Credência (Base de contador?)

  • Museu: Museu de Lamego
  • Nº de Inventário: 433
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Mobiliário
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: 1675/1750
  • Dimensões (cm): Alt. 80 x Larg. 111 x Prof. 60
  • Descrição: Faces e pernas entalhadas e douradas e tampo com pintura marmoreada. Na frente, domina a composição uma grande cartela de volutas de folhagem de acanto encimada por coroa aberta, "apoiada" numa travessa horizontal ondulada em cujas extremidades se apoioam "putti" com flores, encimados por folhagem de acanto que se projeta sobre o motivo central. Nas ilhargas, observam-se mascarões com folhagem de acanto, rematadas inferiormente por grinaldas de folhagem e flores. Nos ângulos da caixa, desenham-se cabeças de águia, que se desenvolvem para formar as pernas galbadas em forma de pernas de sátiros ornadas nos joelhos por pequenos animais fantásticos agachados. Assenta sobre uma estrutura em H e pés de bola, que lhe terá sido, talvez, colocada posteriormente. Na ilharga esquerda, a grinalda é constituída por plantas aquáticas, centradas por uma rosa e, na ilharga direita, por folhas de louro tendo ao centro um girassol, estabelecendo uma curiosa ligação à face frontal, na qual as rosas e os girassóis se repartem pela metade esquerda e direita respetivamente. O tampo é executado em castanho, tal como as ilhargas e o tardoz. A frente e o aro que permite o encaixe do tampo são em casquinha. (Bastos, 1999).
  • Origem/Historial: A criação da Companhia das Índias Orientais inglesa (EIC) em 1600 e das Índias Orientais holandesa (VOC) em 1602 trouxe ao comércio com o Oriente um novo fôlego. Entre as mercadorias transacionadas contavam-se contadores lacados importados quer da China, quer do Japão. Muito apreciados na Europa pelas suas cores fortes e pela sua decoração ao gosto oriental rapidamente foram copiados pelos artífices ingleses e holandeses, os quais criaram bases douradas ou prateadas que realçavam a sua riqueza cromática. Executadas numa talha exuberante fiel ao gosto barroco, estas possuíam formas muito elaboradas, pernas lançadas em audaciosas volutas e faces entalhadas numa combinação de "putti" e folhagem de acanto, motivos paradigmáticos do Barroco. Por vezes, combinavam-se com cimalhas entalhadas e douradas aplicadas nos próprios contadores. Corresponderão talvez aos "(...) escriptorios de xarão da Índia com pés e remates de entalhado dourado que custarão quatrocentos mil reis" (Cruz, 1979), que em 1708 se contavam entre os bens do Bispo-Conde D. António de Vasconcelos e Sousa (Bispo de Lamego entre 1693 e 1706). A esses artífices cabia igualmente a execução de aparatosos conjuntos, formados por tocheiros, contadores, mesas de encostar e espelhos de parede. A combinação de cabeças de águias e sátiros, presente neste exemplar, era habitual nas peças de origem holandesa de finais de seiscentos. Desse tipo serão talvez os conjuntos mencionados entre os bens do Bispo-Conde D. António de Vasconcelos e Sousa: "H~um adereço de casa que consta de dous escriptorios de xarão tres espelhos com as mesmas molduras, hüm da marca grande, dous de menos tamanho, os pés dos escriptorios de talha, e os espelhos com remates da mesma talha exceto o grande tudo dourado, quatro valadores (tocheiros) e dois bofetes piquenos tudo de xarão quer custarão hüm conto e trinta mil reis" (Cruz, 1979). Este exemplar poderá corresponder a uma dessa bases de contadores - a que se acrescentou o tampo-, ao que parece usados em Portugal no final do séc. XVII e início da centúria seguinte, ou aos bufetes dourados com figuras aos cantos descritas nalguns inventários. Nesses suportes se inspiram, segundo Robert Smith, os entalhadores portugueses que executaram algumas credências, sobretudo nos exemplares fabricados no segundo quartel do séc. XVIII, o que nos obriga a colocar a hipótese de este exemplar do Museu ter sido executado com essa finalidade. De acordo com os inventários estudados, na capela particular dos Bispos, emncontravam-se duas credências, uma de cada lado do altar. Em 1908, mobilavam o Salão do Trono, quando a capela passou a albergar a colecção de ourivesaria daquele que foi o primeiro "museu", criado pelo Bispo D. Francisco José de Vieira e Brito, que governou a diocese de 1901 a 1922. Conserva-se na Igreja Paroquial de Arrentela (Seixal) uma credência com cabeças de águia nos cantos, exemplar de execução nacional (Bastos, 1999)
  • Incorporação: antigo Paço Episcopal de Lamego

Bibliografia

  • AMARAL, João - Roteiro Ilustrado da Cidade de Lamego. Lamego: 1961
  • BASTOS, Celina; PROENÇA, José António - Museu de Lamego. Mobiliário. Lisboa: IPM/Museu de Lamego, 1999
  • IAN/TT, Mitra de Lamego, Lv.º 50, Inventário do Espolio do Ex.mo e Rev.mo Bispo D. Joze de Jezus Maria Pinto. Lamego: 1826
  • IAN/TT, Mitra de Lamego, Lv.º49, Inventário das Alfaias, movens, e bens de Raiz, pertencentes ao Paço Episcopal. Lamego: 1821
  • LARANJO, F. J. Cordeiro - Museu de Lamego. Lamego: C.M.Lamego, 1991
  • MARQUES, Maria da Luz Vasconcelos e Sousa Paula - Mobiliário Português de Aparato do século XVIII. Credências, Consolas e Tremós. Dissertação de Mestrado em História da Arte apresentada à F.L.U.P. (texto policopiado). Porto
  • RODRIGUES, José Júlio - O Paço Episcopal de Lamego. Porto: 1908

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