Matança do porco

  • Museu: Museu Nacional de Etnologia
  • Nº de Inventário: AQ.821
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Artes plásticas
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: Século 20
  • Técnica: A especificação da técnica encontra-se no campo do Historial.
  • Dimensões (cm): Alt. 13,3 x Larg. 12,5
  • Descrição: Matança do porco em barro policromado, representando um porco, deitado de lado, rodeado por duas figuras antropomórficas masculinas e uma figura antropomórfica feminina. As figuras assentam numa base semi-oval, de tonalidade beje com manchas amarelas, verdes e castanhas e bordo pintado de laranja com linhas de tonalidade vermelha. O porco encontra-se deitado de lado, sobre um banco de tonalidade castanha, composto por quatro pés de formato cilíndrico, dispostos nas extremidades do banco. Estes, são encimados por um assento de forma rectangular. O animal é constituído por dois membros dianteiros e traseiros cilindriformes. Apresenta corpo igualmente cilindriforme, uma cauda do mesmo formato e disposta em arco e um pescoço cilíndrico. Na parte traseira do animal é visível um ponto inciso. A sua cabeça apresenta um focinho alongado de forma cilíndrica, no qual são visíveis dois pontos negros delineados por um círculo castanho, figurando os olhos, uma linha recta incisa de cor vermelha que representa a boca e um ponto inciso que figura uma das narinas. O focinho do animal exibe ainda, uma linha que o rodeia de tonalidade castanha, figurando uma corda. Na cabeça figuram ainda, duas orelhas. O porco ostenta a cor negra. A segurar o porco, encontram-se duas figuras masculinas que se encontram dispostas na parte de trás do animal. As figuras masculinas apresentam, dois sapatos, dois membros inferiores e o tronco cilindriformes. Os membros superiores apresentam-se esticados para a frente com as mãos apoiadas no porco. O pescoço é de formato cilíndrico. A cabeça apresenta dois pontos negros que representam os olhos, encimados por dois traços e duas sobrancelhas igualmente negras. O nariz é triangular em relevo e a boca apresenta lábios delineados e enchidos com cor vermelha. De cada lado da face é visível uma rosácea alaranjada. Na cabeça figura ainda, cabelo de tonalidade negra, encimado por um barrete de formato cónico, com a ponta dobrada para o lado esquerdo das figuras e decorada com um destaque esférico. O barrete do homem da direita apresenta a tonalidade verde com uma barra e destaque esférico de cor laranja e o barrete da figura da esquerda exibe a tonalidade laranja com uma barra e destaque esférico pintados de verde. O homem à direita exibe na sua mão esquerda um segmento recto em arame, que se encontra espetado no pescoço do animal, figurando uma faca, utilizada para sangrar o porco. As figuras masculinas ostentam sapatos castanhos, calças de tonalidade cinzenta, camisola pintada de azul escuro com uma gola de cor branca que apresenta dois destaques amarelos que figuram botões. Os homens apresentam também, na zona da cintura, um destaque de formato rectangular com dois cantos arredondados e picotado, de tonalidade amarela, disposto na parte traseira das figuras e pendendo para as pernas, podendo figurar um avental. A figura feminina encontra-se disposta na parte frontal do animal ajoelhada, apresentando um vestido de formato tronco-cónico. O tronco é cilindriforme e os membros superiores apresentam-se arqueados, com a mão direita segurando um segmento de tonalidade castanha, figurando uma colher e a mão esquerda apoiada no vestido. As mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico. A cabeça apresenta dois pontos negros que representam os olhos, encimados por dois traços e duas sobrancelhas igualmente negros. O nariz é em relevo e a boca apresenta lábios delineados e enchidos com cor vermelha. De cada lado da face é visível uma rosácea alaranjada. Na cabeça figuram ainda dois destaques de forma ovoide de tonalidade amarela, dispostos em cada lado da face, representando brincos. Figura também, cabelo castanho encimado por um lenço de tonalidade laranja que forma um nó na parte das costas. A figura feminina ostenta um vestido de tonalidade rosa com contornos e enfeites de tonalidade azul. Apresenta ainda, um avental de formato rectangular pintado de branco que aperta num laço na parte das costas. Frontalmente à figura, encontra-se um destaque de formato tronco-cónico de base invertida que figura um alguidar. Este, exibe a tonalidade laranja com o seu interior pintado de vermelho, figurando o sangue que escorre do animal e que é mexido com a colher que a figura feminina segura na sua mão direita. No lado esquerdo da mulher encontra-se ainda, um destaque de formato rectangular, decorado com uma pega numa das suas extremidades, e ainda dois destaques de tonalidade castanha, figurando uma saca que transporta as facas. A saca exibe a cor castanha. Dimensões da Base: Comp: 14 Cm; Larg: 12,5 Cm.
  • Origem/Historial: Na ficha de inventário dactilografada e no Livro de Tombo a peça tem a designação "Boneco de Barro". No entanto, optei por utilizar a denominação "Matança do porco", na medida em que identifica à priori a temática da peça. A designação "Matança de porco" consta na ficha de inventário dactilografada como Nome Local. Técnica: Os métodos utilizados na barrística são, os de rolo, da bola e da lastra, esta última, na elaboração de vestuário e bases. As partes constituintes dos bonecos, que apresentam maior espessura e volume são previamente picadas por meio de uma agulha ou arame e depois corrigidos com os dedos. Este procedimento permite uma maior secagem no interior do boneco evitando assim, quebradura e fendilhagem no acto da cozedura. Um dos aspectos que mais caracteriza os bonecos de Estremoz, e diferencia este figurado do restante, é o facto destes nascerem nus e serem posteriormente vestidos. Um boneco de Estremoz é constituído por diversas partes que são unidas entre si. Assim, a primeira peça a ser realizada é a base, que é feita através de um pedaço de barro espalmado por intermédio de uma palmatória. A próxima tarefa consiste em fazer as pernas ou saias e seguidamente o tronco. Com uma bola de barro, e um molde, segue-se a face e depois o pescoço. Os rostos são, na maior parte dos casos, feitos por meio dum molde e colados à bola de barro que constitui a cabeça. Com a ajuda dum teque ou teco (palheta na gíria dos artesãos) modela-se o cabelo. Coloca-se o boneco na base, previamente feita e com furos no local onde este vai assentar, colando-o com barbutina ou lamugem na gíria bonequeira. De seguida, passa-se para a elaboração dos braços que é realizada através de um rolinho. Corta-se a extremidade que liga ao ombro e faz-se em seguida as mãos. Estas são feitas espalmando-se a extremidade do braço menos grossa, e depois, por intermédio de uma série de incisões com a ajuda dos já mencionados teques criam-se os dedos. Unem-se os braços ao tronco com lamugem. É altura então, de vestir os bonecos e colocar todos os adornos referentes ao modelo representado, como chailes, lenços, brincos, chapéus e um número infindável de enfeites saídos da imaginação do artista, empregando-lhes assim, "movimento, vida, alma" (Vermelho, Joaquim, Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística, página 76, Limiar, 1990). Deixa-se o boneco secar e vai ao forno ou à mufla a 800 cº ou 850 cº, no entanto, é importante referir que durante a modelação do boneco convém deixar secar a peça durante as fases da união das várias partes constituintes do boneco. Os bonecos são peças muito frágeis e portanto, são necessários muitos cuidados no processo de enfornamento. Finalmente, o boneco passa pelo processo de pintura onde prevalecem o verde, o azul, o vermelho, o zarcão, o amarelo, o branco, o roxo, o laranja e o preto. As tintas utilizadas são os óxidos que são dissolvidos em água e misturados com grude previamente derretido. Contudo, foram introduzidos recentemente, por questões comerciais e técnicas, têmperas, ou seja tintas a água ou plásticas que são misturadas com colas resinosas para madeira. Estas colas proporcionam ao boneco, resistência à luz e à humidade, sem no entanto, prejudicar a cor. Sobre a pintura seca é colocado um verniz que, nos séculos passados, era fabricado pelos próprios barristas através de processos que se perderam. Foram posteriormente substituídos por vernizes industriais.
  • Incorporação: Anterior Proprietário: Desconhecido

