Mulher fiando com duas ovelhas
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AQ.119
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Artes plásticas
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: Século 20
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Técnica: A especificação da técnica encontra-se no campo do Historial.
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Dimensões (cm): Alt. 16,2 x Larg. 6,5
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Descrição: Mulher a fiar em barro policromado, representando uma figura antropomórfica feminina em pé com roca e fuso acompanhada por duas ovelhas.
A figura assenta numa base plana semi-oval de tonalidade verde com pintas amarelas, laranja e brancas e bordo igualmente pintado de laranja.
A Mulher apresenta dois sapatos e uma saia de formato tronco-cónico, ligeiramente alongado na parte traseira. O tronco é cilindriforme e os membros superiores apresentam-se arqueados para dentro. A mão direita segura o fuso e o braço esquerdo apoia a roca. Estes apresentam formato fusiforme decorados com linhas incisas figurando o linho de tonalidade amarela. Apresentam ainda, um segmento em arame representando as suas pegas. As mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico. A cabeça apresenta dois pontos negros que representam os olhos, encimados por dois traços e duas sobrancelhas de tonalidade castanha. O nariz é triangular em relevo e a boca apresenta lábios delineados e enchidos com cor vermelha. O queixo é saliente e de cada lado da face é visível uma rosácea alaranjada. Na cabeça figuram ainda dois destaques de forma ovoide de tonalidade amarela, dispostos em cada lado da face, representando brincos. Figura também, cabelo castanho,encimado por um destaque de formato semi-esférico de contornos cortados e de tonalidade amarela com linhas incisas pintadas de verde e laranja, figurando uma cesta. No interior da cesta encontram-se cinco destaques de formato circular em relevo pintados de amarelo, podendo figurar queijos.
A figura ostenta sapatos negros, saia azul decorada na sua extremidade inferior por pintas amarelas e laranja. Exibe ainda, um casaco de rosa de contornos verdes que apresenta uma cauda que cai em bico na parte traseira da figura. A cauda do casaco, apresenta um destaque de formato cilindrico de cor vermelha que acompanha os seus contornos. Na parte frontal do tronco estão dispostos cinco pontos verdes que figuram botões e mais dois pontos da mesma cor situados junto a cada uma das mãos figurando botões de punho. Junto ao pescoço, a mulher exibe uma linha verde que forma um laço de pontas que pendem para o tronco.
Frontalmente à figura, encontram-se duas ovelhas deitadas.
Os animais apresentam patas de tonalidade castanha e os membros dianteiros e traseiros encontram-se flectidos. O corpo e o pescoço são cilindriformes e apresentam uma cauda. As cabeças dos animais exibem um focinho alongado de forma cilíndrica, no qual são visíveis dois olhos negros, duas orelhas, dois pontos incisos que representam as narinas e linhas incisas de tonalidade vermelha que figuram a boca.
O animal ostenta a cor branca com manchas negras e castanhas e também incisões que figuram a lã.
Na base é visível uma inscrição aplicada por pressão (carimbo): "Estremoz Portugal".
Dimensões da Base:
Comp: 10,9 Cm;
Larg: 6 Cm.
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Origem/Historial: Na ficha de inventário dactilografada e no Livro de Tombo a peça tem a designação "Boneco de Barro". No entanto, optei por utilizar a denominação "Mulher fiando com duas ovelhas", na medida em que identifica à priori a temática da peça.
Técnica:
Os métodos utilizados na barrística são, os de rolo, da bola e da lastra, esta última, na elaboração de vestuário e bases. As partes constituintes dos bonecos, que apresentam maior espessura e volume são previamente picadas por meio de uma agulha ou arame e depois corrigidos com os dedos. Este procedimento permite uma maior secagem no interior do boneco evitando assim, quebradura e fendilhagem no acto da cozedura.
Um dos aspectos que mais caracteriza os bonecos de Estremoz, e diferencia este figurado do restante, é o facto destes nascerem nus e serem posteriormente vestidos.
