Descrição: Tampo retangular, com rebordo moldurado e acentuado balanço lateral. O aro apresenta doze gavetas, sendo as das ilhargas fingidas, e os cantos e a separação entre gavetas faz-se por mísulas (ou modilhões) decoradas com folhagem de acanto. Nas frentes das gavetas, almofadas lisas enquadradas por molduras de tremidos que se repetem na restante superfície do aro. Base com moldura encordoada. Assenta sobre três travessões onde encaixam as seis pernas torneadas, constituídas por seções de torneado em espiral intercaladas por discos, bolachas e bolas achatadas. Travessas torneadas, apresentando uma sucessão de bolachas e bolas achatadas e quadras lisas. Pés de bolacha.
Nas gavetas, fechaduras do tipo usado no final do século XVII e inícios do século XVIII. Nas frentes das gavetas, observam-se vestígios de ferragens de formato retangular, provavelmente das do tipo usado no "Entre-Douro e Minho".
(Bastos e Proença, 1999)
Origem/Historial: Segundo Robert Smith, a decoração de "tremidos" usou-se em Portugal a partir de 1650, tendo-se então tornado um dos motivos decorativos paradigmáticos do que considerou o "Estilo nacional". Molduras de "tremidos" decoravam as caixas (aros) de bufetes, contadores, arcas e móveis de sacristia, tendo invadido as cabeceiras dos leitos de bilros, nas quais se combinavam com os típicos pináculos torneados de origem da designação. Por vezes, estas molduras ocuparam toda a superfície da peça, nomeadamente em bufetes e contadores.
Originalmente executado em pau-santo, este móvel apresenta inúmeros restauros que de certo modo o descaracterizaram. Assim, o travejamento em castanho e respectivas quadras não lhe pertencem. As pernas, executadas em pau-santo, parecem ser um aproveitamento de outro móvel, talvez das travessas de um bufete, enquanto, os pés, em pau-santo, parecem ser os originais. As mísulas do aro, em castanho, poderão ter tido esta forma, mas seriam executadas na mesma madeira do aro. Assim, da estrutura inicial, permanecem as gavetas, executadas em cerejeira, as molduras de tremidos das gavetas e do aro, o tampo e os pés, executados em pau-santo.
Um bufete em pau-santo mobilava, entre outros móveis, a livraria do antigo Paço, como parece ter sido usual nas livrarias, nomeadamente de mosteiros cujas descrições chegaram até nós através dos seus relatórios trienais. Descrito no inventário de 1821 como "Huã Meza de pau preto, com quatro gavettas grande, e antiga, avaliada em quatro mil reis", é mencionado no inventário de 1860 como "Huma meza grande folhetada de pau preto com doze gavetas e ferragem amarella antiga em bom uso". Em 1826 fora descrita, na mesma dependência, como "Huã meza antiga com quatro gavetas, de pau de castanho comprida". (Bastos e Proença, 1999)
Incorporação: antigo Paço Episcopal de Lamego
Bibliografia
BASTOS, Celina; PROENÇA, José António - Museu de Lamego. Mobiliário. Lisboa: IPM/Museu de Lamego, 1999
IAN/TT, Mitra de Lamego, Lv.º 50, Inventário do Espolio do Ex.mo e Rev.mo Bispo D. Joze de Jezus Maria Pinto. Lamego: 1826
IAN/TT, Mitra de Lamego, Lv.º49, Inventário das Alfaias, movens, e bens de Raiz, pertencentes ao Paço Episcopal. Lamego: 1821
IAN/TT, Mitra de Lamego, Lv.º50, Inventário de todos os moveis da Mitra de Lamego feito por ordem do Governo de Sua Majestade. Lamego: 1860
LARANJO, F. J. Cordeiro - Museu de Lamego. Lamego: C.M.Lamego, 1991
RIBEIRO, Agostinho - Mobiliário do Museu de Lamego (catálogo). Lamego: Museu de Lamego, 1997
RODRIGUES, José Júlio - O Paço Episcopal de Lamego. Porto: 1908