estremoz" in Conversas à volta da Olaria. Oficinas do Convento: Associação Cultural de Arte e Comunicação, Dezembro 1998
  • VERMELHO, Joaquim - "O Culto do Figurado de Estremoz" in Cultus: o mistério e o maravilhoso nos artefactos portugueses. Lisboa, IEFP: FIL, 2001
  • VERMELHO, Joaquim - "Olaria e Barrística de Estremoz" in Artesanato da Região do Alentejo. Évora: IEFP, 2000
  • VERMELHO, Joaquim - Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística: Limiar, 1990

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