Aguadeiro
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Museu: Museu Nacional de Etnologia
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Nº de Inventário: AQ.109
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Super Categoria:
Etnologia
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Categoria: Artes plásticas
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Autor:
Autor desconhecido (-)
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Datação: Século 20
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Técnica: A especificação da técnica encontra-se no campo do Historial.
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Dimensões (cm): Alt. 15 x Larg. 8,8
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Descrição: Homem em barro policromado, representando uma figura antropomórfica masculina com um burro albardado carregando numa cangalha quatro "quartas".
As figuras assentam numa base plana rectangular, de cor verde com pintas de cor amarela, laranja e branca e bordo igualmente laranja.
O Homem apresenta, dois sapatos, dois membros inferiores e o tronco cilindriformes. Os membros superiores apresentam-se arqueados para a frente com a mão direita apresentando um orifício e a mão esquerda apoiada no burro. As mãos do homem apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico. A cabeça apresenta dois pontos negros que figuram os olhos, encimados por dois traços e duas sobrancelhas de cor castanha. O nariz encontram-se em relevo e a boca apresenta lábios delineados e enchidos com cor vermelha. De cada lado da face são visíveis orelhas e uma rosácea alaranjada. Na cabeça figura ainda, cabelo de tonalidade castanha, encimado por um chapéu negro com aba circular larga ligeiramente revirada nas partes laterais e com copa de formato tronco-cónico.
A figura apresenta sapatos amarelos, calças de tonalidade verde e samarra de cor azul com contornos vermelhos e com dois bolsos dispostos na parte frontal do tronco da mesma cor. É visível também, uma gola de cor branca com dois destaques em relevo de tonalidade amarela, figurando botões. Na parte frontal do tronco exibe ainda seis pontos amarelos em relevo dispostos paralelamente e longitudinalmente em grupos de três, representando botões. Junto a cada uma das mãos encontram-se dois pontos vermelhos, figurando botões de punho.
Frontalmente ao homem, encontra-se um burro constituído por patas de cor negra dois membros dianteiros e traseiros cilindriformes, corpo igualmente cilindriforme e uma cauda comprida com linhas incisas. Na parte traseira do animal é visível um ponto inciso. O pescoço é de formato cilíndrico, de contorno superior arredondado e exibe ainda de cada lado uma série de incisões pintadas a negro que representam a crina. A cabeça do animal apresenta um focinho alongado de forma cilíndrica, no qual são visíveis dois olhos, uma linha recta incisa de cor vermelha que representa a boca e dois pontos incisos dispostos paralelamente figurando as narinas. Na cabeça figuram ainda, duas orelhas cónicas e linhas de cor castanha que representam a cabeçada e rédeas.
O animal é pintado de cinzento claro com pintas negras dispostas na parte frontal dos membros.
No dorso do burro encontra-se uma albarda de tonalidade amarela com pintas de cor laranja e verde.
Sobre a albarda está disposta uma cangalha de tonalidade castanha, que transporta duas "quartas" em cada lado do animal.
As quartas apresentam no seu topo um segmento em arame disposto em arco, figurando a pega. As "quartas" exibem a tonalidade prateada.
Dimensões da Base:
Comp: 11 Cm;
Larg: 5,1 Cm.
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Origem/Historial: Na ficha de inventário dactilografada e no Livro de Tombo a peça tem a designação "Boneco de Barro". No entanto, optei por utilizar a denominação "Aguadeiro", na medida em que identifica à priori a temática da peça.
Técnica:
Os métodos utilizados na barrística são, os de rolo, da bola e da lastra, esta última, na elaboração de vestuário e bases. As partes constituintes dos bonecos, que apresentam maior espessura e volume são previamente picadas por meio de uma agulha ou arame e depois corrigidos com os dedos. Este procedimento permite uma maior secagem no interior do boneco evitando assim, quebradura e fendilhagem no acto da cozedura.
Um dos aspectos que mais caracteriza os bonecos de Estremoz, e diferencia este figurado do restante, é o facto destes nascerem nus e serem posteriormente vestidos.
