Matança do porco

  • Museu: Museu Nacional de Etnologia
  • Nº de Inventário: BG.083
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Artes plásticas
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: Século 20
  • Técnica: A especificação da técnica encontra-se no campo do Historial.
  • Dimensões (cm): Alt. 14,6 x Larg. 11,5
  • Descrição: Matança do porco em barro policromado, representando um porco, deitado de lado, rodeado por duas figuras antropomórficas masculinas e uma figura antropomórfica feminina. As figuras assentam numa base semi-oval, de tonalidade verde com pintas amarelas, laranja e brancas e bordo pintado igualmente de laranja. O porco encontra-se deitado de lado, sobre um banco de tonalidade castanha, composto por quatro pés de formato rectangular, dispostos nas extremidades do banco. Estes, são encimados por um assento de forma rectangular. O animal é constituído por dois membros dianteiros e traseiros cilindriformes flectidos para trás. Apresenta corpo igualmente cilindriforme, uma cauda do mesmo formato e disposta em arco e um pescoço cilíndrico. No pescoço do animal encontra-se um segmento recto em arame encimado por um destaque de formato ovoide e tonalidade amarela, podendo figurar uma faca utilizada para sangrar o porco. A sua cabeça apresenta um focinho alongado de forma cilíndrica, no qual são visíveis dois pontos incisos negros delineados por um círculo branco, figurando os olhos, uma linha recta incisa de cor vermelha que representa a boca e dois pontos incisos da mesma cor que figuram as narinas. O focinho do animal exibe ainda, um destaque que o rodeia de tonalidade amarela, figurando uma corda. Na cabeça figuram ainda, duas orelhas. O porco ostenta a cor castanha. A segurar o porco, encontram-se duas figuras masculinas que se encontram dispostas na parte de trás do animal. As figuras masculinas apresentam, dois sapatos, dois membros inferiores e o tronco cilindriformes. Os membros superiores apresentam-se esticados para a frente com as mãos apoiadas no porco. O pescoço é de formato cilíndrico. A cabeça apresenta dois pontos negros que representam os olhos, encimados por dois traços e duas sobrancelhas de tonalidade castanha. O nariz é triangular em relevo e a boca apresenta lábios delineados e enchidos com cor vermelha. De cada lado da face é visível uma rosácea alaranjada. Na cabeça figura ainda, cabelo de tonalidade castanha, encimado por um barrete de formato cónico, com a ponta dobrada para o lado esquerdo das figuras e decorada com um destaque esférico. O barrete do homem da direita apresenta a tonalidade laranja com uma barra e destaque esférico de cor verde e o barrete da figura da esquerda exibe a tonalidade verde com uma barra e destaque esférico pintados de laranja. As figuras masculinas ostentam um fato de tonalidade azul com contornos amarelos e uma gola de cor branca que apresenta dois destaques amarelos que figuram botões e colarinhos revirados para fora. O fato da figura da direita exibe ainda, quatro pontos amarelos e o da esquerda três, dispostos longitudinalmente na parte frontal do tronco, figurando botões, e mais dois pontos da mesma cor, situados junto a cada uma das mãos, representando botões de punho. Os homens apresentam também, na zona da cintura um destaque de formato rectangular picotado e de tonalidade branca, disposto na parte traseira das figuras e pendendo para as pernas, podendo figurar um avental. A figura feminina encontra-se disposta à frente do animal ajoelhada, apresentando um vestido de formato tronco-cónico. O tronco é cilindriforme e os membros superiores apresentam-se arqueados, com a mão direita segurando um segmento em arame de tonalidade castanha, figurando uma colher e a mão esquerda apoiada no vestido. As mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico. A cabeça apresenta dois pontos negros que representam os olhos, encimados por dois traços e duas sobrancelhas de tonalidade castanha. O nariz é em relevo e a boca apresenta lábios delineados e enchidos com cor vermelha. De cada lado da face é visível uma rosácea alaranjada. Na cabeça figuram ainda dois destaques de forma ovoide de tonalidade amarela, dispostos em cada lado da face, representando brincos. Figura também, cabelo castanho encimado por um lenço de tonalidade verde com pintas laranja que cai para as costas em forma de bico. A figura feminina ostenta um vestido de tonalidade laranja com contornos vermelhos. Apresenta ainda, três pontos vermelhos dispostos longitudinalmente na parte frontal do tronco, figurando botões e mais dois pontos da mesma cor, junto a cada uma das mãos, representando botões de punho. Na parte frontal da mulher, encontra-se um destaque de formato tronco-cónico de base invertida que figura um alguidar. Este, exibe a tonalidade laranja com o seu interior pintado de vermelho, figurando o sangue que escorre do animal e que é mexido com a colher que a figura feminina segura na sua mão direita. No lado direito da mulher encontra-se ainda, um destaque de formato rectangular com dois cantos arredondados e decorado com uma pega numa das suas extremidades, figurando uma saca que transporta as facas. A saca exibe a tonalidade amarela decorada com círculos entalhados na sua extremidade de tonalidade castanha. A pega ostenta cor amarela. Na base é visível uma inscrição aplicada por pressão (carimbo): "Olaria Alfacinha Estremoz Portugal". Dimensões da Base: Comp: 11 Cm; Larg: 11,3 Cm.
  • Origem/Historial: Na etiqueta de identificação da peça refere a denominação "Matança do porco" e o Dr. Ernesto Veiga de Oliveira como adquirente. Técnica: Os métodos utilizados na barrística são, os de rolo, da bola e da lastra, esta última, na elaboração de vestuário e bases. As partes constituintes dos bonecos, que apresentam maior espessura e volume são previamente picadas por meio de uma agulha ou arame e depois corrigidos com os dedos. Este procedimento permite uma maior secagem no interior do boneco evitando assim, quebradura e fendilhagem no acto da cozedura. Um dos aspectos que mais caracteriza os bonecos de Estremoz, e diferencia este figurado do restante, é o facto destes nascerem nus e serem posteriormente vestidos. Um boneco de Estremoz é constituído por diversas partes que são unidas entre si. Assim, a primeira peça a ser realizada é a base, que é feita através de um pedaço de barro espalmado por intermédio de uma palmatória. A próxima tarefa consiste em fazer as pernas ou saias e seguidamente o tronco. Com uma bola de barro, e um molde, segue-se a face e depois o pescoço. Os rostos são, na maior parte dos casos, feitos por meio dum molde e colados à bola de barro que constitui a cabeça. Com a ajuda dum teque ou teco (palheta na gíria dos artesãos) modela-se o cabelo. Coloca-se o boneco na base, previamente feita e com furos no local onde este vai assentar, colando-o com barbutina ou lamugem na gíria bonequeira. De seguida, passa-se para a elaboração dos braços que é realizada através de um rolinho. Corta-se a extremidade que liga ao ombro e faz-se em seguida as mãos. Estas são feitas espalmando-se a extremidade do braço menos grossa, e depois, por intermédio de uma série de incisões com a ajuda dos já mencionados teques criam-se os dedos. Unem-se os braços ao tronco com lamugem. É altura então, de vestir os bonecos e colocar todos os adornos referentes ao modelo representado, como chailes, lenços, brincos, chapéus e um número infindável de enfeites saídos da imaginação do artista, empregando-lhes assim, "movimento, vida, alma" (Vermelho, Joaquim, Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística, página 76, Limiar, 1990). Deixa-se o boneco secar e vai ao forno ou à mufla a 800 cº ou 850 cº, no entanto, é importante referir que durante a modelação do boneco convém deixar secar a peça durante as fases da união das várias partes constituintes do boneco. Os bonecos são peças muito frágeis e portanto, são necessários muitos cuidados no processo de enfornamento. Finalmente, o boneco passa pelo processo de pintura onde prevalecem o verde, o azul, o vermelho, o zarcão, o amarelo, o branco, o roxo, o laranja e o preto. As tintas utilizadas são os óxidos que são dissolvidos em água e misturados com grude previamente derretido. Contudo, foram introduzidos recentemente, por questões comerciais e técnicas, têmperas, ou seja tintas a água ou plásticas que são misturadas com colas resinosas para madeira. Estas colas proporcionam ao boneco, resistência à luz e à humidade, sem no entanto, prejudicar a cor. Sobre a pintura seca é colocado um verniz que, nos séculos passados, era fabricado pelos próprios barristas através de processos que se perderam. Foram posteriormente substituídos por vernizes industriais.
  • Incorporação: Anterior Proprietário: Desconhecido