Bibliografia

  • AZINHAL, Abelho - Memória sobre os barros de Estremoz. Lisboa: Panorama, 1964
  • BORRALHO, Álvaro António Gancho - As Artes do Barro. Contribuição para o estudo dos Bonecos de Estremoz, Dissertação de Tese de Licenciatura em Sociologia vertente de Sociologia da Cultura. ISCTE, Lisboa: 1993
  • CHAVES, Luís - Os Barristas Portugueses: nas escolas e no povo.. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925
  • CONDE, António Fialho - "A Olaria Alfacinha e o Contributo dos Mestres", "Mestres Oleiros no Alentejo" in Mestres Artesãos do Século: artefactos do mundo por mãos portuguesas. Lisboa: Instituto do Emprego e Formação: FIL, 2002
  • CORREIA, Virgílio - "Brinquedos na Louça de Estremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
  • FERRO, António - "Bonecos de Barro" in Vida e Arte do Povo Português. Lisboa: 1940
  • MARTINS, Luis - "Porco Alentejano: Uma indústria em Barrancos", O Voo do Arado. Lisboa: MNE/IPM/MC, 1996
  • O'NEIL, Brian - "Repensando Trabalhos Colectivos Lúdicos: A matança do porco em Alto Trás-os-Montes", Estudos em Homenagem a Ernesto Veiga de Oliveira. Centro de Estudos de Etnologia: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1989
  • PARVAUX, Solange - La Céramique du Hault-Alentejo. Paris, Lisboa: Puf, Gulbenkian, 1968
  • PESSANHA, D. Sebastião - "Bonecos de Extremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
  • VERMELHO, Joaquim - "Mobilidade e Influências nos bonecos de Estremoz" in Conversas à volta da Olaria. Oficinas do Convento: Associação Cultural de Arte e Comunicação, Dezembro 1998
  • VERMELHO, Joaquim - "O Culto do Figurado de Estremoz" in Cultus: o mistério e o maravilhoso nos artefactos portugueses. Lisboa, IEFP: FIL, 2001
  • VERMELHO, Joaquim - "Olaria e Barrística de Estremoz" in Artesanato da Região do Alentejo. Évora: IEFP, 2000
  • VERMELHO, Joaquim - Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística: Limiar, 1990

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