Um boneco de Estremoz é constituído por diversas partes que são unidas entre si. Assim, a primeira peça a ser realizada é a base, que é feita através de um pedaço de barro espalmado por intermédio de uma palmatória. A próxima tarefa consiste em fazer as pernas ou saias e seguidamente o tronco. Com uma bola de barro, e um molde, segue-se a face e depois o pescoço. Os rostos são, na maior parte dos casos, feitos por meio dum molde e colados à bola de barro que constitui a cabeça. Com a ajuda dum teque ou teco (palheta na gíria dos artesãos) modela-se o cabelo. Coloca-se o boneco na base, previamente feita e com furos no local onde este vai assentar, colando-o com barbutina ou lamugem na gíria bonequeira.
De seguida, passa-se para a elaboração dos braços que é realizada através de um rolinho. Corta-se a extremidade que liga ao ombro e faz-se em seguida as mãos. Estas são feitas espalmando-se a extremidade do braço menos grossa, e depois, por intermédio de uma série de incisões com a ajuda dos já mencionados teques criam-se os dedos. Unem-se os braços ao tronco com lamugem.
É altura então, de vestir os bonecos e colocar todos os adornos referentes ao modelo representado, como chailes, lenços, brincos, chapéus e um número infindável de enfeites saídos da imaginação do artista, empregando-lhes assim, "movimento, vida, alma" (Vermelho, Joaquim, Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística, página 76, Limiar, 1990).
Deixa-se o boneco secar e vai ao forno ou à mufla a 800 cº ou 850 cº, no entanto, é importante referir que durante a modelação do boneco convém deixar secar a peça durante as fases da união das várias partes constituintes do boneco.
Os bonecos são peças muito frágeis e portanto, são necessários muitos cuidados no processo de enfornamento.
Finalmente, o boneco passa pelo processo de pintura onde prevalecem o verde, o azul, o vermelho, o zarcão, o amarelo, o branco, o roxo, o laranja e o preto.
As tintas utilizadas são os óxidos que são dissolvidos em água e misturados com grude previamente derretido. Contudo, foram introduzidos recentemente, por questões comerciais e técnicas, têmperas, ou seja tintas a água ou plásticas que são misturadas com colas resinosas para madeira. Estas colas proporcionam ao boneco, resistência à luz e à humidade, sem no entanto, prejudicar a cor. Sobre a pintura seca é colocado um verniz que, nos séculos passados, era fabricado pelos próprios barristas através de processos que se perderam. Foram posteriormente substituídos por vernizes industriais.
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Incorporação: Anterior Proprietário: Desconhecido
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Bibliografia
- AZINHAL, Abelho - Memória sobre os barros de Estremoz. Lisboa: Panorama, 1964
- BORRALHO, Álvaro António Gancho - As Artes do Barro. Contribuição para o estudo dos Bonecos de Estremoz, Dissertação de Tese de Licenciatura em Sociologia vertente de Sociologia da Cultura. ISCTE, Lisboa: 1993
- CHAVES, Luís - Os Barristas Portugueses: nas escolas e no povo.. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925
- CONDE, António Fialho - "A Olaria Alfacinha e o Contributo dos Mestres", "Mestres Oleiros no Alentejo" in Mestres Artesãos do Século: artefactos do mundo por mãos portuguesas. Lisboa: Instituto do Emprego e Formação: FIL, 2002
- CORREIA, Virgílio - "Brinquedos na Louça de Estremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
- FERRO, António - "Bonecos de Barro" in Vida e Arte do Povo Português. Lisboa: 1940
- PARVAUX, Solange - La Céramique du Hault-Alentejo. Paris, Lisboa: Puf, Gulbenkian, 1968
- PESSANHA, D. Sebastião - "Bonecos de Extremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
- VERMELHO, Joaquim - "Mobilidade e Influências nos bonecos de Estremoz" in Conversas à volta da Olaria. Oficinas do Convento: Associação Cultural de Arte e Comunicação, Dezembro 1998
- VERMELHO, Joaquim - "O Culto do Figurado de Estremoz" in Cultus: o mistério e o maravilhoso nos artefactos portugueses. Lisboa, IEFP: FIL, 2001
- VERMELHO, Joaquim - "Olaria e Barrística de Estremoz" in Artesanato da Região do Alentejo. Évora: IEFP, 2000
- VERMELHO, Joaquim - Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística: Limiar, 1990