Azeitoneira
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AT.854
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Artes plásticas
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: Século 20
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Técnica: A especificação da técnica encontra-se no campo do Historial.
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Dimensões (cm): Alt. 14,3 x Larg. 8,2
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Descrição: Azeitoneira em barro policromado, representando uma figura antropomórfica feminina em pé transportando uma cesta.
A figura assenta numa base plana rectangular de cantos cortados pintada de verde com pintas laranja e brancas e bordo igulamente laranja.
A Azeitoneira apresenta dois sapatos e dois membros inferiores cilindriformes cobertos por meias brancas. O tronco é cilindriforme, o membro superior direito apresenta-se arqueado para dentro, com a mão apoiada no tronco e o esquerdo encontra-se estendido para o lado, segurando uma cesta . As mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico. A cabeça apresenta dois pontos negros que representam os olhos, encimados por dois traços e duas sobrancelhas de tonalidade castanha. O nariz encontra-se em relevo e a boca é representada por uma linha recta de cor vermelha. De cada lado da face é visível uma rosácea alaranjada. Na cabeça figuram ainda dois destaques de forma oval de tonalidade amarela, dispostos em cada lado da face, representando brincos. Figura ainda, cabelo de tonalidade negra, coberto por um lenço de cabeça de tonalidade laranja com pintas amarelas, que cai sobre as costas e ombros formando três bicos. Este é encimado por um chapéu negro de aba circular revirada, com copa de formato cónico.
A figura ostenta sapatos amarelos e uma saia apanhada ao jeito de calção apresentando linhas incisas e de tonalidade laranja, debruada a castanho e com laço da mesma cor. Exibe ainda, um avental que aperta em laço na parte das costas, com formato semi-oval e de tonalidade amarela. O avental exibe ainda, contornos pintados de amarelo e laranja. A mulher apresenta também, uma camisola azul com contornos igualmente laranja e três botões de punho da mesma cor, dispostos junto à mão esquerda.
A Ceifeira apoia no seu braço esquerdo, uma cesta de formato tronco-cónico de base invertida, pintada de amarelo e decorada com linhas incisas dispostas na horizontal e vertical, figurando as fibras. A cesta exibe ainda, duas asas dispostas em arco na sua extremidade.
No braço direito encontra-se disposto um destaque de tonalidade negra, figurando uma manta com franjas. Sobre os ombros é exibido um chaile que forma um triângulo nas costas e apresenta na parte frontal do tronco duas pontas que se cruzam. O chaile é pintado de amarelo, decorado na sua extremidade por linhas incisas e franjas de tonalidade laranja e verde.
Na base é visível uma inscrição aplicada por pressão (carimbo): "Estremoz Portugal".
Dimensões da Base:
Comp: 4,2 Cm;
Larg: 4,5 Cm.
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Origem/Historial: Na ficha de inventário dactilografada e no Livro de Tombo a peça tem a designação "Figurado de Barro". No entanto, optei por utilizar a denominação "Azeitoneira", na medida em que identifica à priori a temática da peça.
Na ficha de inventário dactilografada, refere que este objecto foi adquirido em 1962.
Apesar de na ficha de inventário não referir o Nome Local, através do trabalho de campo efectuado em Estremoz, foi averiguado que esta figura é denominada localmente por, "Azeitoneira".
Técnica:
Os métodos utilizados na barrística são, os de rolo, da bola e da lastra, esta última, na elaboração de vestuário e bases. As partes constituintes dos bonecos, que apresentam maior espessura e volume são previamente picadas por meio de uma agulha ou arame e depois corrigidos com os dedos. Este procedimento permite uma maior secagem no interior do boneco evitando assim, quebradura e fendilhagem no acto da cozedura.
Um dos aspectos que mais caracteriza os bonecos de Estremoz, e diferencia este figurado do restante, é o facto destes nascerem nus e serem posteriormente vestidos.