Bibliografia

  • AZINHAL, Abelho - Memória sobre os barros de Estremoz. Lisboa: Panorama, 1964
  • BORRALHO, Álvaro António Gancho - As Artes do Barro. Contribuição para o estudo dos Bonecos de Estremoz, Dissertação de Tese de Licenciatura em Sociologia vertente de Sociologia da Cultura. ISCTE, Lisboa: 1993
  • CHAVES, Luís - Os Barristas Portugueses: nas escolas e no povo.. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925
  • CONDE, António Fialho - "A Olaria Alfacinha e o Contributo dos Mestres", "Mestres Oleiros no Alentejo" in Mestres Artesãos do Século: artefactos do mundo por mãos portuguesas. Lisboa: Instituto do Emprego e Formação: FIL, 2002
  • CORREIA, Virgílio - "Brinquedos na Louça de Estremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
  • FERRO, António - "Bonecos de Barro" in Vida e Arte do Povo Português. Lisboa: 1940
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  • VERMELHO, Joaquim - "Mobilidade e Influências nos bonecos de Estremoz" in Conversas à volta da Olaria. Oficinas do Convento: Associação Cultural de Arte e Comunicação, Dezembro 1998
  • VERMELHO, Joaquim - "O Culto do Figurado de Estremoz" in Cultus: o mistério e o maravilhoso nos artefactos portugueses. Lisboa, IEFP: FIL, 2001
  • VERMELHO, Joaquim - "Olaria e Barrística de Estremoz" in Artesanato da Região do Alentejo. Évora: IEFP, 2000
  • VERMELHO, Joaquim - Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística: Limiar, 1990

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