Mulher dobando na dobadoura

  • Museu: Museu Nacional de Etnologia
  • Nº de Inventário: AQ.825
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Artes plásticas
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: Século 20
  • Técnica: A especificação da técnica encontra-se no campo do Historial.
  • Dimensões (cm): Alt. 9 x Larg. 5
  • Descrição: Mulher a dobar em barro policromado, representando uma figura antropomórfica feminina junto a uma dobadoura. A figura assenta numa base plana rectangular de cantos cortados e de tonalidade amarela. A Mulher encontra-se sentada numa cadeira, apresentando dois sapatos ovais e um vestido. O tronco é cilindriforme e os membros superiores apresentam-se arqueados para dentro. A mão direita segura um destaque de formato esférico com incisões e de tonalidade amarela, figurando um novelo. As mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico. A cabeça apresenta dois pontos negros que representam os olhos, encimados por dois traços de tonalidade castanha que figuram as sobrancelhas. O nariz é triangular em relevo e a boca é representada por uma linha de cor vermelha. O queixo é saliente e de cada lado da face é visível uma rosácea alaranjada. Na cabeça figuram ainda dois destaques de forma circular de tonalidade amarela, dispostos em cada lado da face, representando brincos e cabelo castanho apanhado atrás. A figura ostenta sapatos negros, um vestido rosa decorado com contornos azuis e a sua extremidade inferior apresenta ainda duas linhas da mesma cor. Exibe ainda, sete pontos azuis dispostos na parte frontal do tronco figurando botões e mais dois pontos da mesma cor situados junto a cada uma das mãos figurando botões de punho. A Mulher encontra-se sentada numa cadeira que apresenta as duas pernas da frente de formato cilíndrico e as duas pernas de trás cónicas. As últimas prolongam-se até ao espaldar que as une. O assento é de formato quadrangular e o espaldar apresenta a forma rectangular de cantos arredondados. Na parte frontal da figura, encontra-se uma dobadoura assente numa base semi-esférica. Nesta base ergue-se um eixo vertical em arame, que a meio da sua altura apresenta um elemento amovível em forma de cruz. Cada uma das extremidades da cruz apresenta um orifício onde se erguem quatro segmentos em arame encimados por um destaque igualmente em forma de cruz que apresenta no seu topo um outro destaque de formato piramidal. Nos quatro segmentos de arame passa um fio que se encontra enrolado da dobadoura e que a movimenta, estando ligado à mão esquerda da figura feminina. A cadeira exibe a cor amarela e a dobadoura apresenta a tonalidade azul. Dimensões da Base: Comp: 10,3 Cm; Larg: 4,5 Cm.
  • Origem/Historial: Na ficha de inventário dactilografada a peça tem a designação "Conjunto Escultórico" e no Livro de Tombo tem a designação "Boneco de Barro". No entanto, optei por utilizar a denominação "Mulher dobando na dobadoura", na medida em que identifica à priori a temática da peça. A designação "Boneco de Estremoz" consta na ficha de inventário dactilografada como Nome Local. Técnica: Os métodos utilizados na barrística são, os de rolo, da bola e da lastra, esta última, na elaboração de vestuário e bases. As partes constituintes dos bonecos, que apresentam maior espessura e volume são previamente picadas por meio de uma agulha ou arame e depois corrigidos com os dedos. Este procedimento permite uma maior secagem no interior do boneco evitando assim, quebradura e fendilhagem no acto da cozedura. Um dos aspectos que mais caracteriza os bonecos de Estremoz, e diferencia este figurado do restante, é o facto destes nascerem nus e serem posteriormente vestidos. Um boneco de Estremoz é constituído por diversas partes que são unidas entre si. Assim, a primeira peça a ser realizada é a base, que é feita através de um pedaço de barro espalmado por intermédio de uma palmatória. A próxima tarefa consiste em fazer as pernas ou saias e seguidamente o tronco. Com uma bola de barro, e um molde, segue-se a face e depois o pescoço. Os rostos são, na maior parte dos casos, feitos por meio dum molde e colados à bola de barro que constitui a cabeça. Com a ajuda dum teque ou teco (palheta na gíria dos artesãos) modela-se o cabelo. Coloca-se o boneco na base, previamente feita e com furos no local onde este vai assentar, colando-o com barbutina ou lamugem na gíria bonequeira. De seguida, passa-se para a elaboração dos braços que é realizada através de um rolinho. Corta-se a extremidade que liga ao ombro e faz-se em seguida as mãos. Estas são feitas espalmando-se a extremidade do braço menos grossa, e depois, por intermédio de uma série de incisões com a ajuda dos já mencionados teques criam-se os dedos. Unem-se os braços ao tronco com lamugem. É altura então, de vestir os bonecos e colocar todos os adornos referentes ao modelo representado, como chailes, lenços, brincos, chapéus e um número infindável de enfeites saídos da imaginação do artista, empregando-lhes assim, "movimento, vida, alma" (Vermelho, Joaquim, Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística, página 76, Limiar, 1990). Deixa-se o boneco secar e vai ao forno ou à mufla a 800 cº ou 850 cº, no entanto, é importante referir que durante a modelação do boneco convém deixar secar a peça durante as fases da união das várias partes constituintes do boneco. Os bonecos são peças muito frágeis e portanto, são necessários muitos cuidados no processo de enfornamento. Finalmente, o boneco passa pelo processo de pintura onde prevalecem o verde, o azul, o vermelho, o zarcão, o amarelo, o branco, o roxo, o laranja e o preto. As tintas utilizadas são os óxidos que são dissolvidos em água e misturados com grude previamente derretido. Contudo, foram introduzidos recentemente, por questões comerciais e técnicas, têmperas, ou seja tintas a água ou plásticas que são misturadas com colas resinosas para madeira. Estas colas proporcionam ao boneco, resistência à luz e à humidade, sem no entanto, prejudicar a cor. Sobre a pintura seca é colocado um verniz que, nos séculos passados, era fabricado pelos próprios barristas através de processos que se perderam. Foram posteriormente substituídos por vernizes industriais.
  • Incorporação: Anterior Proprietário: Desconhecido