Um boneco de Estremoz é constituído por diversas partes que são unidas entre si. Assim, a primeira peça a ser realizada é a base, que é feita através de um pedaço de barro espalmado por intermédio de uma palmatória. A próxima tarefa consiste em fazer as pernas ou saias e seguidamente o tronco. Com uma bola de barro, e um molde, segue-se a face e depois o pescoço. Os rostos são, na maior parte dos casos, feitos por meio dum molde e colados à bola de barro que constitui a cabeça. Com a ajuda dum teque ou teco (palheta na gíria dos artesãos) modela-se o cabelo. Coloca-se o boneco na base, previamente feita e com furos no local onde este vai assentar, colando-o com barbutina ou lamugem na gíria bonequeira.
De seguida, passa-se para a elaboração dos braços que é realizada através de um rolinho. Corta-se a extremidade que liga ao ombro e faz-se em seguida as mãos. Estas são feitas espalmando-se a extremidade do braço menos grossa, e depois, por intermédio de uma série de incisões com a ajuda dos já mencionados teques criam-se os dedos. Unem-se os braços ao tronco com lamugem.
É altura então, de vestir os bonecos e colocar todos os adornos referentes ao modelo representado, como chailes, lenços, brincos, chapéus e um número infindável de enfeites saídos da imaginação do artista, empregando-lhes assim, "movimento, vida, alma" (Vermelho, Joaquim, Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística, página 76, Limiar, 1990).
Deixa-se o boneco secar e vai ao forno ou à mufla a 800 cº ou 850 cº, no entanto, é importante referir que durante a modelação do boneco convém deixar secar a peça durante as fases da união das várias partes constituintes do boneco.
Os bonecos são peças muito frágeis e portanto, são necessários muitos cuidados no processo de enfornamento.
Finalmente, o boneco passa pelo processo de pintura onde prevalecem o verde, o azul, o vermelho, o zarcão, o amarelo, o branco, o roxo, o laranja e o preto.
As tintas utilizadas são os óxidos que são dissolvidos em água e misturados com grude previamente derretido. Contudo, foram introduzidos recentemente, por questões comerciais e técnicas, têmperas, ou seja tintas a água ou plásticas que são misturadas com colas resinosas para madeira. Estas colas proporcionam ao boneco, resistência à luz e à humidade, sem no entanto, prejudicar a cor. Sobre a pintura seca é colocado um verniz que, nos séculos passados, era fabricado pelos próprios barristas através de processos que se perderam. Foram posteriormente substituídos por vernizes industriais.
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Incorporação: Anterior Proprietário: Desconhecido
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Bibliografia
- AZINHAL, Abelho - Memória sobre os barros de Estremoz. Lisboa: Panorama, 1964
- BORRALHO, Álvaro António Gancho - As Artes do Barro. Contribuição para o estudo dos Bonecos de Estremoz, Dissertação de Tese de Licenciatura em Sociologia vertente de Sociologia da Cultura. ISCTE, Lisboa: 1993
- CHAVES, Luís - Os Barristas Portugueses: nas escolas e no povo.. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925
- CONDE, António Fialho - "A Olaria Alfacinha e o Contributo dos Mestres", "Mestres Oleiros no Alentejo" in Mestres Artesãos do Século: artefactos do mundo por mãos portuguesas. Lisboa: Instituto do Emprego e Formação: FIL, 2002
- CORREIA, Virgílio - "Brinquedos na Louça de Estremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
- FERRO, António - "Bonecos de Barro" in Vida e Arte do Povo Português. Lisboa: 1940
- PARVAUX, Solange - La Céramique du Hault-Alentejo. Paris, Lisboa: Puf, Gulbenkian, 1968
- PESSANHA, D. Sebastião - "Bonecos de Extremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
- VERMELHO, Joaquim - "Mobilidade e Influências nos bonecos de Estremoz" in Conversas à volta da Olaria. Oficinas do Convento: Associação Cultural de Arte e Comunicação, Dezembro 1998
- VERMELHO, Joaquim - "O Culto do Figurado de Estremoz" in Cultus: o mistério e o maravilhoso nos artefactos portugueses. Lisboa, IEFP: FIL, 2001
- VERMELHO, Joaquim - "Olaria e Barrística de Estremoz" in Artesanato da Região do Alentejo. Évora: IEFP, 2000
- VERMELHO, Joaquim - Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística: Limiar, 1990