Um boneco de Estremoz é constituído por diversas partes que são unidas entre si. Assim, a primeira peça a ser realizada é a base, que é feita através de um pedaço de barro espalmado por intermédio de uma palmatória. A próxima tarefa consiste em fazer as pernas ou saias e seguidamente o tronco. Com uma bola de barro, e um molde, segue-se a face e depois o pescoço. Os rostos são, na maior parte dos casos, feitos por meio dum molde e colados à bola de barro que constitui a cabeça. Com a ajuda dum teque ou teco (palheta na gíria dos artesãos) modela-se o cabelo. Coloca-se o boneco na base, previamente feita e com furos no local onde este vai assentar, colando-o com barbutina ou lamugem na gíria bonequeira.
De seguida, passa-se para a elaboração dos braços que é realizada através de um rolinho. Corta-se a extremidade que liga ao ombro e faz-se em seguida as mãos. Estas são feitas espalmando-se a extremidade do braço menos grossa, e depois, por intermédio de uma série de incisões com a ajuda dos já mencionados teques criam-se os dedos. Unem-se os braços ao tronco com lamugem.
É altura então, de vestir os bonecos e colocar todos os adornos referentes ao modelo representado, como chailes, lenços, brincos, chapéus e um número infindável de enfeites saídos da imaginação do artista, empregando-lhes assim, "movimento, vida, alma" (Vermelho, Joaquim, Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística, página 76, Limiar, 1990).
Deixa-se o boneco secar e vai ao forno ou à mufla a 800 cº ou 850 cº, no entanto, é importante referir que durante a modelação do boneco convém deixar secar a peça durante as fases da união das várias partes constituintes do boneco.
Os bonecos são peças muito frágeis e portanto, são necessários muitos cuidados no processo de enfornamento.
Finalmente, o boneco passa pelo processo de pintura onde prevalecem o verde, o azul, o vermelho, o zarcão, o amarelo, o branco, o roxo, o laranja e o preto.
As tintas utilizadas são os óxidos que são dissolvidos em água e misturados com grude previamente derretido. Contudo, foram introduzidos recentemente, por questões comerciais e técnicas, têmperas, ou seja tintas a água ou plásticas que são misturadas com colas resinosas para madeira. Estas colas proporcionam ao boneco, resistência à luz e à humidade, sem no entanto, prejudicar a cor. Sobre a pintura seca é colocado um verniz que, nos séculos passados, era fabricado pelos próprios barristas através de processos que se perderam. Foram posteriormente substituídos por vernizes industriais.
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Incorporação: Anterior Proprietário: Desconhecido
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Bibliografia
- AZINHAL, Abelho - Memória sobre os barros de Estremoz. Lisboa: Panorama, 1964
- BORRALHO, Álvaro António Gancho - As Artes do Barro. Contribuição para o estudo dos Bonecos de Estremoz, Dissertação de Tese de Licenciatura em Sociologia vertente de Sociologia da Cultura. ISCTE, Lisboa: 1993
- CHAVES, Luís - Os Barristas Portugueses: nas escolas e no povo.. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925
- CONDE, António Fialho - "A Olaria Alfacinha e o Contributo dos Mestres", "Mestres Oleiros no Alentejo" in Mestres Artesãos do Século: artefactos do mundo por mãos portuguesas. Lisboa: Instituto do Emprego e Formação: FIL, 2002
- CORREIA, Virgílio - "Brinquedos na Louça de Estremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
- FERRO, António - "Bonecos de Barro" in Vida e Arte do Povo Português. Lisboa: 1940
- PARVAUX, Solange - La Céramique du Hault-Alentejo. Paris, Lisboa: Puf, Gulbenkian, 1968
- PESSANHA, D. Sebastião - "Bonecos de Extremoz" in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia, Volume 1. Lisboa: 1916
- VERMELHO, Joaquim - "Mobilidade e Influências nos bonecos de Estremoz" in Conversas à volta da Olaria. Oficinas do Convento: Associação Cultural de Arte e Comunicação, Dezembro 1998
- VERMELHO, Joaquim - "O Culto do Figurado de Estremoz" in Cultus: o mistério e o maravilhoso nos artefactos portugueses. Lisboa, IEFP: FIL, 2001
- VERMELHO, Joaquim - "Olaria e Barrística de Estremoz" in Artesanato da Região do Alentejo. Évora: IEFP, 2000
- VERMELHO, Joaquim - Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística: Limiar, 1990