Descrição: Representação de cabeça de búfalo em madeira composta de três elemtentos: pescoço, cabeça e chifres.
O pescoço tem o formado cilíndrico e a cor natural da madeira.
A cabeça está pintada de amarelo, com contornos pretos. Apresenta uma boca entreaberta e a mandíbula inferior está presa pela sua base e com tiras de borracha à cabeça e de forma a ser articulável. Está pintada de branco e junto ao seu rebordo frontal apresenta um tufo de fibras sintéticas de cor azulada. O contorno do lábio é preto e no seu interior pintado de vermelho apresenta umas saliências pintadas de branco em representação da dentição. O focinho é recto, pintado de vermelho com as narinas definidas com um contorno branco. Os olhos consistem em dois vértices na madeira pintados com várias circunferências pretas e brancas alternadas e o centro com um pequeno círculo preenchido a preto. Acima dos olhos é visível um contorno semi-circular a preto e abaixo dos olhos um pequeno contorno com um traço a vermelho e uma linha vertical perpendicular àquele a vermelho. A cabeça apresenta na superfície entre a ponta do focinho e o seu topo uma linha larga pintada a vermelho que estreita na direcção dos olhos e alarga em direcção ao topo. A testa apresenta um chifre pontiagudo encurvado na direcção do focinho e apresenta-se decorado na sua superfície central por uma lista branca contornada a preta e preenchida com vários v's invertidos paralelos pintados a vermelho. As orelhas estão pregadas de ambos os lados da cabeça acima dos olhos, são estreitas na sua base, alargam a apartir daí para assumirem um recorte circular. São de madeira, com pouca espessura, pintadas na superfície posterior de amarelo e à frente de vermelho e contornadas a preto. Acima destas partem dois grandes chifres facetados, projectados para a parte posterior da cabeça e bastante encurvados para baixo. Estão pintados de preto, em cima estão decorados com vários v's espaçados e pintas vermelhas. De lado apresentam uma linha de pintas brancas espaçadas.
A parte posterior da cabeça está toda coberta por um tecido em tons de azul e branco que se encontra pregado aquela formando uma manga que cobre todo o pescoço da figura assim como o suporte metálico onde aquela se apoia. Este suporte metálico de cor preta, tem uma base rectangular de pouca espessura e desta parte um pilar paralelipipédico que estreita em direcção ao seu topo ondfe está fixa a base do pescoço da figura.
Base - 17 x 31 cm
Origem/Historial: Personagem do teatro de máscaras e marionetas popular na região centro-sul do Mali.
Objecto pertencente a um total de 50 máscaras e marionetas provenientes do Mali, adquiridos por Francisco Capelo a Sónia e Albert Loeb, com vista à sua doação ao Museu Nacional de Etnologia, concretizada em 2004. Esta doação foi homenageada pelo Museu através da realização da exposição temporária "Sogobó. Máscaras e Marionetas do Mali", patente ao público entre 12 de Novembro de 2004 e 30 de Maio de 2007. A sua inauguração teve lugar no dia de aniversário do doador, segundo a sua vontade, quando este completou 50 anos de idade, facto esse assinalado intencionalmente pelo número de objectos doados.
Este conjunto de objectos faz parte de um conjunto mais vasto recolhido na região centro-sul do Mali, entre 2001 e 2003, pelos coleccionadores e galeristas franceses Sónia e Albert Loeb.
O teatro de máscaras e marionetas tem uma tradição secular naquela zona do Mali, mais concretamente na região de Ségou e adquire localmente diversas designações, das quais sogobó é apenas uma delas e que significa os animais são revelados. Este teatro é organizado por diferentes associações de jovens em várias localidades e consiste numa sequência de várias danças de máscaras e marionetas, ritmadas por instrumentos de percussão e por cânticos de coros femininos que dão voz às personagens.
Estas máscaras e marionetas representam animais do rio (p. ex. peixes, crocodilos) ou do bosque (p. ex. hipopótamos, gazelas, leopardos) e figuras humanas (p. ex. velho, aldeão, funcionário da administração colonial, a esposa ideal, etc.), personificando estéreotipos ou caricaturando figuras conhecidas de todos.
Este teatro é tido localmente como uma actividade lúdica e para além disso desempenha um papel social importante na veiculação de valores morais dentro das comunidades onde é levado a cena.
A região de Ségou é atravessada pelo rio Níger e terá sido ao longo deste que esta prática se difundiu: primeiro entre as comunidades ribeirinhas piscatórias e mais tarde através das comunidades agrícolas. São quatro os grupos étnicos que dentro da sua comunidade perpetuam esta tradição: os Bozo e os Somonò – pescadores – e os agricultores e comerciantes Bamana e Maraka.
Segundo Mary Jo Arnoldi, antropóloga autora do texto do catálogo (ARNOLDI, 2004), não existem muitas diferenças ao nível da estética ou da construção das máscaras/ marionetas entre os diferentes grupos; uma vez que aquelas chegam a ser adquiridas aos mesmos escultores itinerantes, e porque os diferentes grupos de jovens admitem influenciarem-se mutuamente. As diferenças acontecem mais ao nível da performance e de estilos muito próprios de dança, música ou do encadeamento entre estes dois.
Após a independência do Mali em 1960, o governo malinense promoveu de tal forma este teatro como parte da herança cultural do país que este conheceu um ressurgimento e actualmente os grupos contam já com patrocínios nacionais e internacionais para a realização de tournées fora do país, tratando-se por isso de uma tradição viva.
Bibliografia
ARNOLDI, Mary Jo - Sogobo. Mascaras e marionetas do Mali. Lisboa: Instituto Portugues de Museus, 2004
ARNOLDI, Mary Jo - Playing with Time: art and performance in Central Mali. Bloomington, Indiana: Indiana University Press, 1995.
ARNOLDI, Mary Jo - "The sogow. Imagining a moral universe through Sogo bò masquerades". In: COLLEYN, Jean-Paul (ed.) - Bamana. The art of existence in Mali. New York: Museum for African Art, 2001, pp. 77-93.
DAGAN, E. A. - Emotions in Motion. Theatrical Puppets and Masks from Black Africa. Montréal: Galerie Amrad African Arts, 1990.
DARKOWSKA-NIDZGORSKI, Olenda, NIDZGORSKI, Denis - Marionettes et masques au coeur du théâtre africain. Saint-Maur: SEPIA, 1998.