Bibliografia

  • AZINHAL, Abelho - Memória sobre os barros de Estremoz. Lisboa: Panorama, 1964
  • BORRALHO, Álvaro António Gancho - As Artes do Barro. Contribuição para o estudo dos Bonecos de Estremoz, Dissertação de Tese de Licenciatura em Sociologia vertente de Sociologia da Cultura. ISCTE, Lisboa: 1993
  • CHAVES, Luís - Os Barristas Portugueses: nas escolas e no povo.. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925
  • CONDE, António Fialho - "A Olaria Alfacinha e o Contributo dos Mestres", "Mestres Oleiros no Alentejo" in Mestres Artesãos do Século: artefactos do mundo por mãos portuguesas. Lisboa: Instituto do Emprego e Formação: FIL, 2002
  • CORREIA, Virgílio - "Brinquedos na Louça de Estremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
  • FERRO, António - "Bonecos de Barro" in Vida e Arte do Povo Português. Lisboa: 1940
  • PARVAUX, Solange - La Céramique du Hault-Alentejo. Paris, Lisboa: Puf, Gulbenkian, 1968
  • PESSANHA, D. Sebastião - "Bonecos de Extremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
  • VERMELHO, Joaquim - "Mobilidade e Influências nos bonecos de Estremoz" in Conversas à volta da Olaria. Oficinas do Convento: Associação Cultural de Arte e Comunicação, Dezembro 1998
  • VERMELHO, Joaquim - "O Culto do Figurado de Estremoz" in Cultus: o mistério e o maravilhoso nos artefactos portugueses. Lisboa, IEFP: FIL, 2001
  • VERMELHO, Joaquim - "Olaria e Barrística de Estremoz" in Artesanato da Região do Alentejo. Évora: IEFP, 2000
  • VERMELHO, Joaquim - Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística: Limiar, 1990

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